La Cage Aux Folles e a Música de um Gênio. Por Claudio Botelho.
junho 16, 2010 by Site Möeller & Botelho
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Os diretores Charles Möeller & Claudio Botelho analisam os principais espetáculos em cartaz na Broadway no momento
Minha história com LA CAGE AUX FOLLES – o musical – começa há muito anos. Muitos mesmo. Eu tinha uns 17 quando comprei um LP que foi lançado aqui com o elenco da montagem original da Broadway. Estava começando a me interessar por musicais, tinha muito pouco acesso aos discos, pois tudo era importado, caro, e não existia Internet (eu sou antigo!), de modo que conseguir comprar um LP de um musical da Broadway naquele tempo era uma façanha pra mim.
Bom, o que importa é que o destino pôs na minha mão aquele disco e – tenham certeza – talvez tenha sido um dos musicais que eu mais escutei até hoje na vida. Eu ouvia aquilo compulsivamente, praticamente todos os dias, e quanto mais ouvia mais me encantava com aquela música. Sei de cor cada palavra das letras, sei cada nota da partitura, sei até as falas que estavam gravadas no álbum. Os intérpretes principais eram Gene Barry (o ator que fazia Bud Masterson numa série de TV) como George, e George Hearn que fazia Zazá. George Hearn é ainda para mim uma das vozes mais lindas da Broadway, além de um ator impecável, com uma classe incrível. Pude vê-lo em cena algumas vezes nesses anos todos e cada vez mais o tenho como ídolo.
Hoje há registros em vídeo muito ruins da montagem original. Tudo que existe são gravações de programas de TV ou a apresentação no Tony Award do ano de 1984, onde vemos alguns números das ‘Cagelles’ ou Hern cantando “I Am What I Am” sem caracterização, sempre vestindo um smoking. Portanto, minha ligação com o espetáculo foi, durante muito tempo, com a música mesmo, o que estava no LP.
Aprendi naquele LP quem era Jerry Herman (foto à direita), o compositor, e fui atrás de outras coisas dele. Percebi, com o tempo, que talvez eu goste tanto de Herman quanto de Sondheim e da dupla Kander & Ebb, que são meus compositores contemporâneos favoritos. Hoje tenho tudo de Jerry Herman, todos os seus shows (os fracassos e os sucessos) e posso dizer que ele nunca escreve uma canção que seja descartável. Todas são lindas. Discípulo de Irving Berlin (música e letras), Jerry Herman foi muito influenciado e muito ajudado pelo mestre que lhe deu o caminho para criar canções que sejam facilmente absorvidas por quem as ouve sem serem vulgares ou pobres. A música de Herman vai direto ao coração, assim como as geniais criações de Irving Berlin. Nenhum dos dois fez canções por fazer, canções de passagem, técnicas – todas vêm molhadas de humor ou de emoção.
Por exemplo, um show de Herman que fracassou, “Mack And Mabel”, não tem uma única canção ruim, é tudo contagiante. Os números que ele escreveu para “A Day In Hollywood” são no mínimo geniais; o score inteiro de “Mame” é de pérolas; o mesmo dá pra dizer de “Milk and Honey”, “Parade”, entre outros. E “Hello, Dolly” dispensa qualquer apresentação, mesmo que a canção título tenha sido considerada um plágio de uma antiga gravação de Frank Sinatra, plágio esse que Herman acabou tendo que negociar e pagou um milhão de dólares para que o caso fosse “arquivado”, ou algo assim. Não sei os detalhes disso e nem interessa no momento.
Além dos discos com os elencos originais, comecei a curtir Jerry Herman mais ainda quando comprei o CD de Jerry´s Girls, uma revista com as canções dele de diversas fontes. E também o CD em que Michael Feinstein canta acompanhado pelo próprio JH ao piano, este sim um disco pra estar na primeira prateleira da estante pra sempre. Há vários tributos e noites de Gala com a música de Jerry Herman, uma delas lançada em DVD (gravado no Hollywood Bowl) que rendem momentos incríveis de muita emoção e prazer.
Bom, mas estou aqui pra falar de LA CAGE AUX FOLLES. O fato é que só consegui unir aquele som que ficou anos na minha mente a um espetáculo real, em carne e osso, quando assisti à montagem de 2003 na Broadway. E entrei em êxtase. Tinha o sensacional Gary Beach (sentado, à esquerda) no papel de Zazá, um comediante maravilhoso que quase roubava a cena como o diretor gay em “The Producers” (no filme e no teatro) e era uma superprodução, com quase 20 ‘Cagelles’ em cena, cenários enormes, uma coreografia genial de Jerry Mitchel, enfim uma montagem digna de Broadway mesmo. Foi minha primeira vez assistindo a La Cage e não ficou nada a dever ao que minha fantasia baseada nas músicas me fazia imaginar.
Já no ano passado fomos, eu e Charles, assistir à montagem que estava em cartaz em Londres, num teatro pequeno, quase fora do West End (na verdade, era uma montagem que havia se mudado de um teatro menor ainda e mais afastado). O que vimos foi uma produção muito pobre, atores dobrando papéis em cena, cenários muito caídos, figurinos próximos de um show de boate, orquestra de meia dúzia de músicos. Era uma decepção como espetáculo, mas tinha dois bons protagonistas. John Barrownman estava estreando no papel de Zazá, e ele canta muito bem. Infelizmente ele é bonito demais pro papel, é um galã no lugar errado, já que Zazá deve ser uma bicha matrona, nunca alguém que tira a camisa em cena e mostra alguns gomos no abdome. Mas enfim, a música é tão bonita que a noite foi divertida.
Quando soubemos que aquela mesma montagem iria para Broadway em seguida, imaginamos que iriam dar um banho de loja naquilo, afinal estava muito longe do padrão Broadway de musicais.
Bem, o que vimos agora na Broadway é exatamente a mesma produção. Tudo igual, mas tudo restaurado, melhorado, mais limpo e bem acabado. Continuo achando uma produção acanhada para um ingresso de 120 dólares, já que a orquestra não tem cordas, há apenas seis bailarinos no coro e os cenários são os mesmos de Londres, ou seja, pobres. Mas o que faz você esquecer tudo isso é que, liderando o elenco, estão dois atores dos mais talentosos que já vi num palco de teatro musical até hoje.
Começando pelo George de Kelsey Grammer (dir.) famoso pela série “Frasier” na televisão: o cara é o melhor George que eu já vi. Um papel ingrato, que sempre acaba ofuscado pelo travesti que o acompanha, costuma fazer com que os atores que o representam se sintam na obrigação de exagerar em tudo para arrancar gargalhadas da plateia. Grammer não faz nada disso. Ele está sempre cedendo lugar ao brilho do companheiro e isso lhe confere uma classe que a gente se encanta com ele de imediato. Canta lindamente as canções do personagem que são suaves e escritas para voz de barítono que saiba se expressar sem gritos ou trejeitos. Um tiro mesmo a escolha deste ator.
Agora, não há como ficar imune a Douglas Hodge como Zazá (Albin, quando vestido de ‘homem’). Ele tira a gente do sério. Não provoca riso, provoca uma convulsão na plateia.
Geralmente sou impaciente com atores que gesticulam muito e que fazem muitos movimentos em cena, me dá a impressão de que querem chamar mais atenção que o que estão dizendo. Hodge (esq.) faz tudo isso, ele não pára um único segundo, parece que está com alguma espécie de sarna porque se coça e se contorce o tempo todo, mas faz tão bem e com tanta convicção que o resultado é difícil de descrever: é preciso assistir mesmo! Não é uma grande voz no sentido dado por George Hearn ao papel inicialmente, mas quem precisa de mais voz quando aquela que está ali é absolutamente crível, afinada, concentrada, e dá tanta humanidade ao papel? Acrescento ainda o despudor com que Hodge se despe em cena, mostrando que é um travesti de meia idade (embora o ator aparente menos de 40 anos), decadente sim, maluco sim, mas generoso e doce. Zazá não tem maldade, o musical é sobre isso: um travesti aparentemente desmiolado e que vive num mundo de fantasia, que se transforma num herói numa noite que tinha tudo para ser um desastre. Douglas Hodge faz de Zazá o momento mais brilhante desta temporada na Broadway, e não é nenhuma surpresa que ele tenha acabado de ganhar o Tony de Melhor ator pelo papel. Sean Hayes, outro ponto alto da temporada com sua atuação em “Promises, Promises”, acabou perdendo o prêmio para outro comediante gay com atuação exemplar. Os espetáculos em geral não estão muito brilhantes neste ano, mas essas atuações masculinas valem a viagem.
