Um Banquinho e um Show Encantador

Foto: Deni Soares

Por Teresa Mascarenhas

No 19º Festival de Teatro de Curitiba, o Guairinha foi um oásis de prazer e recebeu um dos melhores espetáculos do panorama teatral do Rio de Janeiro – Versão Brasileira – celebrando os vinte anos da dupla Charles Möeller e Claudio Botelho na criação e montagem de Musicais.

Fernanda Montenegro, nossa grande dama do teatro, apresentou recentemente um espetáculo em que falava de Simone de Beauvoir e sua relação com Jean Paul Sartre. Ao começar a peça víamos somente Dona Fernanda, um foco de luz e um banquinho, onde ela permanecia sentada por todo o monólogo, usando só olhar e a voz para contar aquela história.

A referência vem para ressaltar a presença do mesmo único elemento cênico no palco. E, desta vez, quem ocupa o banquinho de forma singular é Claudio Botelho, que, além de cantor, é um ator carismático – um homem de palco – que conquista o público desde a sua entrada em cena, com sua voz, seu senso de humor e sensibilidade.

Versão Brasileira é de uma elegância ímpar. Botelho abre o Show ao piano tocando Vingativa, do Musical As Malvadas e segue com a apresentação de belíssimas canções de Porter, Gershwin, Sondheim, Irving Berlin, Rodgers e Hammerstein, Chico, Roberto Carlos – são 35 músicas com letras originais e versões de vários musicais.

Um momento marcante é quando Claudio Botelho canta Losing My Mind. Apenas um banquinho, um foco de luz e sua voz são necessários para que essa obra prima de Sondheim alcance sua interpretação definitiva.

A noite de segunda foi especial, com a celebração dos 80 anos de Stephen Sondheim, Claudio interpretou lindamente Send in The Clowns, do Musical A Little Night Music, a canção mais conhecida e executada do aniversariante.

Simplicidade e inteligência resumem a direção de Charles Möeller, enquanto Claudio Botelho segue nos emocionando com a magnífica interpretação de So in love, de Cole Porter, o medley de Maria e Somewhere, de West Side Story, sua absoluta versão para I Dreamed a Dream, de Les Miserables e a eletrizante O Que Será , de Chico Buarque.

A banda acústica, que acompanha Botelho – composta de três ótimos músicos:  Marcelo Castro, direção musical e piano, Edgar Duvivier, sopros e Thiago Trajano, cordas – é responsável por solos de puro deleite.

É tempo de astros, além de estrelas nos Musicais e em “Versão Brasileira” está a prova que alcançamos a maturidade no gênero. Claudio Botelho consegue somar seu talento como ator e cantor ao já consagrado de versionista e diretor.

Todos aqueles que apreciam o bom Teatro e amam Musicais não podem deixar de assistir Versão Brasileira.

* A jornalista Teresa Mascarenhas viajou a convite da organização do Festival de Curitiba .

Críticas de Barbara Heliodora e Macksen Luiz elogiam o Despertar

Leia aqui as principais críticas publicadas sobre ‘O Despertar da Primavera’

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Qualidade e emoção no trato de tema forte

O despertar da primavera: Botelho e Möeller integram texto, ação e canções em musical que mostra evolução do gênero no país

Por Barbara Heliodora (O Globo)

Recusando o caminho do clone e confiando em tudo o que aprenderam no caminho já percorrido, Charles Möeller e Cláudio Botelho apresentam um belíssimo espetáculo de “O despertar da primavera”, enquanto que, ao transformar a obra de Wedekind em musical, Duncan Sheik e Steven Sater mostram que a única forma dramática criada nos Estados Unidos atingiu sua maioridade. Para os brasileiros, que só viram uma meia dúzia de exemplos da forma, o uso do musical para tema tão sério e forte quanto o de Wedekind pode ser uma surpresa, porém a forma já tem muitas décadas de vida, e desde o “Carousel”, de Rodgers e Hammerstein, em 1945, por exemplo, vem se aventurando como linguagem apta a enfrentar temas sérios. Nesse “Despertar”, a integração de ação, texto e música é total, com as canções substituindo parte do diálogo para fazer, efetivamente, caminhar a ação.

Para os que pensam no século XX como todo ele uma época de liberação sexual, é bom lembrar que Frank Wedekind escreveu sua peça em 1906, e que esta só foi apresentada pela primeira vez sem censura, na Inglaterra, em 1974. E, para os que julgarem talvez exagerado o número de problemas e conflitos apresentados, é bom lembrar que essa era a intenção de Wedekind.

Como se torna óbvio se pensarmos em termos de toda uma comunidade de alunos. A força do texto de Wedekind, a riqueza imaginativa dos jovens contrastada com a limitada e falsa rigidez de seus pais e professores foram muito bem exploradas por Sheik e Sater, assim como pela encenação carioca.

A encenação é primorosa: o espaço concebido por Rogério Falcão, que permite localização e movimentação do grande elenco com eventuais riquezas visuais, está belamente iluminado por Paulo César Medeiros. Com a única exceção do último figurino de Ilse, os figurinos de Marcelo Pies são também de primeira categoria, enquanto Marcelo Claret alcança grande equilíbrio em seu desenho do som. A coreografia de Alonso Barros encontra o tom do despertar de que fala a peça, misturando alegria e indisciplina na medida certa. A direção musical de Marcelo Castro é impecável, e toda a parte musical do espetáculo é da melhor qualidade, com a preparação vocal de Ester Elias tendo alcançado resultado surpreendente.

Conjunto fantástico enche o palco de força vital

A direção de Charles Möeller e a tradução e a supervisão de Cláudio Botelho estão no mesmo alto nível de seus melhores trabalhos, e merecem os dois maiores aplausos por não aceitarem a ideia de apenas clonar o espetáculo americano.

A atuação do elenco de jovens é surpreendente, e, como é justo que seja no “Despertar da primavera”, sua força conjunta derrota a força totalitária dos adultos competentemente interpretados por Carlos Gregório e Débora Olivieri.

Letícia Colin, Thiago Amaral, Laura Lobo, Felipe de Carolis, Julia Bernat, Estrela Blanco, André Loddi, Bruno Sigrist, Pedro Sol, Danilo Timm, Thiago Marinho, Davi Guilherme, Lua Blanco, Eline Porto, Alice Motta, Mariah Viamonte, em conjunto e individualmente, enchem o palco de força vital e formam um conjunto fantástico de interpretação, dança e canto. Nos papéis principais, Rodrigo Pandolfo apresenta um trabalho comovente como o infeliz Moritz, Malu Rodrigues transmite bem a angústia de sua descoberta, e Pierre Baitelli transmite bem a posição do líder rebelde que paga um alto preço por suas convicções.

Se o “Despertar da primavera” é a maioridade do musical americano, a montagem carioca é a prova da maturidade de nosso teatro, pois o espetáculo é tão bom quanto emocionante.


* Publicada originalmente no Jornal O Globo em 27/08/09.

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Charles Möeller encena com harmonia de maestro a partitura coreográfica

Por Macksen Luiz (Jornal do Brasil)

A peça do alemão Frank Wedekind, escrita em 1890, expõe a ação dos mecanismos sociais (família, educação, religião e poder) sobre adolescentes em conflito com seu crescimento. As vivências dos jovens – interferidas por sociedade burguesa, repressiva e que se autosustenta na hipocrisia – não encontram meios de expressão na sua descoberta da sexualidade. Muito menos nas referências, senão naquelas que determinam o descompasso com a vida adulta e impõe-lhes valores que, muitas vezes, os aniquila. Construído como um drama, capaz de tocar, na sua época e até na atualidade, em questões que transcendem ao tempo e ao espírito com que foi escrito, se mantém como libelo moral contra os condicionantes da formação e afirmação da individualidade.

O caráter poético reveste a crueldade com que Wedekind capta o momento das revelações e da percepção do mundo pela juventude submetida à violência do crescimento, para além das transformações de seu corpo. O autor confronta o desabrochar com o enquadramento, traçando retrato impiedoso das dores de amadurecer. A versão musical de O despertar da primavera, em cartaz no Teatro Villa-Lobos, com texto e letras de Steven Sater e música de Duncan Sheik, não sofre perdas na transposição dos gêneros, mantendo a força e a contundência da “denúncia”, e a atualidade da atmosfera dramática. E é justamente o drama que estabelece e apoia a musicalidade das 19 canções, nem sempre bem servidas de boa poesia e marcante sonoridade. A trilha não tem a mesma dramaticidade do entrecho e, com exceção de uma outra música (as que se aproximam, rítmica e liricamente, da linguagem sonora contemporânea), as canções não fornecem significativa reavaliação do texto. Ainda que não ressalte, a música permite que se tenha perspectiva, tímida, menos rica, mas envolvente, deste drama juvenil. Charles Möeller encena com harmonia de um maestro seguro a partitura coreográfica desta celebração, algo dolorosa, à liberdade de ser e ao direito de se descobrir.