“La Cage Aux Folles é – e sempre foi – uma peça séria. A comédia de Jean Poiret sempre foi encenada no mundo todo como um libelo contra a hipocrisia e um tapa na cara dos ‘bons costumes’ burgueses”
Acho que vale ainda dizer que LA CAGE AUX FOLLES é – e sempre foi – uma peça séria. A comédia de Jean Poiret sempre foi encenada no mundo todo como um libelo contra a hipocrisia e um tapa na cara dos “bons costumes” burgueses, especialmente nos anos 70/80, quando a peça foi levada à cena inicialmente, um momento em que pouco se falava sobre liberação homossexual e o assunto era tratado de maneira muito envergonhada no teatro. Colocar um casal gay em cena, sendo um dos cônjuges um travesti, era uma atitude de vanguarda e, embora cheia de piadas e muito engraçada, a peça não deixava nunca de dar seu recado contundente e debochar com muita ironia dos preconceitos de então. O filme com Ugo Tognazi e Michel Serrault é obra prima, comédia sim, mas totalmente política e explicitamente liberal, tendo sido proibido em muitos países (em quase toda a América Latina inclusive) quando foi lançado.
Infelizmente, a peça foi montada no Brasil com um cunho machista inaceitável. Ficou anos em cartaz com o grande Jorge Dória (um dos melhores comediantes que já vi em cena até hoje) no papel de George e Carvalhinho (outro gênio da comédia) como Zazá. Eram dois atores incríveis, mas uma montagem que ridicularizava o relacionamento do casal, colocava tudo na base do deboche e com aquele viés para a chanchada que infelizmente tanto fez e ainda faz a felicidade de um certo tipo de plateia.
LA CAGE AUX FOLLES, o musical, é uma comédia tão séria quanto a peça. As canções são super engraçadas quando têm de ser, mas muito emocionantes quando tratam do que é o tema central da peça, ou seja, o respeito à liberdade do próximo. Não é um show de escracho, é uma comédia de situação milietricamente construída para que os personagens se apresentem, se engalfinhem e acabem se entrelaçando num final patético, mas feliz. Todas as montagens a que assisti fora do Brasil, desde a de 2004 até a atual, todas sem exceção não fazem concessão à piada fácil ou ao deboche com os gays. Você sai do teatro amando a Zazá, nunca rindo dela. Isso é fundamental.
Se você tiver a oportunidade de estar em Nova York nos próximos meses (não há data para o final da temporada), não pense duas vezes: vá assistir a LA CAGE AUX FOLLES. É imperdível!
Claudio Botelho
Créditos das Fotos:
* Broadway.com
* Playbill.com
* The New York Times
* Theatermania.com
* Lacage.com
American Idiot: Ópera Punk Rock Anárquica e Contestadora. Por Charles Möeller
junho 11, 2010 by Site Möeller & Botelho
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Os diretores Charles Möeller & Claudio Botelho analisam os principais espetáculos em cartaz na Broadway no momento
‘American Idiot’ é um espetáculo baseado num disco conceitual da banda de punk rock americana Green Day, lançado em 2004, de enorme sucesso e prestígio, considerado como um dos melhores discos de punk rock de todos os tempos.
Ele é muito similar em termos de estrutura com outros álbuns como The Wall, do Pink Floyd, e Tommy do The Who, ou seja, uma ópera rock. E como aconteceu com Tommy era quase inevitável sua adaptação para musical e para o cinema – Já dizem que Tom Hanks adquiriu os direitos e estaria interessado em levá-lo pro cinema.
Além de músicas do álbum “American Idiot”, o musical acrescentou algumas canções do disco “21st Century Breakdown” (2009) e uma inédita. O espetáculo é basicamente o disco em cena. Obviamente se expande o conceito do álbum por meio de cenas curtas e poucos diálogos costurados durante uma hora e meia sem intervalo.
Com base no universo niilista do punk, o musical propõe um painel de um tipo de juventude atual através de seus protagonistas e não tem como falar da montagem sem entrar na sua rebuscada história. Então pra quem não viu e quer surpresa pule esse parágrafo (spoilers): Johnny, Will e Tunny, três jovens de classe média americana de vinte e poucos anos, inconformados com a vida medíocre do subúrbio planejam fugir pra cidade grande acreditando que suas frustrações e anseios sejam aplacados. Na véspera da viagem, Will descobre que sua namorada está grávida e resolve ficar. Johnny e Tunny vão para a cidade. Enquanto Johnny ama tudo que vê e se deslumbra com a possibilidade de um novo mundo, Tunny não se enquadra na vida da grande metrópole e se alista no exército. Johnny, frustrado com o abandono de seus amigos e com sua incapacidade pessoal de se conectar com o mundo, cai nas drogas e acaba criando um alterego: poderoso, descolado, urbano, um ícone punk. No subúrbio, a vida de Will caminha a passos lentos, se tornando apática e sem sentido. Ele fica inerte com sua total incapacidade em assumir a paternidade e passa os dias no sofá alcoolizado! Tunny é enviado para guerra, é ferido a tiros e acaba perdendo uma perna. Johnny vai ao fundo do poço com a heroína e, sem amigos e sem ninguém, é obrigado a reconhecer que sua vida tem sido um nada. Volta pro subúrbio e reencontra Will já separado e Tunny recém chegado do Iraque. Os três unidos novamente com destinos opostos, mas com muito em comum: suas escolhas erradas, suas frustrações e suas perdas! Anti-heróis americanos.
O show tem uma equipe de criação parecidíssima com o ‘Spring Awekening’: produção de Tom Hulce, direção de Michael Mayer, luz de Kevin Adams e cenário de Christine Jones. Eles se juntaram novamente para abordar o mesmo tema recorrente da peça anterior: O rock como uma manifesto anárquico e contestador. E com o mesmo protagonista: John Gallagher Jr.
Me parece até coerente a escolha dele, pro papel de Johnny, pois Moritz (de Wedekind) é considerado por muitos um personagem ícone e precursor do movimento punk. E nada mais natural que o espetáculo seguinte desse time fosse uma ópera punk rock. E assim como Dunkan Sheik emprestava uma sonoridade indie aos musicais da Broadway, o Green Day faz o mesmo com o punk rock. Não sei se intencionalmente ou por falta de repertório, mas John Gallagher Jr. (à direita) parece representar o Moritz novamente! Não consegui olhar pra ele sem achar que era um continuação de com tudo que eu já havia visto dele.
Com a banda em cena e com todos os atores tocando instrumentos, o elenco se mostra totalmente entregue. Com garra e juventude, defendem ‘American Idiot’ com o mesmo entusiasmo que vi o elenco de estreia do ‘Spring’ e isso é muito cativante.
O cenário único com andaimes e paredes forradas de manchetes de jornal e com dezenas de televisões espalhadas das mais diversas formas lembra muito o clima do ‘Laranja Mecânica’ de Kubrick. A integração do vídeo em cena é excelente. Eu geralmente não gosto desse artifício, mas não é gratuito em nenhum momento e até se torna um ruído interessante, pois segundo Michael Mayer, o vídeo é um personagem que funciona como uma voz interna, como um coro grego, que as vezes comenta, outras critica, outras apenas observa e contracena com os personagens. Mas principalmente nos mostra como somos uma sociedade teleguiada lobotomicamente pela televisão e ficamos cada dia mais anestesiados pela notícia e pelas televendas que nos empurram um mundo idealizado e nos fazem esquecer a miséria, a fome, o desemprego, a guerra, a violência banalizada que não nos tocam mais.
Com apuro técnico impecável, Michael Mayer consegue fazer um espetáculo conciso, direto e muitas vezes perturbador. A música, muito boa no disco, acaba perdendo um pouco na sua transposição para o palco. Mesmo tendo momentos muito emocionais e teatrais como o dueto aéreo em ‘Extraordinary Girl’, a impressão que eu fiquei foi que todas as baladas são parecidas e todas as canções de punk rock resultam iguais na encenação como na coreografia! E sobre interpretação dos atores realmente me incomoda um novo jeito cool de interpretar e cantar onde as palavras perdem a importância e temos a impressão de não ver um personagem e sim o aproveitamento de uma personalidade. Musicalmente é mais uma experiência sensitiva como num show, com tudo e todos equalizados na mesma forma e com a mesma importância. Falta um pouco de dinâmica para meus ouvidos mais conservadores: ou gritam ou fazem pianíssimo.
Acho que o texto de Billie Joe Armstrong & Michael Mayer é um pouco precipitado demais e superficial. Às vezes me parece forçada a entrada da canção e a opção por diálogos ligeiros. Cenas curtas acabam resultando em personagens monocromáticos e caricaturas. E não é como no quadrinho que a imagem conta mais que a s palavras. Me parece uma opção mesmo que seja dessa forma: quase em concerto encenado.
O melhor de ‘American Idiot’ é ser mais do que um musical: é ser um evento! É reflexivo, atual, arrojado, lindamente produzido e defendido com toda a garra juvenil que representa uma facção grande de uma juventude niilista esquecida. É fundamental que existam shows assim pra tratar o jovem com a maior idade que ele merece!
Minhas ressalvas são totalmente pessoais, pois tenho uma certa resistência com essa linguagem híbrida entre o show de rock e o teatro. Era isso o que mais me incomodava no ‘Spring Awekening’ – só me interessei em montar quando pude ter liberdade de criação. Mas é inegável que ‘American Idiot’ é muito bom.
Charles Möeller
* Crédito das Fotos:
Paul Kolnik (www.americanidiotonbroadway.com)
‘Promises, Promises’: Deliciosa Comédia de Situações com Clima Vintage. Por Charles Möeller.
junho 8, 2010 by Site Möeller & Botelho
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Os diretores Charles Möeller & Claudio Botelho analisam os principais espetáculos em cartaz na Broadway no momento
Estava muito ansioso pra ver a primeira remontagem de “Promises, Promises” (o original é dos anos 60), pois tem um time de criadores de peso! O texto é de um dos maiores comediógrafos de todos os tempos, Neil Simon, baseado no Filme “O Apartamento”, de Billy Wider, com músicas de Burt Bacharach e Hal David. Direção e coreografia do tarimbado Rob Ashford e, ainda pra reforçar, Sean Hayes e Kristin Chenoweth como protagonistas! Claro que foi essa peça que eu escolhi pra ser a primeira da maratona!
Já entramos no clima no overture, com bailarinos dançando todos os temas! A peça se passa em 1962 e tem aquele clima vintage que sempre acaba rondando as remontagens de musicais dessa época. O cenário: o bom e velho ambiente de escritório. Os americanos adoram enredos que envolvem personagens de grandes escritórios, há dezenas de musicais, filmes, séries de TV, todos ambientados e à volta de situações de secretárias, chefes, datilógrafas, telefonistas, até mesmo ascensoristas de grandes corporações.
‘Promises, Promises’ é prima-irmã de “How to Succeed in Business Without Really Trying”, outra obra prima de musical da época! Nada mais machista e sexista que o ambiente de um escritório americano em plenos anos 60, com suas secretárias carreiristas e seus patrões chauvinistas! Ainda não se vivia sob a sombra do politicamente correto e os processos por assédio sexual não eram sequer imaginados!
O tal ‘apartamento’ do titulo original do filme pertence a um novo funcionário da Consolidated Life, Chuck Baster, vivido por Sean Hayes. Por ele morar só, acaba emprestando o imóvel para um colega de trabalho ter um encontro às escondidas com uma colega. A partir daí a notícia da ‘locação’ se espalha e o apartamento se torna um cafofo para encontros amorosos de seus colegas de repartição: todos querem ter um lugar para levarem suas amantes de fino trato, em geral secretárias da empresa. O tal apartamento vira um point e acaba interessando ao próprio chefe do departamento, o mega poderoso JD Sheidrake, vivido pelo altíssimo Tony Goldwyn (que fez dezenas de vilões na TV e no cinema). O chefe deseja ter um lugar privado para levar sua amante Fran Kulelik (Kristin Chenoweth), ironicamente a moça por quem Chuck nutre um amor platônico. Começa aí uma deliciosa comédia de situações, onde Neil Simon é mestre. Sempre impagável!
Produção caprichada, com reconstituição de época detalhada, luz linda, cenários deslumbrantes e figurino impecável. Ótimas coreografias com destaque absoluto para o trio em ‘Turkey Lukey Time’. E o elenco afiadíssimo faz de ‘Promises. Promises’ um programa imperdível!
Mas tudo isso não seria completo sem a cereja do bolo: o talentoso Sean Hayes (dir.). Pra quem não liga o nome à pessoa era o amigo gay afetado de Will na serie “Will & Grace”. Hayes está, inacreditavelmente, estreando na Broadway. A peça é dele! Tem um tempo de comédia ímpar e preciso, e não faz conceção à piada, consegue fazer todas as gags com uma incrível naturalidade. Lembra muito o jovem Jerry Lewis (que ele já retratou em um filme feito para a TV).
A cena em que ele tenta entender e depois se sentar numa ‘la chaise’, (aquela cadeira esquisita de acrílico branco que tem um furo no meio, criada por Charles & Ray Eames e que foi febre de design nos anos 50), já vale o ingresso!
Sou fã de Kristin Chenoweth há muitos anos! A primeira vez que a vi foi fazendo Sally em ‘You´re a Good Man, Charlie Brown’, musical que lhe rendeu o Tony e todos os prêmios daquele ano. Mas virei fã incondicional mesmo quando a vi fazendo ‘Candide’: sua Cunegonde era hilária e hipnotizante. Ela dividia as atenções em cena com ninguém menos que Patti LuPone, no papel da Velha Senhora. A partir daí venho acompanhando de perto seus sucessos, sendo o mais cultuado de todos o personagem Glinda no musical mega ‘popular’ (desculpem o trocadilho) ‘Wicked’.
Na TV tem feito muitas coisas e chegou a ter um show com seu nome: “Kristin”. Ganhou um Emmy por “Pushing Daises”, mas ambos os projetos não foram muito longe. Participou do elenco de Vila Sésamo e atualmente está no elenco do fenômeno ‘Glee’. É uma comediante de mão cheia e uma atriz de voz característica. Adoro esse tipo de voz, muitas vezes rejeitado no Brasil, pois nós brasileiros amamos mesmo as mezzo-sopranos de voz ‘gorda’ ou sopranos dramáticas. Acredito que seja algo cultural, já que nossa MPB recente é, em sua quase totalidade, um enxame de vozes graves. Voz característica, tão normal e apreciada no musical americano, ganha entre nós o apelido de “voz de pato”! Há dezenas de papeis em musicais para essa cor vocal e muitos são de protagonistas. Exemplos de grandes nomes que levaram multidões aos teatros não faltam, sendo talvez a mais cultuada de todas a grande Shirley Booth, que nos anos 50/60 foi uma estrela na Broadway e arrebatava multidões aos musicais que estrelava. Bernadette Peters e Faith Prince são outras estrelas atuais com registros vocais similares. Particularmente, adoro. Não sou exatamente um fã incondicional das atrizes que gritam seus pulmões como leitoas sendo assassinadas no Natal, mas sei que o público jovem em geral as ama.
Mas digo tudo isso para arrematar dizendo que fiquei decepcionado com Kristin em ‘Promises, Promises’. Esse show realmente não é para ela. Está apagada no papel da mocinha, e a apesar de haverem incluído no score duas canções famosíssimas de Burt Bacharach que não faziam parte do espetáculo original (“ I Say a little Prayer “ e “ A House is not a Home”) que são solos para ela, Kristin tem pouco a fazer no papel da amante do Patrão.
Mesmo assim ela ainda é uma delícia em cena, especialmente cantando (em duo com Hayes) o mega hit “ I’ll Never Fall in Love Again” (este sim, escrito originalmente para o musical) no sofá com um violão, num momento totalmente bossa nova.
Acho que o grande problema de Kristin ultimamente é sua aparência: ela tem apenas 42 anos e parece ser tão dependente do botox que está quase se transformando numa boneca de borracha. Muito magra, parece anoréxica, e se não fosse a peruca, a gente mal sabe se ela está de frente e ou de lado. E seu bronzeamento artificial lhe dá um tom Malibu meio alaranjado, quase cor de tijolo, tá estranho! Realmente é complicado envelhecer dentro desta indústria. Espero que ela não se afunde nessa loucura de retocamentos infindáveis, pois é genial e quero poder vê-la muitas vezes ainda sem ter a impressão de que estou vendo um duende. Por uma louca coincidência, no dia em que assistimos ao espetáculo estava sentada perto de nós a própria Bernadette Peters, que citei há pouco. Tão baixinha quanto Kristin e bem mais velha, mas ao que parece levando a idade com mais dignidade e sabedoria.