O diretor cria montagem com movimentos amplos da uniformidade em oposição a gestos vigorosos do encontro afetivo, numa superposição de estados emocionais e contrastes sociais. A música é interveniente, sem ser impositiva ou inadequada, comentando a trama, sem o mesmo brilho e impacto da narrativa, mas não obscurecendo a comunicabilidade com a plateia. Charles Möeller acentua a ligação com a emotividade, com efeitos cênicos infalíveis, como o recorte da lua, ou o encontro do trio de protagonistas no cemitério. Ou nos diversos contatos amorosos entre os jovens. A competente direção musical de Marcelo Castro, a coreografia, um tanto esquemática, de Alonso Barros, os cuidadosos figurinos de Marcelo Pies, a bem desenhada iluminação de Paulo César Medeiros e o cenário funcional de Rogério Falcão, completam a caprichada ficha técnica.

A dupla Charles Möeller e Cláudio Botelho, que também assina, uma vez mais, a versão brasileira dos musicais da grife, confirma a capacidade profissional para selecionar os elencos de suas produções. Escolheram com precisão os jovens atores, que conjugam tipo físico e capacidade interpretativa. O elenco de 21 atores demonstra qualidades apreciáveis como cantores, emprestando à montagem bem mais do que a sua juventude. Mariah Viamonte, Alice Motta, Eline Porto, Lua Blanco, Davi Guilherme, Thiago Marinho, Danilo Timm, Pedro Sol, Bruno Sigrist, André Loddi, Estrela Blanco e Julia Bernat formam o encorpado coro de estudantes. Laura Lobo projeta a fragilidade da jovem oprimida pela violência paterna. Thiago Amaral e Felipe de Carolis vivem sugestiva e delicada cena amorosa. Letícia Colin transmite o desamparo da esperança violada. Carlos Gregório e Débora Olivieri se distribuem pelos diversos papéis de adultos. Rodrigo Pandolfo recorre aos traços de comicidade poética para construir a sua comunicativa interpretação do suicida. Malu Rodrigues e Pierre Baitelli formam o promissor casal de atores que conduz tão bem a trama deste musical que conquista a plateia pela emoção.

* Publicada originalmente no Jornal do Brasil em 27/08/09.

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O Despertar da Primavera: um musical classe A

Por André Gomes

Não é todo dia que se vê nos palcos um musical dramático, com temas como suicídio, incesto e sexo entre menores de idade. ‘O Despertar da Primavera’ é tudo isso e mais. Ao apoderar-se do polêmico texto teatral do alemão Frank Wedekind de 1891, a dupla Duncan Sheik e Steven Sater fez nos Estados Unidos o que parecia inconcebível: transformou-o em musical. Sagaz, embalou-o com rock e coreografou, com desenvoltura, aquele hiato que separa a infância da vida adulta. Charles Möeller e Claudio Botelho viram a montagem na Broadway, compraram seus direitos e ganharam outro: o de fazer a seu modo. No Teatro Villa-Lobos, desde sábado, está o resultado. A montagem nacional seduz pela plasticidade e pela contenção – é um musical maduro, apesar da temática adolescente.

Ousada, a cena de sexo entre o casal protagonista está ali para explicitar que é ele o eixo da produção: é do despertar para os prazeres do corpo que trata a montagem, e de toda a censura que vem a partir da liberdade de se tomar partido, ir em busca do que se realmente quer. O cenário de tijolos, de grandes proporções verticais, emoldura com perfeição o afinado elenco, com um Pierre Baitelli apaixonado na pele de Melchior, por quem Wendla (Malu Rodrigues) se apaixona e a quem se entrega. A atriz, afinada, tem tom suave, sedutor, mas o acerto que obtém na parte musical não é o mesmo da interpretativa: falta-lhe força dramática, aquele brilho que uma protagonista como a que defende deve ter. Coisa que Rodrigo Pandolfo, intérprete do espevitado Moritz, tem de sobra. Ator superlativo, domina as cenas em que está, imprime força às canções que cabem a ele, mas merece a ressalva: menos seria mais para seu Moritz, para que o público acompanhe com o devido drama o conflito do personagem. Letícia Colin, conhecida da TV, é grata surpresa: canta bem e tem forte presença cênica.

Também a favor da encenação estão as versões que Botelho fez para as canções: elas se comunicam com o público jovem, com despudor e irreverência. Há vários momentos memoráveis – ‘The bitch of Living’ é um deles – e, em todos eles, a sensação de que ali está um trabalho feito com respeito pelo espectador, repleto de pequenas surpresas, rigor em detalhes e o bom gosto que vem conduzindo a bem-sucedida carreira de Möeller e Botelho. Nada, contudo, tem o impacto de olhar nos olhos da garotada que está em cena (são mesmo jovens atores, de 14 a 25 anos, boa parte virgem de musicais) ao fim do espetáculo, diante dos aplausos do público. O despertar deles acontece em comunhão com a plateia. Que venha a primavera. E depois, que venha ‘Gipsy’.

* Publicada originalmente no Blog Teatropontocom

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Obra-prima em versão imperdível

Por Lionel Fischer

Certamente todos os profissionais dar artes cênicas e estudantes de teatro conhecem o texto “O despertar da primavera”, de Wedekind. Mas é possível que muitos espectadores ainda não tenham tido o privilégio de entrar em contato com esta obra-prima e sobretudo pouco saibam a respeito do dramaturgo. Então, vamos rapidamente situá-lo.

Autor dramático alemão, Frank Wedekind (1864-1918) foi colaborador da revista satírica Simplizissimus, membro do famoso Kabarett, de Munique e ator de grande destaque. Começou sua carreira com dramas sobre os problemas da juventude e seu choque com a moral burguesa. Deste período constam O mundo jovem e O despertar da primavera, esta última uma de suas obras mais importantes, na qual a temática antiburguesa e o simbolismo expressionista se acentuaram em suas obras seguintes (O espírito da terra e a segunda parte de A caixa de Pandora), em que criou o protótipo da mulher fatal. Sua postura cínica de boêmio e moralista antiburguês, sua exaltação do erotismo e sua predileção por personagens marginais (aventureiros, criminosos, prostitutas etc.) impuseram ao dramaturgo constantes problemas com a censura.

Isto posto, voltemos ao essencial: passados 30 anos da estréia no Rio da peça, levada à cena por um jovem e talentoso grupo que ficou conhecido como O Pessoal do Despertar, dirigido por Paulo Reis, a maravilhosa obra de Wedekind volta ao cartaz. Só que, desta vez, na forma de um musical, estreado em 2006 nos Estados Unidos, no circuito OFF-Broadway e que, ainda no mesmo ano, chegou à Broadway e foi consagrado pelo público e pela crítica, recebendo oito prêmios Tony.

Contando com música de Ducan Sheik, texto e letras de Steven Sater, “O despertar da primavera – o musical” chega ao palco do Teatro Villa-Lobos com direção de Charles Möeller, versão das letras e supervisão musical de Claudio Botelho e elenco protagonizado por Malu Rodrigues (Wendla), Pierre Baitelli (Melchior), Rodrigo Pandolfo (Moritz) e Letícia Colin (Ilse), que dividem a cena com Débora Olivieri e Carlos Gregório – que interpretam todos os personagens adultos – e mais Alice Motta, André Loddi, Bruno Sigrist, Danilo Timm, Davi Guilherme, Eline Porto, Estrela Blanco, Felipe de Carolis, Julia Bernat, Laura Lobo, Lua Blanco, Mariah Viamonte, Pedro Sol e Thiago Marinho – estes últimos fazem os companheiros de colégio dos protagonistas.