Pra concluir, quem rouba a peça de Kristin é Katie Finneran, num papel episódico no segundo ato, mas transforma sua entrada em momentos hilariantes e espetaculares. Com uma voz poderosa, faz uma bêbada com seu casaco de pena de coruja antológica. Realmente a mulher é um monstro de talento, e os melhores momentos da peça são dela e de Sean Hayes. Ambos estão indicados ao Tony em suas categorias, além de vários outros prêmios da temporada.
‘Promises, Promises’ cumpre o que promete: é um musical super divertido, adorável de ver, e traz de volta aos palcos um score sensacional de Burt Bacharach, o único que ele escreveu para um musical da Broadway.
Charles Möeller
Créditos das Fotos:
* http://promisespromisesbroadway.com
* Sara Krulwich/The New York Times
* Playbill.com
Charles Möeller: Mais um Musical da Broadway!
junho 5, 2010 by Site Möeller & Botelho
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Quem nos acompanha já sabe que sempre viajamos pra Nova York e Londres todos os anos pra assistir o que esta acontecendo no mundo dos musicais! E nos últimos anos temos publicado nossas impressões no Site M&B! Resolvi abrir meu diário de bordo desse ano de uma maneira diferente. Antes de falar de um espetáculo em si, queria abordar uma questão com a qual sempre me esbarro nos últimos anos: A generalização da expressão “musical da Broadway!”
Em todos as maiores cidades do mundo se montam musicais: Do Japão aos antigos países da cortina de ferro. De Berlim a Buenos Aires, o gênero é cultuado e incorporado independentemente da cultura local, ou, às vezes, com adaptações à cultura local! Em quase toda grande metrópole há musicais autorais, réplicas, musicais originários da Broadway, de West End ou criações locais! O gênero atrai milhões de pessoas, movimenta o turismo mundial e uma quantidade de dinheiro e empregos incalculáveis, e é um fenômeno que existe enquanto forma teatral há quase um século e meio.
Considera-se que a primeira peça teatral adaptada ao moderno conceito de musical foi “The Black Crook” – de Charles M. Barras e Giuseppe Operti, de 1866. A partir de 1890 batizou-se de “comédia musical” o que acontecia dentro dos teatros da “Broadway“. Portanto, não estamos diante de um minuano, mas falando de um ancião com muito fôlego! Sua longevidade e sua força vêm especialmente de sua capacidade de transformação, renovação, reinvenção e até auto-negação! Como, aliás, o teatro em si em todos os seus diversos gêneros e vertentes.
Escrevo esse preâmbulo para esclarecer o quanto ainda me incomoda a classificação genérica que trata um musical da Broadway como um gênero, e não como um espetáculo que teve origem naquele centro de entretenimento.
A Broadway não é um estilo de teatro musical e muito menos um conceito estético; menos ainda uma classificação como estrelas em hotéis e restaurantes. Um musical não é um genérico que brota de outro, e de mais outro, e de mais outro. O Musical Americano, como, aliás, o teatro mundial em si, vertente e sub-vertentes, idiomas distintos e identidades diversas.
Não devemos olhar para uma forma de arte que já passa dos cem anos de vida e de descobertas e tentar reduzi-la a um homem de brilhantina e máscara correndo atrás da mocinha com um barquinho e velas. Estou há bastante tempo próximo desse negócio por paixão e por vocação, mas ainda continuo descobrindo o novo a cada nova temporada, e ainda me encanto com a diversidade e a complexidade do que se habituou chamar de “musical da Broadway”.
Uma mãe bipolar que toma eletro-choques não se parece em nada com a bruxa verde tentando ser popular, ambas estão a anos-luz de distância de um multi-instrumentista nigeriano pioneiro da música afrobeat, ativista político e dos direitos humanos! O que todos eles têm em comum? Apenas são fenômenos de bilheteria num certo lugar em Nova York que prima, quase sempre, pela excelência de produção e cuidado no que é apresentado ao público. De resto, são tão diferentes quanto os peixes e os elefantes que vivem no mesmo zoológico.
Os musicais da Broadway estão cheios de polaridades, identidades, auto-referencias e auto-negações. É a maior diversidade de criação teatral que tive e tenho tido a oportunidade de conhecer. Mais até do que os chamados espetáculos “sérios” que os países europeus se orgulham de ter e que, de certa forma, acabam todos reunidos no famoso saco da “vanguarda”. Mas isso é outra história.
Passado e presente coexistem na Broadway com uma infinidade de linguagens e tendências, talvez tendo em comum, ao fim de tudo, apenas o alvo de suas criações e suas constantes descobertas: o público. Encantar o público. Puro encantamento. O resto… Não sei do resto!
Charles Möeller
Claudio Botelho: “Delícia de Família Addams”
junho 1, 2010 by Site Möeller & Botelho
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Direto de Nova York, Charles Möeller & Claudio Botelho analisam os principais espetáculos em cartaz na Broadway no momento
Vou começar este texto lembrando a todos que não sou crítico de teatro. Vou ao teatro para ver o que pode me divertir, emocionar ou, no mínimo, me tirar de mim mesmo por umas boas duas horas… O fato de estar na profissão não me dá nenhum crédito para falar dos espetáculos alheios algo mais do que “gosto” ou “não gosto”. Isso é para os críticos.
Dito isto, vamos lá: A-DO-REI a FAMÍLIA ADDAMS, o musical!!!
Pra começar, não sou íntimo daqueles personagens, conheço o pouco que vi na televisão e nem é o tipo de seriado que eu goste, já que minha fixação são definitivamente os seriados policiais, de júri, sequestros, gente sendo assassinada, e o que mais Se puder imaginar nesta área… Portanto, ”The Addams Family” na TV nunca foi meu prato favorito.
Mas um musical é um musical. E o que mais me faz gastar 130 dólares em espetáculos da Broadway é acreditar que posso ouvir um tipo de música que me agrade, ou seja, música de teatro. E confesso que fui ver a FAMÍLIA ADDAMS cheio de medo de que eu fosse ouvir aquele tipo de canção que anda na moda na Broadway ultimamente, o tal do “indie-rock” (ou lá como se escreva isso), ou ainda o abominável “rap”, ou música que você pode perfeitamente ouvir no rádio, ou pior de todos: os imitadores de Stephen Sondheim que escrevem “música difícil” pra mostrar pra você que são ótimos alunos de harmonia de Berkeley e que assobiar uma canção no final do show é coisa pra gente decadente e pouco antenada .
Bom, mas neste caso aqui, de cara já fui surpreendido por uma música deliciosa de Andrew Lippa, autor da música e das letras, que tem pouca estrada na Broadway (fez apenas “The Wild Party” que é ótimo, e algumas canções extras em “You´re a Good Man, Charlie Brown”). As canções de “The Addams Family” são o ponto alto do espetáculo, com letras engraçadíssimas, cheias de humor negro e muito cinismo, como é de se esperar de um espetáculo baseados nestes personagens. Há muito ritmo latino nas canções, um tango sensacional no segundo ato (“Tango de Amor”), que é um número onde Morticia e Gomez dançam depois de cantarem, e que proporciona em seguida uma das melhores coreografias do espetáculo para Morticia e o coro de bailarinos. Outro número excelente é o quarteto “Let´s not Talk About Anything Else But Love”, com Gomez, Mal, Uncle Fester e a Vovó Addams, um delírio no estilo de Cole Porter (a canção é quase uma paródia de uma das “list-songs” de Porter, “Let´s Not Talk About Love”), que traz um gosto de ‘velha Broadway’ ao centro da cena, o que aliás aparece em diversos outros momentos. Virei fã de Andrew Lippa assim que baixou o pano, quero ver e ouvir tudo o que ele fizer a partir de agora, já que dificilmente consigo me interessar por compositores de teatro nos últimos tempos, pois fico sempre esperando escutar algo que só ouço mesmo nos revivals.
O espetáculo foi muito mexido desde a estreia há alguns meses fora de Nova York. Trocaram de diretor, mexeram diversas vezes no texto, mudaram músicas, foi um tipo de produção bastante traumática e cheia de problemas até chegar ao Lunt Fontanne Theatre, que é um dos maiores teatros de Nova York, e um dos mais cheios de recursos cênicos para espetáculos de grande porte. Não faço ideia do pesadelo que viveram antes da estreia, nem mesmo do que rolou por trás do pano até chegarem aqui… Mas isso também não interessa, pois estou assistindo ao que está na minha frente, e não o que não chegou a nós na plateia. Deste modo, o cenário é bastante complexo, grandioso, talvez um pouco monumental demais, mas não deixa de ser bonito e gótico na medida certa. Os figurinos são lindos e as caracterizações são coisa de cinema: você está vendo o que viu na TV em preto e branco, sem tirar nem pôr. A luz é o padrão Broadway, ou seja, dificilmente você vai ver uma iluminação ruim ou mal feita num espetáculo que chegou a estrear ali. O mínimo de garantia é sempre ver um espetáculo bem iluminado, mesmo quando a proposta é trabalhar com muita escuridão e sombras, como é o caso de “Addams Family”.
O elenco é um caso à parte. Kevin Chamberlin como Uncle Fester é um ladrão de cenas, no melhor sentido da palavra. Super protegido pela adaptação, o personagem ganha número fantástico no segundo ato, algo entre entre o lírico e o grotesco, onde Fester dança com a Lua, sua namorada. Jackie Hoffman, que faz a Vovó Adams, é outro acerto: fala pouco, tem apenas alguns trechos em canções, mas é hilariante e tem as tiradas mais ferinas da peça. Uma delícia de composição!
Mas o casal de protagonistas é mesmo o destaque absoluto. Primeiro, Bebe Newirth, uma estrela da Broadway, como Morticia. Ela é o personagem, com sua voz rouca e sensual, sempre parecendo de mau humor, com um charme incrível, e num papel que inclusive nem é à altura da sua carreira e do seu talento.
Contudo, a noite e o espetáculo são de Nathan Lane. Sou suspeito pra falar dele, pois sou mais que fã: sou obcecado por Nathan Lane. Desde que o vi num palco pela primeira vez fazendo “Guys & Dolls” em 1996”, tornei-me um seguidor de Lane, não deixei de ve-lo em nenhum espetáculo em todos estes anos. De lá pra cá ele se tornou top billing absoluto, ou seja, um nome que sempre vem antes do título. Isto é para poucos no teatro, e Lane nem fez a habitual passagem para Hollywood (fez poucos filmes e não é um astro internacional, digamos assim); continua um ator da Broadway e dos musicais, como sempre. Já vi Nathan Lane em espetáculos inesquecíveis como “The Producers”, onde ele era o show em pessoa, e também em espetáculos menos vitoriosos como o tedioso “The Frogs” de Stephen Sondheim, que Lane ajudou a re-escrever e levar à cena. O show era um pouco chato, mas Nathan Lane fazia a gente aguentar até o fim.
Aqui na FAMÍLIA ADDAMS, no papel do patriarca Gomez, ele tem um personagem que lhe exige pouco, pois Nathan é muito parecido com seu Gomez. É o dono da cena em quase todos os quadros, mas nem precisa se esforçar muito: sua cara de enfado, de preguiça e de desinteresse apenas ajudam o personagem que é cheio de tiques, detalhes de expressão facial impagáveis, sobrancelhas que se mexem para cada palavra do texto, e uma piada certeira atrás da outra. Tudo o que Nathan Lane sabe fazer, e faz quase como se estivesse em casa, entre uma refeição e um banho de banheira, completamente à vontade e quase entediado. Eu adoro isso! E o público o ama!
Sei que a crítica do Times falou mal do espetáculo. Sei que realmente não é uma unanimidade. Mas está lotado até o final do ano, você realmente precisa batalhar por ingressos na fila de desistências, e lhes garanto que o público sai muito feliz e cantarolante do teatro. É uma festa.
Comentei com um amigo brasileiro que não gostou muito do espetáculo que eu estou no meu momento “Márcia de Windsor”, ou seja, estou curtindo as coisas sem muito compromisso, achando tudo ótimo, divertido, dando nota dez sem nem pensar nas consequências… Bom mesmo é ser feliz, e to torcendo pra este sentimento durar bastante.
Então indico A FAMÍLIA ADDAMS pra todas as pessoas normais que forem à Nova York e quiserem assistir a um musical que não é uma revolução em nenhum aspecto da dramaturgia mundial, nem mesmo uma facada no peito de quem está a fim de descer às profundezas da alma humana, e menos ainda é algo pra você passar o resto da semana pensando a respeito. Mas é diversão garantida por duas horas e meia, com música de grande qualidade, muitas risadas, uma festança para os olhos e ouvidos. Eu A-DO-REI!
Claudio Botelho
Veja mais fotos de The Addams Family:
Créditos das Fotos:
The Addams Family – A New Musical Home Page
Broadway.com
Playbill.com
Quebra-cabeça de horror sob chuva incessante
novembro 30, 2009 by Site Möeller & Botelho
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Direto de Nova York, Charles Möeller & Claudio Botelho analisam os principais espetáculos em cartaz na Broadway no momento
Daniel Craig e Hugh Jackman em encontro histórico na Broadway
“A Steady Rain” é um caso raro, talvez único na história da Broadway, de dois dos astros de maior poder e ascensão do cinema, ambos na lista dos 10 mais poderosos da indústria cinematográfica e na Forbes, dos que mais rendem bilheteria da história e ambos na lista dos 10 mais sexys do mundo, sendo Hugh o primeiro colocado, se juntarem numa produção tão pequena e obscura na Broadway!
É claro que isso causou um enorme furor e os ingressos se esgotaram em segundos! Está sold out a temporada toda e ingressos prêmios estavam sendo vendidos na bagatela de 600 dólares no balcão e já se esgotaram!
“A Steady Rain” é realmente uma chuva constante de fofocas, comentários, gritinhos histéricos e não é pra menos! As criticas principais são todas positivas ao espetáculo e reverentes ao encontro.
Me parece ser o que está salvando a Broadway da crise: As estrelas nessa temporada estão por lá e algumas até no off, como Cate Blanchet.
A peça conta a história de dois policiais de Chicago amigos de infância que se vêem envolvidos numa rocambolesca história de prostituição, assassinatos, seqüestro, vinganças, traições e ate canibalismo! Acho que a peça se passa em uma ou duas noites, mas são anos de amizade que vêm à tona!
Sem dúvida é uma experiência única ver Daniel Craig e Hugh Jackman juntos. Sou fã de ambos muito antes do Wolverine e do 007 os tornarem ícones de ação. Comprei meus ingressos assim que a bilheteria abriu, pois imaginava que seria uma loucura. Só não imaginava que eles escolheriam ou se motivariam por algo tão sem proteção, pois a simplicidade da produção e direção chega a ser assustadora em se tratando de um espetáculo da Broadway e não um off ou off off!
Gostaria de ler a peça e falar com calma disso, mas sem dúvida a presença deles eleva o material deste drama de policial, fugindo do maniqueísmo do bom e o mau. Eles realmente são atores espetaculares e vê-los em cena é uma chuva constante de sensações!
A peça é um veículo ideal para estrelas do calibre deles brilharem e darem seus shows particulares! A grande sacada do texto apesar de extremamente elaborado e cheio de viravoltas, é que eles quase nunca contracenam. Eles na verdade parecem que estão prestando depoimentos pra nós, numa delegacia escura e cinza com aquela famosa lâmpada de panela de interrogatório. Percebemos que estão na mesma sala, no mesmo interrogatório, ambos ouvindo o que o outro tem a relatar e muito embora não concordem, também não discordam a ponto de dialogar. Complementam-se! Isso permite que ambos tenham momentos impecáveis.
A peça é narrada na primeira pessoa como uma confissão, num jogo constante de ‘eu fiz isto, ele fez aquilo’. Ambos compactuam conosco o tempo todo, nos tornando um terceiro personagem, talvez o terceiro policial encarregado de escutar seus depoimentos, ou um companheiro de cela, ou um padre, ou Deus, enfim…
Os personagens se apresentam pra nós separadamente, tecendo linhas que só ocasionalmente se sobrepõe, e quando isso acontece, muitas vezes nos vêm aquele gostinho de ‘quero mais’ - a sensação de ter aquela grande cena um pro outro acontecerá!
Mas a direção é má com o público e bem esperta, nos obrigando a continuar com ambos separadamente em seus depoimentos. Aos poucos vamos juntando um enorme quebra-cabeça de uma noite de horror na vida de dois amigos de infância, parceiros erradamente complementares.