Contendo personagens otimamente estruturados, diálogos impregnados de dramaticidade e lirismo, e uma narrativa que prende a atenção do espectador desde o início, “O despertar da primavera” é um texto que permanece atualíssmo, já que aborda temas que, infelizmente, nossa sociedade não foi capaz de banir, como alguns citados no impecável e abrangente release que nos foi enviado: o florescer da sexualidade, o incesto, o suicídio e a opressão, tanto no âmbito familar como no escolar e religioso.

E o texto é tão poderoso que, mesmo convertido em musical, conserva intacto seu fascínio e pertinência, cabendo registrar um dado curioso: se por um lado os autores mantiveram a atmosfera da época, por outro criaram músicas contemporâneas, com o objetivo, quem sabe, de através deste contraste reafirmar a atualidade das questões essencais trabalhadas por Wedekind. No entanto, aqui fazemos uma pequena ressalva: se por um lado a maioria das 19 canções estão em sintonia com o contexto, por outro algumas carecem de maior vigor dramático, contribuindo para minimizar um pouco o dilacerante e claustrofóbico universo em que se debatem os personagens. Mas este senão acaba sendo, em grande parte, compensado pela ótima direção musical de Marcelo Castro e pela paixão com que os atores interpretam as músicas, cujas letras, como de hábito, receberam impecáveis versões de Claudio Botelho.

Quanto ao espetáculo, este marca a 22ª incursão de Charles Möeller e Claudio Botelho no gênero musical. E o que ainda pode ser dito a respeito desta extraordinária parceria, que a cada nova empreitada se supera? Aqui, estamos novamente diante de uma montagem absolutamente irrepreensível, que consegue materializar na cena, de forma sensível e criativa, todos os conteúdos propostos pelo autor. E também fazemos absoluta questão de ressaltar o fato de que Möeller e Botelho tiveram a salutar ousadia – exceção feita a Débora Olivieri e Carlos Gregório, profissionais com vasta experiência – de trabalhar com jovens com idades entre 18 e 25 anos, portanto praticamente em início de carreira, deles extraindo atuações irretocáveis, tanto no que se refere aos protagonistas como a todos os demais. Só nos resta, então, desejar que os sempre caprichosos deuses do teatro abençoem esta mais do que oportuna empreitada e a façam permanecer em cartaz por muito tempo.

No complemento da ficha técnica, destacamos com o mesmo entusiasmo o maravilhoso trabalho de todos os profissionais envolvidos nesta imperdível montagem – Alonso Barros (coreografia), Annmarie Milazzo (arranjos vocais), Rogério Falcão (cenário), Marcelo Pies (figurinos) e Paulo César Medeiros (iluminação).

* Publicada originalmente no Blog do Crítico e Professor de Teatro Lionel Fischer

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HIGH SCHOOL MUSICAL DARK

Por Tom Leão (jornalista e crítico de música do Jornal O Globo)

“Há 30 anos eu assisti a uma versao de “O despertar da primavera” feita por uma galera new wave do teatro brasileiro, o Pessoal do Despertar, que incluia Falabella, Maria Padilha, Rosane Goffman, Zezé Polessa e outros. Foi a primeira peça que vi além daquelas mambembes da escola e infantis. Vi na época certa, adolescência. Aquela parada bateu forte em mim. Tava tudo lá – das angústias adolescentes (rebeldia, sexo, depressão, drogas), resumidas num texto escrito em 1891!!!  Caray, que parada vanguarda!  E ainda hoje bate forte. Isso é ser moderno. Fui ver a versão musical da dupla Moeller & Botelho, que estreou no finde, e o que dizer? Espetacular! Não sei onde eles acham atores/cantores tão bons, gente com 15, 16 anos arrebentando geral. É como uma antítese do imbecil High School Musical da Disney. Nem preciso dizer que recomendo sem restrições. Junte uma grana, deixe de ver uns dois ou três filmes, e vá ao teatro Villa-Lobos (Copa) ver. Desperte da letargia…”

* Publicado originalmente no Blog Na Cova do Leão.

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“O DESPERTAR DA PRIMAVERA” inunda o palco do Villa-Lobos com hormônios, repressão e poesia

Por Paulo Netto (Drops Magazine)

“CHARLES MOELLER & CLAUDIO BOTELHO são incansáveis e suas cabeças criativas não páram nunca. Nos últimos meses encantaram multidões cariocas e paulistanas com espetáculos como: “Beatles Num Céu de Diamantes”, “A Noviça Rebelde”, “7 – O Musical”, “Gloriosa”, “Avenida Q”.

O mais novo é uma versão non-replica do musical americano vencedor do Tony Award em 2007. Não seria surpreendente que o novo filhote fosse, mais uma vez, extraordinário. A união do texto do alemão Frank Wedekind, polemicamente escrito em 1891 (e ainda atualíssimo) com canções pop-rock colocaram Nova York em polvorosa há três anos.

Com liberdade criativa para deixar vir à tona sua própria concepção, a dupla conseguiu uma realização ainda mais bonita e impactante que a da Broadway. Na versão brasileira há uma densidade dramática mais consistente e um lirismo mais marcado. O cenário tem mais dinamismo, os tijolos repressores têm um pé-direito gigantesco, enormes e verticais vigas, um sol que se traveste de inúmeras cores e uma lua que mingua e cresce. O desenho de luz é fantástico. Novas e esclarecedoras cenas foram acrescidas. Fotos do elenco descem do teto como se fossem passaportes (e posteriormente, obituário), num momento cenográfico de abundante beleza. Os microfones às mãos dos atores foram espertamente abstraidos, fazendo com que o drama prevaleça ao show de rock.

Desta vez, Botelho demonstra uma maturidade emocionante no trabalho de versão das canções para o português. Esta é possivelmente sua melhor e mais poética transposição de um musical para a nossa língua. A sonoridade das letras, as rimas, a suavidade de algumas canções, tudo relacionado a este trabalho é digno de aplausos. O “purple summer” de Steven Sater e Duncan Sheik torna-se um “verão vermelho”. “Eu serei teu sangue, tu minha cicatriz”, “seu corpo quer falar, é só ouvir”, em “The Word of Your Body” são mais exemplos.

O que mais me impressionou quando vi em 2007 “Spring Awakening” em Nova York foi a garra e a energia quase palpáveis do elenco que vibrava e suava a cada canção. O elenco brasileiro também tem essa paixão, essa força. A testosterona e o estrógeno borbulham no palco, até porque a faixa etária do cast vai dos 14 ao 25 anos.

PIERRE BAITELLI, MALU RODRIGUES e RODRIGO PANDOLFO estão apaixonantes como os protagonistas. Densos dramaticamente, vozes afinadas e a tal da tão comentada “star quality”. Pierre esteve na minissérie da Globo “Capitu”, Malu em “7″ e Pandolfo foi indicado este ano ao Shell pelo trabalho na peça “Cine-Teatro Limite”.

Entre os coadjuvantes do ensemble chamam atenção diferenciada as desenvolturas e vozes da carioca LAURA LOBO, do gaúcho THIAGO AMARAL e do paulistano BRUNO SIGRIST. Seria muito bom ver este último na pele de Moritz numa eventual substituição. FELIPE DE CAROLIS tem desempenho dedicado num dos papéis mais difíceis, o de Ernst, jovem que descobre a homossexualidade e a paixão por um colega de classe. O intuitivo ator executou um interessante trabalho de voz, deixando-a mais aguda nos diálogos.

Mas talvez dentre todo o elenco a mais impressionante tenha sido a fulgurante e belissima LETÍCIA COLIN, no papel de Ilse, uma jovem avant-garde e libertária em pleno final do século 19. A cena em que ela canta “Blue Wind” (Primavera) é das mais emocionantes do espetáculo.

Vale muito a pena ver o antigo e nostálgico Teatro Villa-Lobos inundado pela garra e hormônios deste fotogênico e talentoso elenco. A poesia e o lirismo da versão brasileira saltam aos olhos e palpita o coração da plateia carioca, que aplaude e grita bravo! a cada canção.

Este imperdível musical da dupla mágica Moeller & Botelho é melhor que o original americano. Aqui, os beijos são mais ardentes, os cenários mais vistosos e a dramaturgia mais elaborada. A ousadia é maior nas cenas de sexo e nudez e sim, há um belo e atordoante beijo molhado entre Thiago Amaral e Felipe de Carolis.

A temporada no Rio deve durar até novembro. No início de 2010 será a vez de São Paulo.

Os tabus do sexo, a repressão dos pais, o rigor dos professores e o desabrochar para o erotismo, a gravidez adolescente, o aborto, o incesto, o suicídio, mesmo escritos há quase 120 anos por Wedekind, são temas ainda muito atuais e urgentes para plateias de 8 a 80.