O público é convidado a escolher a versão da mesma história contada por dois policiais com comportamento ético bem distinto . Vemos de cara que Jackman é o policial corrupto e violento e Daniel o policial do bem e solitário. Mas isso é só o começo. Você acredita, é obrigado de cara a escolher uma versão dos fatos, mas depois você muda de idéia e depois muda de novo! Esse é o elemento interessante desse jogo, pois a ação já aconteceu, o crime já foi feito… tudo é no passado. O destino é imutável e trágico e com um golpe final de tirar o fôlego!
Eles não mudam ou passam a ser maus ou bons. Nós é que mudamos de ótica na medida em que a historia é contada! O ponto de partida é que esses homens viveram suas vidas entrelaçadas até o momento que a peça começa. Saberemos que algo aconteceu que mudou o mudará aquela situação pra sempre! A forma usada pelo autor é fascinante, pois quando um acaba de falar, o outro continua enchendo de detalhes e opiniões, completando um enorme quebra-cabeça sobre uma noite de erros e incidentes envolvendo uma prostituta, gangue de latinos, seqüestro de um adolescente vietnamita canibalizado , drogas, traições e família mostrando como a amizade deles é desafiada o tempo inteiro e ao mesmo tempo em que é destruída, é imediatamente restaurada por um laço indissolúvel de tempo!
Jackman e Craig deitam e rolam nesta folha em branco
A solidez da amizade deles é surpreendente, pois apesar de ambos errarem o tempo todo um com outro, não pinta o memento “DR” – eles simplesmente vão adiante. O que é quebrado se conserta. Afinal é uma peça de tough guys e sujeitos durões não sabem e nem são hábeis para revelar os sentimentos mais profundos de um para com o outro!
Joey e Denny nos falam tudo o que fazem, mas nunca param pra explicar por que exatamente. Só justificam suas ações.
É um show de interpretações! Personagens dialéticas! E Jackman e Craig deitam e rolam nesta folha em branco, rabiscando seus personagens com exatidão e tanta inteligência que não escolhemos lados, nem mocinhos nem bandidos, muito menos entramos em julgamento.
Tudo que construímos no principio pra um desfazemos depois e assim continua até o final surpreendente! Fica difícil ser mais explicito ao falar da peça e estragar a surpresa desse jogo.
Hugh Jackman traz a Denny uma exasperação indignada. Apesar de ser um policial corrupto e racista, fica incrédulo por estar sendo castigado pela falta de lógica no sistema policial. Ele tem o personagem mais trágico na mão, o que traz mau agouro e desencadeia todos os conflitos e é castigado por isso. Colocando tudo que o rodeia em risco e em questão, sua família, filhos, amizades e até o código de honra entre os policias.
Craig dá um show como o correto Joey uma espécie de sombra de Denny: menos impulsivo, mais racional e lógico, mas que precisa do todo o desafino de Denny pra viver! Como a mariposa e a lâmpada. Denny é o que leva a ação e Joey fica atrás limpando tudo, e tentando consertar as coisas. Apesar de criticar o comportamento vulcânico do parceiro, ao mesmo tempo existe uma admiração e quase uma idolatria pelo amigo irmão destemido e de caráter duvidoso.
Joey vive a vida de Denny, pois não tem brilho próprio, mas à medida que a peça avança, ele vai se apropriando da vida de Danny, e se fundindo com a dele, se tornando um homem mais confiante e destemido. Denny, ao contrário, vai se fragilizando e é aí que vemos os dois lados da mesma moeda. Eles desenham seus personagens com um transbordamento de humanidade e uma ausência de truques impressionantes. Adoro atores assim, sem maneirismos e isso impede que nós, plateia, tenhamos um julgamento do comportamento dele no final da peça, pois friamente suas atitudes são altamente dúbias e questionáveis, mas a humanidade deles, faz com que sejamos apenas testemunhas e não juízes!
O destaque é a inteligência dos intérpretes
Jackman e Craig sabem tudo e sua simbiose é de tirar o fôlego. Criam uma enorme tensão e não escutamos nem uma mosca no teatro! Às vezes ficamos suspensos numa atmosfera de suspense e quase terror e começamos a nos sentir cúmplices daquela noite de horrores.
A química entre eles é absoluta e realmente acreditamos que Denny e Joey são amigos de infância e têm uma vida de lembranças em comum. Eles criam personagens como recipientes vazios que só eles mesmos e suas lembranças podem encher com uma historia cheia de erros, cheia de mentiras e de julgamento amorais, e que só pertence a eles mesmos, pois sãos os triunfos e tragédias de uma enorme convivência numa chuva incessante (a metáfora da peça) sobre dois destinos trágicos e errantes.
Meu destaque vai total para a inteligência dos intérpretes, pois assim como Craig constrói o bom Joey com uma pitada de inveja e um q de loser de personalidade dúbia, Jackman satura o mau Denny com um humor agradável e charme incrível. Nos vemos torcendo por eles mesmo errando e quando o caráter desaparece por completo e eles agem com desconcertante violência e amoralidade.
Estas escolhas são de grandes intérpretes, escolhas profundas de olhar para os personagens com sutileza e indo contra expectativas a uma plateia ávida pra ver invencíveis feitos heróicos de Wolverine e Double Zero! Encontramos dois homens comuns propositadamente desglamurizados numa caixa teatral cinza com uma luz precisa discreta e uma cenografia sutil revelada só em cenas de alta tensão – atores simples a serviço de uma peça.
Ao acabar a peça pudemos ver os personagens indo embora e aparecerem os astros que sabem o poder que têm e usam isso a seu favor: leiloam suas camisetas suadas de baixo pra arrecadar fundos pra AIDS! Eles arremataram em minutos 13 mil dólares na sessão que eu fui. Um amigo tinha ido na matinê e eles arrecadaram 14 mil dólares pelas duas peças suadas… enquanto os outros teatros faturam cento e poucos dólares com os famosos baldinhos na com elenco esmolando na saída.
Já anunciaram o fim da temporada e a renda daquela noite será paras vitimas da AIDS, famílias que perderam tudo nos Katrinas e nas enchentes, mulheres espancadas e crianças violentadas, enfim os astros são quase uma Madonna com Eike!
As malíssimas línguas da malíssima classe andam dizendo que eles têm um tórrido romance, e escolheram uma peça pequena na Broadway pra ficarem mais perto e pararem suas agendas atribuladas por completo pra estarem juntos. Isso realmente não interessa em nada e se é verdade ou mentira o que importa é que estão em cartaz pois são tão bons atores que merecem sempre estarem no palco ao nosso alcance… o resto é fofoca e se for verdade: let the sunshine in!
Charles Möeller. Novembro 2009.
Charles Möeller: Memphis vale a pena, apesar do score óbvio
novembro 24, 2009 by Site Möeller & Botelho
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Direto de Nova York, Charles Möeller & Claudio Botelho analisam os principais musicais em cartaz na Broadway no momento
Um elenco enorme e talentoso, vocalmente impecável, com números de dança arrasadoramente vigorosos e beirando muitas vezes a acrobacia dão o maior gás no novo musical “Memphis”. Evidentemente acerta em ter como plote segregação racial em tempos miscigenados de Obama.
Memphis é uma cidade, onde, nos anos 50, os negros eram proibidos de aparecer em programas de TV, de tocar em rádios pra brancos, e de saírem dos seus guetos. As vezes Memphis me parece ser uma versão séria de “Hairspray”: a cidade o tema do racismo se assemelham com o Baltimore de John Waters.
A história é parecida, até existe um programa de TV, um programa que ganha audiência com entrada de um apresentador visionário que insiste em ter em seus shows a música negra, e negros como as grandes atrações e destaques.
O que mais incomoda é o score e a previsibilidade da história
Adorei o show, é ótimo de ver e ouvir! Os cenários são lindos e ágeis, o figurino de época impecável! A luz super acertada.
O que mais me incomoda é o score e a previsibilidade da história! O maniqueísmo. Em resumo: todos os brancos são maus, exceto o mocinho, e ele paga um preço alto por isso. Todos os negros são bons e vítimas de crueldades atrozes. E no final, existe a redenção total: os canalhas branquelos se rendem à força da Black Music e o rock & roll nasce. Felicia se torna um estrela e o branquelo e cafona Huey continua em Memphis descobrindo e garimpando talentos negros na sua incansável luta contra o racismo.
Nesse ponto acho que “Ragtime” fala de coisas parecidas e mais profundamente sem cair em tantos clichês. Vejam, adoro clichês e chorei horrores como nas várias vezes que Felicia era espancada, quando o irmão mostra as cicatrizes da violência no corpo ou quando um negro que nunca mais falou, vitima de estrangulamento, de repente começa a cantar pra ajudar o branco bonzinho. Aí eu desidratei de chorar, mas sei que são clichês, e é bacana ficar esperto pra eles e saber que isso é estratégia dramatúrgica pobre e fácil, pois chorar eu choro em comercial de liquidação das Casas Bahia!
Mas todos os atores estão ótimos e fazem com muita alma e sinceridade, o que faz que a alguns chavões passem despercebidos! Isso faz com que você desejasse realmente que o score tivesse sido menos superficial, já que o elenco dá conta total do recado e te convence o tempo todo.
Segundo ato resolve os conflitos rapidamente
O segundo ato é mais fraco, pois tenta justificar e finalizar as histórias e os conflitos acabam sendo resolvidos levianamente e rapidamente.
Tirando o score óbvio, acho que o grande erro de Memphis foi ter usado música composta. Seria o maior achado usar pérolas eternas da música negra. Poderíamos ter o prazer de ver standards da genial Black music, souls e gospels originais em vozes negras do elenco tão magníficas. Eles perderam essa oportunidades!
O elenco, a coreografia e a altíssima energia proporcionam um grande prazer mesmo quando o score escorrega. Meu destaque vai pra ótima Montego Glover (foto acima, com Chad Kimball) que faz Felicia com muita garra e garganta de diva! James Monroe Iglehart, que faz Bobby, é pra mim o melhor numero do show. Um negão de uns 200 quilos e dois metros de altura que dança com leveza e carisma impressionantes! Foi quem ouviu o meu uhuhuhuhuh! Não sei se gosto de Chad Kimball (foto acima, com Montego Glover), o branco bonzinho da trama, às vezes me parece ótimo, outras composto e vaidoso demais! Sabe ator que entra e já acha que arrasa e faz cara de ”olha como sou cool e faço pequeno e tenho olhinho de sol (defino assim ator que sempre faz cara de muita claridade, eles acham que ficam sexy) Detesto esse tipo de ator. O cinema brasileiro tá cheio deles… ator que chega dizendo: ‘não faço nada, falo baixo, monocordicamente, não abro a boca pra falar e sou Brando!!!’ Gosto dos que suam, dos que desequilibram, dos que arriscam! Quero ver um outro trabalho com ched. de repente to enganado e isso foi uma opção pro papel!
Memphis vale a pena!
Charles Möeller.
Novembro 2009.
Claudio Botelho: Bye Bye Birdie: Um excelente exemplo de segundo time de comédias musicais
novembro 23, 2009 by Site Möeller & Botelho
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Direto de Nova York, Charles Möeller & Claudio Botelho analisam os principais musicais em cartaz na Broadway no momento
BYE BYE BIRDIE, que vem a ser a primeira remontagem deste sucesso do início dos anos 60, me pegou num momento em que ando meio sem saco pra essas comédias musicais que tanto estiveram em voga naqueles tempos, onde música de qualidade, letras quase sempre muito boas e história engraçadinha, tudo baseado – mesmo que cinicamente – no único interesse que uma mulher parece (parecia) ter na vida: arranjar marido. Portanto o que direi aqui deve ser lido com o distanciamento de quem já sabe que o autor (eu) não estava exatamente predisposto a cair de amores por mais esta sessão da tarde que a Broadway vem oferecendo nos últimos anos e que parece agradar tanto aos jovens quanto às vovós da plateia.
A música de Charles Strouse é ótima, são canções bastante atraentes e muito comunicativas, algumas com letras até ousadas pra época (“Spanish Rose”; “What did I see in Him?”), sendo que o destaque absoluto é mesmo para “PUT ON A HAPPY FACE”, logo nos primeiros vinte minutos do primeiro ato. O número é mesmo sensacional e você nem presta atenção na coreografia meio indigente desta montagem.
O cenário é lindo, figurinos lindos, tudo no lugar e muito bem resolvido. Pra mim o grande problema é a falta de carisma de John Stamos (foto, à esq.) no papel originado por Dick Van Dyke em 1960 (ele também fez o mesmo papel no cinema). Stamos canta apenas regularmente, tem poucos atrativos como ator, e parece estar tentando “parecer” Van Dyke o tempo todo.
Já Gina Gershon, no papel da secretária latina que apenas pensa em se casar com o chefe, só faz a gente ficar imaginando como este papel deve ter sido um sonho com Chita Rivera quando o musical estreou cinco décadas atrás. Gershon, que tem currículo de peso na Broadway, não tira o sono de ninguém, faz tudo direitinho, mas você não fica louco por ela. E, portanto, não ficar louco por aquele furacão latino que deveria ser o personagem, é um fator importante pra gente não ficar louco pelo espetáculo.
Bill Irwin vale o ingresso
Quem rouba a peça é Bill Irwin. Aliás, todas as vezes que vi este ator e mímico sensacional mesmo em espetáculos falados aqui na Broadway, ele roubou o espetáculo. O papel do chefe de família do interior dos Estados Unidos, que nem canta muito e tem poucas cenas, passaria despercebido se defendido por um ator apenas correto. Mas Irwin dá um show em cada centímetro de sua atuação, um trabalho corporal incrível, caretas e mais caretas com estilo e verdade em todos os momentos. Enfim, Bill Irwin vale o ingresso.
O restante do elenco, incluindo crianças e adolescentes, é bastante bom. Infelizmente o cantor de rock do título (Conrad Birdie) estava sendo feito pelo substituto na nossa sessão, de modo que nem vale a pena comentar sua interpretação insegura e apenas correta.
Mas o fato é que não tenho mais paciência pra esse tipo de musical. O auge disso foi HOW TO SUCCEED IN BUSINESS WITHOUT REALLY TRYING, este sim um musical impecável do começo ao fim, já que além de contar com música do genial Frank Loesser, tem um texto absolutamente cínico e inteligente, mesmo flertando com este lado “mulherzinha” do musical o tempo todo. Mas, como em toda época, há os grandes e os médios. BYE BYE BIRDIE é, na minha opinião, um excelente exemplo de segundo time nesta seara.
Mas certamente haverá algum produtor brasileiro que virá aqui e vai achar isso a coisa mais “legal” pra montar no Brasil daqui um ano ou dois, já que hoje em dia até as amigas da minha tia no interior de Minas se lançam como produtoras de musicais. E podem crer, vai ser sucesso!
Claudio Botelho.
Novembro 2009.
Charles Möeller: “Billy Elliot é um bunker infinito de conflitos”
novembro 20, 2009 by Site Möeller & Botelho
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Direto de Nova York, Charles Möeller & Claudio Botelho analisam os principais musicais em cartaz na Broadway no momento
Gregory Jbara e David Alvarez em “Billy Elliot”, na Broadway
Quando estreou em março 2005 no Victoria Palace Theatre em Londres, eu e Claudio estávamos lá e tive a sensação que o teatro musical estava diante de um “Antes e Depois de Billy Elliot”.
Tive esse prazer algumas vezes na vida e é o que busco a cada estreia: Um tsunami de emoções! Tive isso com espetáculos como Crazy for You, Chicago, Kiss me Kate, Kiss of Spider Woman, Spring Awakening, Hair e alguns outros.
Ser testemunha de um fenômeno logo que ele estreia é um acontecimento único, algo arrebatador, como muitas vezes já escrevi: ter a sensação de desaparecer no terceiro sinal e só retornar nos aplausos. Por isso me obrigo há muitos anos estar em estreias e previews, tanto em Londres como em Nova York, sigo atrás desse momento.
A peça em Nova York é a mesma e sua transposição para os palcos americanos é perfeita! Até o dialeto me parece mais suave aqui, ou me acostumei de tanto ouvir.
O elenco é extraordinário e imagino que esse deva ser o elenco mais difícil de ser formado em toda a história dos musicais, pois além de garimpar crianças ciborgues – sem palavras pra defini-las -, o elenco em volta é dos mais complexos, pois os atores têm que parecer mineiros caucasianos, pobres rústicos no meio de um piquete de trabalhadores e policiais viris e assustadores. E ainda têm que dançar, cantar e interpretar um dramalhão dos mais emocionais que já vi.
Em qualquer primeira aula de dramaturgia, a gente aprende que pra se ter ação dramática é preciso se ter conflitos. Billy Elliot é um bunker infinito de conflitos estratégicos feitos sadicamente pra te matar na cadeira!
No final do primeiro ato você já era!