“O DESPERTAR DA PRIMAVERA” é mais um musical arrebatador da dupla, que prepara para os próximos meses as versões brasileiras de “Gipsy” e “Hair”.

* Publicada originalmente no Site Drops Magazine.

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Claudio Botelho e Charles Möeller gostam de desafios. Já se aventuraram a levar ao palco a sua visão de um ícone da dramaturgia musical nacional, como Ópera do Malandro, de Chico Buarque; um outro que traz à cena o cancioneiro dos rapazes de Liverpool (matéria que desperta paixões que nem o futebol) em Beatles Num Céu de Diamantes e, last but not least, criaram um conto de fadas moderno embalado pela sofisticada música de Ed Motta. Desta vez, escolheram o clássico de Frank Wedekind, O Despertar da Primavera. Não se tratava simplesmente de verter para o português a montagem musical norte-americana de Duncan Sheik e Steven Sater , criada em 2006. Mas dar a sua visão para a produção que conquistou oito prêmios Tony. Depois, vencer a expectativa da horda de fãs que tiveram a adolescência marcada pela produção de 1979 do Pessoal do Despertar. Com Miguel Falabella, Maria Padilha, Daniel Dantas, Zezé Polessa, entre outros no elenco, e dirigida por Paulo Reis, a encenação entrou para a história e para a memória de toda uma geração de cariocas.Mais uma vez, a dupla Botelho & Möeller se superou. Este O Despertar da Primavera consegue unir a força do texto do autor alemão com o impacto de uma trilha sonora que só fez conferir ainda mais alma aos adolescentes do drama. É curioso que, mesmo escrita no século XIX, a trama permaneça atual. Mesmo em plena era da informação, questões como aborto, homossexualismo e abuso sexual continuam em pauta e próximos da realidade dos jovens. O cenário, de Rogério Falcão com estruturas metálicas e concreto aparente, aliado à meia-luz de Paulo Cesar Medeiros, cria atmosfera soturna, opressora, que remete, na asfixia, à seqüência em que se entoa o hino rebelde Another Brick in The Wall, em Pink Floyd The Wall, o filme dirigido por Alan Parker em 1982. À frente do elenco, destaca-se Malu Rodrigues como a romântica Wendla. Além do ar angelical que a torna perfeita para o papel, Malu ainda canta lindamente. Pierre Baitelli (Melchior faz com ela bom par romântico e Rodrigo Pandolfo mais uma vez se mostra talentoso, agora na pele do angustiado Moritz. Carlos Gregório e Debora Olivieri cumprem com louvor a tarefa de encarnarem, em diversos papéis, o mundo adulto. Em resumo: um espetáculo impactante, com letras impecáveis de Botelho e ótima direção musical, encenado com garra por um elenco jovem e que também vai fazer história.

* Publicada originalmente no Blog da jornalista, crítica e professora de história do teatro Debora Ghivelder.

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Todo o brilho da juventude

Novo espetáculo de Charles Möeller e Claudio Botelho é um conjunto de acertos

Por: Daniel Schenker Wajnberg

O GRITO SUFOCADO DE LIBERDADE da juventude ecoa forte em O Despertar da Primavera, musical que insere sonoridade contemporânea ao texto de Frank Wedekind, que flagra o processo de desestabilização de adolescentes no fim do século 19.

A mistura contrastante entre antigo e contemporâneo soa atraente aos olhos e ouvidos, com Cláudio Botelho respondendo pela fluente versão das músicas (de Duncan Sheik e Steven Sater) para o português, que exprimem desejos reprimidos pela rígida moralidade das instituições e das famílias. Vale destacar a expressiva utilização da cor tanto na iluminação de Paulo César Medeiros quanto nas estampas dos figurinos femininos de Marcelo Pies, que formam belo conjunto com os padronizados uniformes masculinos.

Na direção, Charles Möeller orquestra o espetáculo com a habitual competência. Os atores evidenciam disciplina. Entretanto, por se tratar de um elenco muito jovem, como pede a própria dramaturgia de Wedekind, não é possível detectar trabalhos de interpretação mais personalizados.

* Publicada originalmente na Revista Istoé Gente – Edição 521 – 07/SET/2009

Crítica: “Q” Misturança boa a da “Avenida Q”

agosto 31, 2009 by Site Möeller & Botelho  
Filed under Avenida Q, Críticas, Site

Crítica ‘Avenida Q’

Por: Darson Ribeiro (Entreatro)

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Crítica “7 – O Musical”

abril 28, 2009 by admin  
Filed under 7 - O Musical, Críticas



À leitura do currículo das montagens da dupla Charles Möeller & Claudio Botelho no programa de 7 – O Musical da 1ª, em 1996, até aos seus atuais sucessos, emociona a persistência intrépida, determinada dos jovens criadores empresários no gênero musical, com textos brasileiros, muitos, ou estrangeiros alternativos da off Broadway.

De fato, assim procederam e continuam procedendo na crença,  certamente, de que juntando a música, o canto, a dança e a palavra econômica à exuberância dos cenários e dos figurinos e ainda, hoje em dia, a uma iluminação inquieta e nervosa na busca de inimagináveis, até há pouco, efeitos plásticos, temos como conseqüência natural o cume da inteligência cênica.

Realmente, é no mínimo fascinante  tal  ruidosa manifestação, capaz, sempre, de arrastar aos teatros do mundo milhões de pessoas que buscam diversão na arte ou vice-versa.

Por sua vez,  Möeller  e Botelho re-instalaram na atividade empresarial artística o charme dos números superlativos pelo envolvimento de muitos na produção e execução de projetos cujas altas cifras o público vê inteiras no palco.

Uma preocupação: dizem que o brasileiro tem inveja do sucesso alheio. Com meia dúzia de mega sucessos em cartaz no Rio e em São Paulo, rezemos para que a ala dos eternos descontentes com a distribuição de verbas estatais – polêmicas,  às vezes-, não se voltem contra esses destemidos empreendedores, não fossem eles igualmente talentosos e eficientes nas funções de autores, diretores, letristas e outras tantas que assumem paralelamente em suas montagens teatrais.

E NÃO É QUE NELSON RODRIGUES ASSINARIA EMBAIXO?

Você pode questionar – como vem acontecendo – o uso da música de Ed Mota, pouco melodiosa para alguns, não alçando ao pódio das “assobiáveis”, como manda o bom figurino da Broadway. Mas, a nosso ver, a música aqui utilizada serve como uma luva ao tom predominantemente sombrio da descabelada narrativa.

O uso do conto gótico dos Irmãos Grimm – Branca de Neve – em paralelo ou como base para a trama urdida pelo autor Charles Möeller , resulta num inusitado flagrante do universo de Nelson Rodrigues, nosso mais transgressor dramaturgo, com tudo a que nos acostumamos em sua obra, da fase mítica ou suburbana: mulher traída e inconformada; marido fujão e mulherengo (nada menos que um certo Herculano!); cafetinas, prostitutas, cartomantes vigaristas; e um caldeirão de ingredientes melodramáticos: ódio, inveja, vingança, punhais estraçalhando literalmente corações incautos…

O tom é de tragicomédia, de uma solenidade grandiloquente, com pitadas aliviadoras, de um humor tipicamente carioca, como por exemplo na cena do morto sapateador (que arranca aplausos divertidos da platéia). É claro que o autor sabia em que fonte bebia e tal recurso, consciente ou não, alavanca o  texto para além do mero folclore da lenda “dark” da secular heroína. Nelson Rodrigues assinaria em baixo, acreditamos.

Outro aspecto positivo que salta aos olhos: o domínio técnico dos elencos brasileiros (cariocas, principalmente) nos musicais, quer cantando, dançando ou contracenando longe do psicologismo televisivo. Nesta bela montagem estamos diante de  magníficas intérpretes musicais como Zezé Mota, Eliana Pittman, Alessandra Maestrini e Alessandra Verney.

Rogéria se encarrega do humor carioquês, como a cafetina Odete, bem seguida por Ivana Domenico e Janaina Azevedo (ou Renata Celidônio). E Suzana Faini está brilhante na misteriosa Sra. A, estreando no papel aqui em São Paulo, secundada com graça por Malú Rodrigues.

Não menos importante, o naipe masculino, encabeçado por Jarbas Homem de Mello (Herculano), não só canta, como executa com  sensibilidade movimentos coreográficos de hipnótica força imagética.

A direção musical e a pequena orquestra valorizam a música original de Ed Mota, assim como as letras de Cláudio Botelho, insuperável neste item desde sempre.

Toda a produção é do mais irretocável profissionalismo, passando pelos figurinos de Rita Murtinho, pela cenografia de Rogério Falcão e pela iluminação de Paulo César Medeiros, todos “cobras”!

Como bem observou minha companheira de tantos anos, Elvira, assídua dos musicais da Broadway: parece que agora é a  Broadway que precisa prestar atenção – e aprender – com os musicais do “Aventura” (nome oficial da empresa de Möeller e Botelho.


Por: AFONSO GENTIL – Crítico Teatral filiado a APCA desde 1992.


“Avenida Q”: Versão impecável de ótimo musical

março 31, 2009 by admin  
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Crítica “Avenida Q” por Lionel Fischer:

“Imagine um lugar onde convivem em harmonia moças e ‘monstras’ de família, artistas frustrados, ex-celebridades, trabalhadores desempregados, devassas, solteironas amarguradas, orientais ranzinzas, gays com um pé fora do armário, tarados virtuais, ursinhos de pelúcia maléficos, humanos e bonecos igualmente desbocados e irreverentes. Esta é a ‘Avenida Q.’, musical que surgiu de mansinho em 2003 no circuito Off-Broadway e apenas quatro meses depois estreou no Golden Theater, de onde nunca mais saiu de cartaz, sagrando-se vencedor de três Tony’s: Melhor Musical, Melhor Música Original e Melhor Libreto”.

Este trecho, extraído do ótimo release que nos foi enviado, possibilita uma idéia precisa do espetáculo, em cartaz no Teatro Clara Nunes. Com direção assinada por Charles Moëller e Claudio Botelho, “Avenida Q.” – texto de Jeff Whity, letras e músicas de Robert Lopez e Jeff Marx – chega à cena com elenco formado por Sabrina Korgut (Kate Monstra e Lucy de Vassa), André Dias (Princepton e Rod), Claudia Netto (JapaNeuza), Fred Silveira (Nicky e Trekkie Monstro), Renato Rabelo (Brian), Mauricio Xavier (Gary Coleman), Renata Ricci (Dona Coisa Ruim, Ursinha do Mal e Ricky) e Gustavo Klein (Ursinho do Mal e Recém-chegado). Os atores são acompanhados por uma banda – que não é vista – formada por Zaida Valentim (teclado 1 e regência), Heberth Souza (teclado 2), Thiago Trajano (guitarra, banjo e violão), Márcio Romano (bateria), Omar Cavalheiro (baixo elétrico e acústico) e Alex Freitas (sax, flauta e clarinete).

Centrado na história de Princeton – um jovem recém formado que chega à capital em busca de uma nova vida – o musical nos mostra o encontro dele com vários personagens, todos eles exibindo variadas carências e frustrações. E são justamente estas últimas que conferem pertinência a uma estrutura narrativa bastante simples e quase sempre muito engraçada.

Mas o humor, no presente caso, não é trabalhado de maneira leviana e inconsequente, mas de forma crítica, o que confere ao espetáculo uma dimensão muito além do mero entretenimento.

Com relação à montagem, esta exibe, como de hábito, a inquestionável qualidade da griffe Botelho/Moëller: marcações divertidas, imprevistas e criativas, ritmo preciso, atores maravilhosamente ensaiados, super disciplinados e sempre exibindo enorme prazer de estar em um palco contracenando com total entrega. Estamos, sem dúvida, diante de uma montagem que reúne todas as condições para se converter em um dos maiores destaques da atual temporada.

Quanto ao elenco, de tão harmoniso e integrado – inclusive no que concerne à manipulação dos bonecos -, seria injusto conferir algum destaque especial a qualquer dos profissionais que estão em cena. Entretanto, como eventuais “injustiças” fazem parte da natureza humana – e um crítico, apesar das aparências, também pertence à curiosa população de bípedes que habita este planeta -, não resistimos em afirmar o que se segue: Sabrina Korgut, André Dias e Claudia Netto permanecerão por muito tempo em nossa lembrança, da mesma forma que acreditamos que o público levará muito tempo para esquecer – se é que o fará – performances tão notáveis e encantadoras.

Na equipe técnica, destacamos com o mesmo entusiasmo o deslumbrante trabalho de todos os profissionais envolvidos nesta produção impecável – Claudio Botelho (tradução e adaptação das letras), Rogério Falcão (cenografia), Mareu Nitschke (figurinos), Paulo César Medeiros (iluminação), Marcelo Castro (direção musical) e Rick Lyon, que concebeu e desenhou os 16 bonecos, vindos dos Estados Unidos.

Por Lionel Fischer – Blog Lionel Fischer – 30/03/09

Crítica: ‘Avenida Q’ é abusado e jovial musical classe A

março 29, 2009 by admin  
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Notas Musicais – Mauro Ferreira – 12 de Março de 2009:

“Gloriosa”: Montagem imperdível inaugura Teatro Fashion Mall

janeiro 17, 2009 by admin  
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Por Lionel Fischer

Dentre os muitos temas abordados por Peter Quilter em “Gloriosa”, talvez o mais significativo diga respeito ao desejo. A protagonista, a norte-americana Florence Foster Jenkins (1868-1944), filha de um banqueiro bem-sucedido, começou a fazer aulas de canto ainda criança. No entanto, ao perceber que ela não tinha a menor vocação para o ofício, seu pai recusou-se a continuar pagando as aulas. O normal seria, pelo menos naquela época, que Florence abdicasse de seu desejo e seguisse o previsível futuro que lhe estaria destinado. Mas aos 17 anos ela fugiu de casa e insistiu em continuar estudando canto lírico, acabando por tornar-se uma celebridade. Tal celebridade, no entanto, não se deu em face de seu talento, mas de suas excentricidades e sobretudo de sua total incapacidade como cantora. Ela se acreditava talentosa e afinada, mas na verdade era uma catástrofe.

Eis, em resumo, o enredo de “Gloriosa”, peça que inaugura o belíssimo Teatro Fashion Mall. Marisa Murray assina a tradução, cabendo a Claudio Botelho a adaptação e direção musical, estando a direção a cargo de Charles Möeller. Na pele da protagonista, Marília Pêra divide a cena com Guida Vianna – Maria, a empregada; Dorothy, a amiga; e Verinda, a mulher que humilha – e Eduardo Galvão, que interpreta o pianista Cosme McMoon. O pianista Silas Barbosa toca na coxia o que o ator dubla em cena.

Como dissemos no parágrafo inicial, talvez o tema mais importante de “Gloriosa” seja o desejo. Mesmo que muitas vezes ridicularizada, Florence sempre seguia em frente, o que muitos chegaram a considerar como a materialização não de mera teimosia, mas de evidente sintoma de loucura – ela alegava que seu “ouvido interno” lhe garantia que cantava de forma irretocável, não percebendo a dicotomia quando cantava de fato. Pois bem: e que importância teria se ela padecesse de algum distúrbio psíquico mais grave? O que importa destacar é a tenacidade de uma mulher que jamais abdicou do seu desejo, que priorizou seu impulso essencial independentemente dos “ouvidos apurados” daqueles que lotavam seus recitais. E se o faziam, podemos supor que a vontade de se divertir “com uma louca” fosse a causa principal. Mas nada nos impede de também supor que uma monumental inveja, ainda que latente, habitava o coração de todos que a assistiam, pois certamente a maioria não tinha um décimo da coragem de Florence para ao menos tentar viabilizar seus projetos, optando por conformar-se em assumir papéis convencionais em uma sociedade puritana e repressora.

Quanto ao espetáculo, Charles Möeller impõe à cena uma dinâmica que, sabiamente, dispensa inúteis mirabolâncias formais e investe naquilo que realmente importa: a relação que se estabelece entre os ótimos personagens. Mas cumpre registrar a criatividade de suas marcações, a precisão rítmica e sobretudo a capacidade do encenador de ajudar os atores a criarem performances inesquecíveis. A começar pela de Marília Pêra.