Criança pobre órfã de mãe criada pela avó senil, com pai brutal e irmão violento no meio de um strike de mineiros em 1984, tem como melhor amigo um crossdresser, e uma professora de dança nada convencional. Nesse cenário, se descobre um excepcional e particular BAILARINO! A partir daí o conflito se desenrola e no final do primeiro ato, você já era!
A direção de Stephen Daldry, o mesmo do filme, é a melhor que já vi na vida! Os atores interpretam uns pros outros, evitando os clichês de estarem sempre de frente. É muito realista e profundo. Estão todos inseridos naquele submundo da sobrevivência, onde ter um dom artístico é uma piada, afinal não há dinheiro pra comida. Como olhar com carinho para uma audição no The Royal Ballet School?
Todos os números coreográficos são espetaculares. Teria que escrever um livro pra descrever todos. Não sei apontar qual eu amo mais! Lógico que tem os óbvios ‘arrasa quarteirão’, como o do final do primeiro ato, com Billy se atirando nos policiais no meio do piquete em ‘Angry Dance’. Tem a audição frustrada na Royal que resulta na exibição do preciosismo ‘Electricity’; o adorável e corajoso ‘Expressing Yourself’, com Michael (genialmente feito aqui por Keean Johnson) e Billy (vi pela desta vez com o cubano David Alvarez, que é fantástico. Mesmo assim não entendo esse politicamente correto e essa cota racial. Fica pouco crível num espetáculo tão realista ver um cubano, com pai, avó e irmão tão nórdicos e caucasianos! Às vezes te dá a sensação que Billy é adotado, mas isso é outro capitulo, afinal David é genial e merece cada segundo de aplauso que teve).
Vou me arriscar a escolher um número que sempre choro e vejo a genialidade do coreógrafo Peter Darling: “We’d go Dancing”, com a avó de Billy dançando com todo elenco masculino que atravessa a cena como fantasmas rústicos do passado com cigarros na boca, cadeiras de bar e garrafas de whisky e desaparecem pela janela como um carrossel de lembranças…
O destaque é Gregory Jbara
Meu destaque total nessa versão americana vai pra Gregory Jbara, que faz o pai de Billy. Ele é o grande catalisador de todas as minhas lágrimas… da truculência inicial, até sua despedida de Billy na cena final, foi ele que me assaltou! Foi merecidamente vencedor do Tony de melhor ator coadjuvante! Já o tinha visto num chiquérrimo Billy Flynn em ‘Chicago’. Aqui, ele está irreconhecível como mineiro inglês emocional e sem traquejos com os filhos! Li que ele engordou 20 quilos para parecer mais brutal e rústico, o que realmente fez o maior diferença nas cenas que ele está de camiseta, com uma barriga pesada e truculenta! No final, quando aparece de tutu dançando com toda técnica e preparo de tantos anos de musicais, fica até chocante.
Billy Elliot após tantos anos de sua criação ainda mantém o frescor de estreia e é dos meus shows preferidos. Fico muito feliz quando amo um show, pois antes de ser diretor sou fã de musical e rever é sempre um enorme prazer. É sempre entrar em contato com o que me motiva a continuar nessa profissão…
Charles Möeller
Novembro, 2009.
Charles Möeller, Tina Salles, Antonia Prado, Ana Paula e Ada Chaseliov na plateia de “Billy Elliot” – novembro 2009
Claudio Botelho: Um arco íris para quem ama a velha Broadway
novembro 19, 2009 by Site Möeller & Botelho
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Direto de Nova York, Charles Möeller & Claudio Botelho analisam os principais musicais em cartaz na Broadway no momento
Finian´s Rainbow: Um Arco-Íris para quem ama a velha Broadway
FINIAN´S RAINBOW foi sempre um dos meus musicais favoritos no campo das idéias, ou seja, eu amava o espetáculo sem nunca te-lo visto realmente em cena. Mas o contato com as canções nas diversas gravações de original cast que existem por aí sempre tornaram este musical de 1947 um daqueles tesouros que eu me orgulho de saber “de cor” do início ao fim.
A versão filmada dos anos 70, que vem a ser o primeiro filme dirigido por Francis Ford Coppola e o último musical estrelado por Fred Astaire, é considerada um péssimo filme. O que pra mim tanto faz, já que quando assisti estava mais interessado em ouvir a música e conhecer a história, portanto foi um deleite. Tem no elenco ainda Petula Clark, que tem uma voz nada convencional e eu adoro. Portanto, sempre assisti ao filme com prazer, embora hoje já dê pra perceber que não é realmente um grande filme, ainda mais sabendo que o chatérrimo Coppola demitiu o grande Michael Kidd durante as filmagens porque achava que ele mesmo (Coppola!!!) sabia mais sobre coreografias de musical que um dos maiores gênios e criadores da história do teatro e do cinema do gênero de todos os tempos… Ou será que ele demitiu o Hermes Pan? Não me lembro agora. Mas são coisas de bastidores que não interessam aqui, claro.
O que importa é que ontem pela primeira vez pude assistir FINIAN´S RAINBOW no palco. Grande emoção. A música é tratada como o grande atrativo da montagem. São cantores de primeira linha, vozes lindas e você percebe que é uma versão quase em concerto, pobrinha, daquelas que vêm da série “Encores” do City Center, ou seja, algo que foi produzido para ficar em cartaz por cinco dias, mas que ganhou uma temporada maior, geralmente por mérito ou mesmo pela relevância da obra.
Aqui o elenco é o que sustenta a montagem, com uma Kate Baldwin (foto ao lado) cantando lindamente no papel de Sharon, a protagonista feminina que canta talvez uma das mais belas canções românticas já escritas para um musical da Broadway, “OLD DEVIL MOON”. Ela nem é exatamente expressiva ou interessante como atriz, mas tem uma linda voz treinadíssima e fez bonito também em “HOW ARE THINGS IN GLOCKA MORRA?”, outra pérola.
O par romântico dela é Cheyenne Jackson, que eu acabei de conhecer há poucas semanas através de um CD que um amigo me indicou. É um CD chamado THE POWER OF TWO, onde Cheyenne canta ao lado de Michael Fienstein, que sempre foi meu ídolo.
O chato do CD é você descobrir no meio que eles estão casados e fizeram um cd dedicando músicas românticas um pro outro. Vendo a cara hiper-plastificada de Feinstein na capa, ao lado do gostosão cafona de cabelo pintado Jackson sorrindo do lado, faz com que aquele caso de amor adquira um sabor meio “Jesus é meu pai e nada, nem mesmo um comprimido de Cialis, me faltará”, portanto apesar de gostar do disco, fico enjoado quando penso nas letras.
Mas voltando ao musical, Cheyenne Jackson (foto ao lado) realmente canta muitoooo e arrasa. Como ator ele é canastrão, mas isso pouco importa. O que importa é que a voz é linda e super no lugar, sem excessos e sem afetação, por incrível que pareça.
Christopher Fitzgerald e Jim Norton
Quem rouba o espetáculo é Christopher Fitzgerald (foto acima, à dir.) no papel do duende Og. Já o tinha visto em “YOUNG FRANKENSTEIN” também roubando a peça dos protagonistas, e aqui ele dá um banho de humor e competência física, e sua interpretação de “WHEN I´M NOT NEAR THE GIRL I LOVE” é antológica.
Na verdade, o grande protagonista e papel título é Jim Norton (foto acima, à esq.), ator septuagenário no papel que Fred Astaire fez no cinema. Norton é um gênio, tem incrível agilidade e presença cênica absolutamente irresistível. O papel não canta muito, mas é o líder em quase todas as cenas e você se apaixona pelo velhinho logo de cara.
Acho bobagem comentar direção, coreografia e etc., já que isso na verdade é um concerto estendido, não é exatamente um espetáculo com o “padrão Broadway” mais óbvio. Um turista desavisado vai achar pobre e talvez perdido no tempo, mas a platéia de ontem era basicamente de americanos e a maioria da terceira idade. Todos (como eu) amando e envolvidos com aquelas melodias lindas, irretocáveis, do gênio Burton Lane com letras de Yip Harburg. A falta de criatividade na direção, o cenário único e pobre, o fato de só usarem metade do palco, não estraga em nada o prazer de ouvir um dos mais lindos scores já escritos para o teatro até hoje.
Se você curte um espetáculo simples e onde a música é o principal atrativo, não perca.
Claudio Botelho
Novembro 2009.


