Ao longo desses 20 anos de exercício da crítica teatral, assistimos inúmeros espetáculos protagonizados por Marília. E à medida que o tempo ia passando, nossa dificuldade aumentava, pois quando imaginávamos já ter esgotado todo nosso repertório de elogios, eis que a atriz nos obrigava a criar outros, dada sua infinita capacidade de surpreender e de se reinventar como intérprete. No presente caso, Marília está diante de um enorme desafio, pois é obrigada a cantar mal, quando todos sabemos que canta esplendidamente – aliás, ela só canta efetivamente bem uma única música, no final do espetáculo, a “Ave Maria”, de Gounod, criada em cima do “Prelúdio nº 1”, em dó maior, de Bach. Podemos, portanto, imaginar o esforço e atenção da atriz para desvirtuar seu dotes naturais, mas evitando cair em inadequado exagero.

Mas além de conseguir o que nos parece um prodígio, Marília Pêra exibe um trabalho corporal absolutamente extraordinário, que valoriza não apenas os aspectos cômicos da personagem, mas também suas carências e fragilidades, assim como componentes trágicos, eventualmente sugeridos, mas sempre de forma sutil. Enfim, estamos diante de mais um trabalho desta que consideramos, sem nenhuma hesitação, como uma das melhores atrizes do planeta (já dissemos isso algumas vezes…) e que converte o ato de assisti-la em um privilégio ao qual nenhum espectador minimamente sensível pode se furtar. Assim, desejamos, de todo coração, que os sempre caprichosos deuses do teatro continuem abençoando esta mulher que, através de seu dificílimo ofício, nos possibilita sempre um inesquecível encontro com o teatro e, portanto, com cada um de nós.

Quanto a Eduardo Galvão, o ator parece ter vindo ao mundo com a expressa finalidade de dar vida ao charmoso e cínico pianista, mas ao mesmo tempo possuidor de comovente dose de humanidade, sendo que esta última virtude vai se acentuando ao longo do espetáculo.

E o que dizer de Guida Vianna em seus três papéis, completamente díspares e que ela consegue materializar de forma irretocável? Nada além do óbvio: estamos diante de uma atriz capaz de fazer qualquer personagem, em especial aqueles em que o humor predomina – na pele da desbocada e furiosa Verinda, a atriz está tão engraçada que às vezes a montagem tem que ser brevemente interrompida, até que o público pare de rir.

No tocante à equipe técnica, destacamos com o mesmo entusiasmo a tradução de Marisa Murray, a adaptação e direção musical de Cláudio Botelho, a inspirada cenografia de Rogério Falcão, os hilariantes figurinos de Kalma Murtinho, a trilha sonora de Marcelo Claret e a expressiva iluminação de Paulo César Medeiros, cabendo ainda mencionar o virtuosismo do pianista Silas Barbosa, que contribuem de forma decisiva para o êxito deste espetáculo simplesmente imperdível.

Publicado originalmente no Blog do Crítico e Professor de Teatro Lionel Fischer.

Todas as Glórias para Marília

janeiro 17, 2009 by admin  
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Grande dama do teatro brasileiro, Marília Pêra sempre teve a seu favor a facilidade que tem de fazer rir. Sua celebrada verve cômica não era ingrediente principal de ‘Mademoiselle Chanel’, merecido sucesso de 2004, mas, em ‘Gloriosa’, volta ao status de protagonista.

As gargalhadas na platéia já são ouvidas na cena inicial, com a composição atrapalhada e hilariante da atriz para Florence Jenkins, a mais desafinada das cantoras líricas americanas.

Mas, além do riso, há mais: Marília faz da personagem não uma caricatura, mas alguém plausível que, na inabilidade de enxergar o outro, lançava luz sobre si mesma, mesmo diante do escárnio, do deboche alheio, a fim de alcançar algum contentamento — a cura de seus males.

A fuga da realidade ao mundo real, ouvir as árias de ópera que a milionária assassinava em notas completamente erradas é como compartilhar de uma travessura, especialmente saborosa na ‘Ária da Risada de Adele’.

A conduzi-la neste anti-musical de Peter Quilter, de texto leve e fluente, Claudio Botelho e Charles Möeller não temem as piadas prontas e encontram o equilíbrio delicado entre a comédia rasgada e algum drama. Guida Vianna, em vários papéis, se sai bem, assim como Eduardo Galvão, como o pianista da diva às avessas. Cenários e figurinos vistosos são outros pontos positivos deste espetáculo sem contra-indicações.


Por André Gomes – O Dia – 16/01/09.


Magistral, absoluta, admirável – Crítica: Gloriosa (Jornal O Globo)

janeiro 15, 2009 by admin  
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Adjetivo pouco é bobagem para descrever a atuação de Marília Pêra em “Gloriosa”.

Interpretando Florence Foster Jenkins, excêntrica figura que pontuou com seu malo canto, como nota Tânia Brandão, o cenário artístico americano na primeira metade do século passado, ela conquistou a unanimidade dos quatro críticos do GLOBO, que se derramam em elogios à atriz — diferentemente da nada talentosa soprano que tão bem interpreta —, uma das mais versáteis e com mais recursos do teatro brasileiro.

Marília é a alma em torno da qual se montou um espetáculo de produção impecável — direção, figurinos, luz e cenários, tudo arrancou dos críticos adjetivos como “excepcional”, “excelente”, “admirável”.

A sentença final é clara: “Encantador, divertido e até emocionante”, descreveu Barbara Heliodora. A atriz Ana Kutner, que estreia nesta sessão, saiu do espetáculo “com o coração leve, tocado e cheio de música”.

“Não perca”, aconselha Tânia, que o definiu como “teatro em estado puro”.

É em grande estilo, portanto, que o Teatro Fashion Mall abre as portas. As cadeiras, desconfortáveis, lembram as da classe econômica de avião, mas o bizarro universo da antissoprano Florence promove uma prazerosa viagem para o público.


Confira as Críticas:


O implausível contado com talento

Barbara Heliodora

Nem sempre as lendas tratam de princesas adormecidas; no folclore novaiorquino, uma das mais pitorescas é a de Florence Foster Jenkins, motivo de piadas e risos com o sucesso de seus recitais beneficentes. O que a tresloucada milionária pensava estar cantando e o que ela efetivamente emitia com sua voz tão potente quanto desafinada eram coisas completamente diversas, e ela destruía as mais belas e difíceis árias de ópera com um entusiasmo e um amor fenomenais.

O espetáculo que inaugura o Teatro Fashion Mall tem por base um texto de Peter Quilter, que elabora uma divertida (e dolorosa) passagem pela carreira da famosa não-cantora, com fluente tradução de Marisa Murray, adaptada para esta montagem por Claudio Botelho. Com a ação fortemente centrada na figura da milionária americana, os episódios são ligados por um narrador e contam com pequenas interferências de outros personagens. A história da cantora Florence é tão extraordinária que se torna indispensável conhecer sua personalidade a fim de se poder aceitar os fatos — e o texto faz essa apresentação compactada de forma leve e divertida, e inclui o final de modo tão inesperado e chocante quanto ele foi na vida real.

A encenação de “Gloriosa” é exemplar: a cenografia de Rogério Falcão detalha bem o clima de ilusão e sonho em que vive a cantora, sendo despojado e evocativo para os outros ambientes. Os figurinos de Kalma Murtinho são um capítulo à parte, de categoria e requinte em tudo e por tudo excepcionais, tanto em forma quanto em conteúdo significativo.

Direção confere “verdade” à história A luz de Paulo Cesar Medeiros é de alta qualidade, assim como o desenho de som de Marcelo Claret. A execução ao piano de Silas Barbosa oferece o apoio preciso e corajoso aos desmandos da cantora.

A dupla direção de Charles Möeller e Claudio Botelho é primorosa, elaborando a ação e a personalidade da protagonista de modo a dar plausibilidade cênica ao que, mesmo sendo verdadeiro, parece realmente implausível.

Eduardo Galvão interpreta com segurança o pianista que, do horror inicial, chega à afeição e compreensão do caos musical que é sua empregadora.

Guida Vianna se sai bem na empregada mexicana, porém soa um tanto falsa tanto como a amiga quanto como a indignada espectadora.

Tudo isso, no entanto, é apenas o que cerca a magistral atuação de Marilia Pêra, que transmite a infantil e imbatível alegria dessa perturbada Florence, absolutamente convencida de que é melhor que GalliCurci, admirada por Cole Porter e que rivaliza com Frank Sinatra em popularidade. Para uma cantora tão afinada quanto Marília não é fácil executar os delirantes desafinos de sua personagem, e é realmente um prazer vê-la transmitir a deslumbrada ingenuidade desse estranho acidente de percurso que se chamava Florence Foster Jenkins; com Marília Pêra, podemos compreender o fascinante mistério desse episódio da vida americana, e só podemos desejar que o original tenha sido pelo menos tão atraente em suas atuações. “Gloriosa” é um semimusical encantador, divertido e até emocionante.


A encantadora arte do desastre


Tânia Brandão


Há uma atriz que encanta as platéias brasileiras, comove o público com sua destreza no canto, na representação, na intensidade de sua presença em cena. Ela é senhora de sua arte, perfeccionista.

As plateias, comovidas, retribuem a sua dedicação ao ofício com uma aclamação sincera. Por isto, é uma diversão sensacional ver um espetáculo em que a dama irresistível nos mostra outra artista, uma pessoa que existiu, e que fazia estrondoso sucesso exatamente por sua total incompetência. No lindo teatro do Fashion Mall, Marília Pêra apresenta Florence Foster Jenkins, soprano americana que decidiu dedicar a sua vida ao bel canto, ainda que fosse incapaz de emitir uma só nota afinada, um só ritmo correto. Não há dúvida: o espetáculo é histórico.

A montagem é uma adaptação de Claudio Botelho do texto inglês de Peter Quilter, tradução de Marisa Murray.

Não há de saída qualquer sinal de empatia, solidariedade ou compaixão com a musa do malo canto, mas sim bastante impiedade, afinal um modo britânico de olhar alguém que decidiu impor a própria nulidade aos contemporâneos. A direção de Charles Möeller é desenhada a partir desta chave, sob certo tom de distanciamento; narração e teatralidade são as linhas mestras da encenação. A escolha torna o espetáculo hilário já na primeira cena, pois Marília Pêra joga em cena, com requintes, o desencontro entre a musa e a arte. Há um cálculo divertido e bem desenhado do teatro como jogo, efeito de cena, sustentado também pelo galã cínico charmoso, de Eduardo Galvão. Na pele do pianista Cosme McMoon, ele é um acompanhante a princípio de aluguel e logo solidário, e eficiente narrador da trama.

Guida Vianna, notável como a empregada mal-humorada O impacto da cena é completado pela irreverente Guida Vianna, notável na empregada mal-humorada e irascível, indicador eficiente da cegueira de Florence diante do mundo. Logo a ação oscila a favor da busca de alguma humanidade para a dama desastrosa, um pouco para viabilizar o final, um golpe de teatro: Marília Pêra nos brinda com todo o esplendor de sua voz e de sua mágica presença em cena, na “Ave Maria”, de Bach e Gounod.

Guida Vianna tem ainda uma atuação muito divertida na caricatural professora Verindah Gedge, cuja função é a de ajudar a expor a fraqueza da cantora; na amiga Dorothy, mais séria, o resultado não é tão forte.

A montagem é preciosa, excelente programa de teatro. A direção musical de Claudio Botelho é precisa e segura. Os figurinos de Kalma Murtinho são inesquecíveis: preciosos, elegantes, humorados, belos, registram a época da ação e o exuberante perfil de Florence.

A luz de Paulo Cesar Medeiros é uma partitura de intenções e sutilezas. Os cenários de Rogério Falcão, teatrais no pleno sentido do termo, apostam na idéia de retrato da alma ao conjugar espaços objetivos e visão de mundo. Para a plateia de teatro, é um presente dos deuses — um palco novo, Marília Pêra, elenco de primeira e teatro em estado puro.

Não perca.


O fino desafino de uma intérprete

Ana Kutner

Para uma atriz, é um privilégio assistir a Marilia Pêra.

Desta vez, no espetáculo “Gloriosa”, interpretando Florence Foster Jenkins, uma cantora que só iniciou sua carreira após herdar do pai uma herança milionária nos anos 1940 e se consagrou não por cantar bem, mas por cantar muito mal.

Charles Möeller e Claudio Botelho fazem com que os momentos musicais não se sobreponham à encenação, trazendoos para mais perto do diálogo, explicitando assim como a música e o canto eram realmente vitais para Florence. O mais interessante desta montagem é que a direção de Charles Möeller, além de desenvolver tão bem uma rica história verídica, usa o artifício de pôr em cena a atriz que interpreta Florence cantando perfeitamente, como se fosse a hipotética maneira com que ela se escutava ao cantar. O que só é possível de ser executado por uma atriz cante. E muito bem.

Marília Pêra é puro e admirável virtuosismo técnico. A questão não é cantar desafinada, o que impressiona é que ela canta certo, mantendo a extensão da nota como escrito na partitura, só que desafinando esta nota! É emocionante vê-la ampliando os próprios limites como atriz e fazendo com que nós, na platéia, embarquemos com ela como se houvesse uma única trajetória. E com a mesma condução, ela muda o vetor para uma nova possibilidade totalmente inédita e tão rica quanto a anterior, na qual o humor e a emoção transitam sem pudores e com alvos certeiros.

Cumplicidade de duas atrizes em cena Guida Viana interpreta três personagens: Maria, a hilária empregada mexicana de Florence; Dorothy, amiga da cantora; e a Sra Verindah, professora de piano que age com crueldade com Florence quando a acusa de falta de talento.

É um prato cheio para ela, que constrói corporalmente, de maneira sutil e bem-humorada cada um. Guida abusa do humor e cria com Marília Pêra uma cumplicidade deliciosa.

Eduardo Galvão interpreta Cosme McMoon, o pianista que acompanhou Florence por dez anos, e usa inicialmente uma construção crítica e debochada em relação ao universo de Florence, triangulando a sua comunicação com a plateia e fazendo com que nos identifiquemos imediatamente com ele. É a ponte necessária para entrarmos neste universo tão singular, para fazermos juntos a transformação inevitável de nos reconhecermos, como ele, totalmente envolvidos com a verdade e a coragem com que Florence viveu.

Excelentes a delicada luz de Paulo Cesar Medeiros, o impecável cenário de Rogério Falcão e os figurinos de Kalma Murtinho, que se adequam aos gestos e movimentos de Marília/Florence.

Um espetáculo que nos faz deixar o Teatro com o coração leve, tocado e cheio de música.


Uma atriz no auge da sutileza

Jefferson Lessa

Claudio Botelho e Charles Möeller poderia levar o espectador incauto a pensar que “Gloriosa” é um musical. Não é.

É uma comédia dramática que conta uma passagem da vida de Florence Foster Jenkins (18681944), abilolada milionária americana que acreditava (ou fingia acreditar, há controvérsias…) ser uma das maiores cantoras líricas de seu tempo. Ou seja, trata-se de um antimusical em que a estrela Marília Pêra precisa desafinar feio para apresentar um espetáculo lindo.

Lindo e quase perfeito. A começar pelo texto do inglês Peter Quilter, apresentado pela primeira vez em agosto de 2005 em Londres. A tradução de Marisa Murray é tão fluida e “arredondada” que nos leva a crer que estamos assistindo a uma peça escrita originalmente em português, mas sem que nos esqueçamos, por um mísero minuto, de que estamos imersos no universo anglo-saxão.

O deslumbramento passa pelos figurinos de Kalma Murtinho: “maluquinhos” para Florence (ela seguia usando os vaporosos trajes da década de 1920, independentemente da moda vigente), caricatos para a criada mexicana e para a professora de música (Guida Vianna, engraçadíssima, ainda interpreta uma amiga de Florence) e sóbrios para o pianista (Eduardo Galvão, que maneja com delicadeza e graça a passagem do deboche original por sua patroa a uma verdadeira e tocante afeição pela velha senhora).

Do riso solto à torcida aberta por Florence Tudo isso se combina aos cenários eficientes, elegantes e evocativos de uma época a cargo de Rogério Falcão, ao design de luz de Paulo Cesar Medeiros, que pontua passagens sem jamais se impor ao espetáculo. E é assim que se chega à quase perfeição de “Gloriosa”.

Cenários, coadjuvantes afiados, iluminação admirável, tradução e figurinos servem como uma moldura de alto luxo para a estrela. Marília Pêra está no auge da sutileza. Uma personagem como Florence seria um prato cheio para o deboche puro e simples, para o exagero cômico, para a caricatura. Nada disso. Com sua visão fina de sempre, Marília nos dá uma lição de humanidade. Em pouco tempo, o espectador passa do riso solto à torcida aberta por aquela mulher mimada, infantilizada e ridícula. Pare e pense: quantas atrizes seriam capazes de criar tanta empatia? Marília, a diva que Florence acreditava ser, desnuda a senhora Jenkins que existe em cada um de nós.

Só nos resta torcer por ela.

Depois da apresentação de domingo passado, Marília Pêra comentou que havia adorado a plateia daquela noite. Que o público havia se comportado como os espectadores de Florence, vaiando seus opositores e aplaudindo em cena aberta a destruição de árias como a da Rainha da Noite, de Mozart. A atriz também disse que isso era bom para o espetáculo e para ela. Estamos todos de parabéns.


Fonte: O Globo – 15/01/09.


Gloriosa: Marília exercita seu virtuosismo

janeiro 14, 2009 by admin  
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Marília exercita seu virtuosismo


Atriz domina com segurança as possibilidades da voz ao interpretar cantora sem talento


Macksen Luiz – Jornal do Brasil – 14/01/09

A história real de Florence Foster Jenkins tem a peculiaridade de demonstrar como a excentricidade de uma milionária, que se supunha cantora e fazia bizarras apresentações, a expunha ao ridículo de sua própria veleidade. Como presidente de associações femininas e com o dinheiro que dispunha, comprava não só a platéia, mas também as amenidades que oferecia ao público (a garrafa de jerez com seu rosto estampado era de praxe) e toda a produção do espetáculo. É desta personagem curiosa de que trata a comédia musical de Peter Quilter, que inaugura o confortável Teatro do Fashion Mall. A desastrada voz de Florence, que assassinava qualquer repertório e era acompanhada por figurinos e gesticulação tão dissonantes quanto a sua pretensão, se transformaria em objeto de culto numa Nova York vivendo os ecos da Segunda Guerra Mundial.


Os figurinos de Kalma Murtinho são valorizados pelo teatralismo dos efeitos

O ápice e o final da carreira nada ortodoxa da cantora viriam com o convite que recebeu para um recital no templo do Carnegie Hall, onde mais uma vez se empresariou, recebeu as chacotas de sempre e os aplausos dos curtidores fiéis, na celebração definitiva de sua inquebrantável incompetência vocal.

O modo como Florence criou um universo paralelo para abrigar a sua ensombrada consciência da falta de talento é visto pelo autor como apenas um detalhe em meio aos flagrantes de sua obsessão por cantar. O pianista que a seguiu até a morte é o narrador e, ao mesmo tempo, quem repõe a realidade em contraponto aos delírios vocacionais de Florence. Mas o que se acentua no texto é o comportamento da personagem visto em seu aspecto mais externo, naquilo que alguém com tais atitudes seria capaz de demonstrar. Ainda que o desenho tenha traços sublinhados pelo esboço, o autor, pelo menos, não tentou especular sobre as razões para tais comportamentos ou atribuir explicações. Apenas expõe uma história verídica.

A dupla Charles Möeller e Claudio Botelho se identifica com o mundo do musical estabelecendo com a montagem aproximação com a época e o clima do show business nova-iorquino, já que não há muito mais a extrair desta comédia do que sua escrita propõe. Com seus diálogos articulados com o humor, exigência de uma atriz de forte presença e instrumentos técnicos afiados, especialmente vocais, e com clima entre o nostálgico e o efusivo, o espetáculo corre macio sobre esses trilhos. Os diretores utilizaram bem os elementos de que dispunham e fazem com que a montagem evolua sem maiores percalços, superando as dificuldades de mudanças de cenários com projeções e trilha saborosa.

O cenário de Rogério Falcão com estrutura que possibilita variações de ambientes não tem a agilidade que possa acelerar as necessárias modificações. Os figurinos de Kalma Murtinho se valorizam, não só pela sua exuberância e detalhismo de confecção, como pelo teatralismo dos efeitos. A luz de Paulo César Medeiros confere um ar de espetacularidade à cena.

Eduardo Galvão, como o pianista Cosme McMoon, demonstra elegância e discrição que se ajustam ao papel do narrador. Guida Viana, em três personagens, tira o melhor partido de cada um delas. Seja como a empregada mexicana, com seu sotaque e língua destravada, como a amiga de Florence ou como a amante de música indignada com o fiasco da “diva”, a atriz é sempre divertida.


Ave Maria irretocável

Marília Pêra exercita, uma vez mais, a extensão de seu virtuosismo como intérprete. Adotando uma linha de comédia, que remete à tradição dos atores populares, depurando com meios sofisticados o humor mais sutil, dominando com segurança as possibilidades da voz, e atuando com a vitalidade da sua maturidade de atriz, Marília Pêra oferece um grande prazer de assisti-la. Quando Florence volta ao palco para finalmente soltar a voz aprisionada dentro de si, Marília Pêra excede no golpe de teatro que este finale representa, com interpretação límpida e irretocável de Ave Maria, de Bach/Gounod.

Gloriosa: Marília Pêra acerta no erro de Jenkins

janeiro 13, 2009 by admin  
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Gloriosa: Marília Pêra acerta no erro de Jenkins

Versátil atriz vocacionada para o canto, Marília Pêra já encarnou intérpretes de universos musicais díspares como Carmen Miranda (1909 – 1955), Dalva de Oliveira (1917 – 1972) e Maria Callas (1923 – 1977). Contudo, para entrar na pele de Florence Foster Jenkins (1868 – 1944), a cantora lírica retratada no musical Gloriosa, a atriz teve que desaprender a arte do canto para ter credibilidade no papel da lendária Jenkins, pianista que, por impossibilidade de tocar seu instrumento devido a um acidente, resolve se lançar na carreira de cantora lírica sem ter o menor talento para o ofício. É nesse persistente erro de Jenkins que Marília Pêra acerta mais uma vez e brilha ao protagonizar essa comédia musical que estreou na Inglaterra em agosto de 2005 e chegou ao Rio de Janeiro na sexta-feira, 9 de janeiro de 2009, após breves temporadas de ajustes em cidades como Niterói (RJ) e Santos (SP).

Espetáculo de Charles Möeller e Claudio Botelho, Gloriosa não é propriamente um musical como tantos assinados pela dupla. É, a rigor, uma comédia em que a música assume papel central por conta da devoção cega de Jenkins ao canto lírico. Por errar praticamente todas as notas das árias a que se propunha a cantar, a milionária nascida na Pensilvânia se tornou alvo de piada e de deboche. No entanto, talvez por uma questão de humanidade, fãs ilustres como Cole Porter (1891 – 1964) também iam aos recitais armados pela pretensa cantora nos saguões de hotéis luxuosos. Em suas apresentações, Jenkins contava com o acompanhamento do pianista Cosme McMoon, interpretado com competência por Eduardo Galvão. De início interessado nas vantagens financeiras propostas pela cantora, McMoon aos poucos se deixa seduzir pela personalidade carismática de Jenkins, que chegou a lotar o Carnegie Hall (NY, EUA) em 1944 num recital de críticas tão negativas que, além de destruir a ilusão de Jenkins, a levaram a um enfarte que provocaria a sua morte, algumas semanas depois.

Com sua notável habilidade, Marília deixa aos poucos o espectador entrever as fragilidades e carências de Jenkins. E dá show de profissionalismo nos números musicais – como Mein Herr Marquis (Ária da Risada de Adele) e A Rainha da Noite (da ópera A Flauta Mágica, de Mozart) – em que precisa desafinar e errar o que ela, Marília, sabe fazer certo pelo dom natural e pela disciplina com que vem aprimorando esse dom ao longo de uma carreira… gloriosa. Talento ratificado no pungente número final, Ave Maria (Bach e Gounod), quando, numa licença dramatúrgica, o texto faz com que o espectador ouça Jenkins com a afinação e o brilho que (supostamente) a desastrada cantora lírica sempre pensou ter (ou fingiu pensar ter…). Impossível não se emocionar.

Com figurinos deslumbrantes de Kalma Murtinho (e as roupas excêntricas de Jenkins eram um show à parte em seus recitais) e intervenções comunicativas de Guida Vianna (em especial na pele da empregada mexicana que não se entende com sua patroa), Gloriosa tem o fino acabamento da dupla Möeller & Botelho e, acima de tudo, é o veículo para Marília Pêra atestar mais uma vez o talento ímpar que a coloca entre as melhores atrizes do mundo.

Por Mauro Ferreira – Blog Notas Musicais – 13/01/09.