Jornal O Globo celebra 80 anos de Stephen Sondheim, com texto de Claudio Botelho

março 22nd, 2010 4 Comentários


On  Broadway, aos 80

Stephen Sondheim aniversaria hoje reconhecido como divisor na História dos musicais

João Máximo

Stephen Sondheim chega aos 80 anos mais compreendido, mais admirado, mais famoso e mais rico do que prometia seu começo de carreira na década de 1960. Como se muito tempo fosse necessário para que os fãs do teatro musical lhe percebessem o gênio. Os críticos o descobriram primeiro. Mesmo quando o público torcia o nariz para suas canções “difíceis”, e não respondia nas bilheterias aos apelos de seus shows, não foram poucos os críticos que perceberam que a Broadway jamais seria a mesma — e provavelmente se tornaria mais inteligente — depois de sua chegada.

Sondheim chora durante tributo

O aniversário é hoje, 22 de março, mas o concerto oficial aconteceu semana passada, no Avery Fisher Hall, em Nova York, onde Elaine Stritch, Mandy Patinkin, Bernadette Peters, Patti LuPone, Audra MacDonald e outros intérpretes favoritos de Sondheim, mais a Filarmônica de Nova York e membros do American Ballet, realizaram um espetáculo que o “New York Times” viu como o maior de todos os incontáveis tributos que têm sido prestados ao aniversariante nas últimas três décadas. Ao fim, chamado ao palco, Sondheim chorou.

Mas seu nome continua nos letreiros de três outros teatros da Broadway, o Studio 54, com “Sondheim on Sondheim” (antologia roteirizada pelo parceiro James Lapine, com Barbara Cook e Vanessa Williams à frente do elenco); o elegante “A little night music”, no Walter Kerr; e o clássico “West Side story”, no Palace.

É fato que Sondheim não foi compreendido de pronto. O público londrino — tradicionalmente mais atento que o da Broadway — sempre reagiu melhor ao seu estilo criativo, sofisticado, de melodias acidentadas e letras cujo requinte formal não se encontra com frequência na canção popular.

A admiração só veio quando se descobriu, o público da Broadway com atraso, que Sondheim não era exatamente um compositor popular, mas um autor que, no caso, expressavase vestindo seus textos com música. O que talvez explique que, enquanto seus musicais não batem recordes de bilheteria, as antologias, a primeira delas, beneficente, em 1973, lotam teatros, um deles o Carnegie Hall, onde Sondheim já foi aplaudido de pé. Hoje, grande parte dos seus royalties, calculados em mais de US$ 1 milhão por ano, vem dessas antologias.

Desde menino, o desejo de Sondheim era ser compositor e letrista de teatro, de modo que o convite de Leonard Bernstein, em 1957, para que escrevesse as letras, apenas as letras de “West Side story”, foi recebido sem entusiasmo.

Não fosse o conselho de seu mentor Oscar Hammerstein, o jovem de 26 anos teria dito “não” ao maestro famoso. Pelo mesmo motivo, e ainda contrariado, concordou em só escrever as letras para o Jule Styne de “Gypsy”. Mas o sucesso dos dois musicais abriu as portas da Broadway para que, já na década de 60, o compositor jamais se separasse do letrista (a exceção seria em 1965, quando, morto Hammerstein, Sondheim aceitou substituí-lo como parceiro de Richard Rodgers no musical “Do I hear a waltz?”).

No Rio, para ver sua “Company”

A carreira foi difícil, marcada por altos e baixos, mas sempre trabalhada em torno do autor cuja ideia de vanguarda é experimentar sempre. Em quase 40 anos de teatro, Sondheim ensinou que tudo pode ser tratado por seu estilo que já chamaram de frio, sem emoção, cerebral, onde não há lugar para belas melodias (talvez a maior das injustiças que lhe cometeram).

Assim, é possível fazer musical sobre um barbeiro demoníaco (“Sweney Todd”), criminosos políticos (“Assassins”), velhos artistas que se reencontram num teatro a ser demolido (“Follies”), Grécia antiga (“A funny thing happened on the way to the Forum”), a pintura de um quadro (“Sunday in the park with George”), subversão de contos infantis (“Into the woods”) e canções como “Being alive”, “Losing my mind”, “Broadway baby”, “Not a day goes by”, “Send in the clowns” (a única que andou perto das paradas de sucesso) e tantas outras que, de Cole Porter e qualquer dos velhos mestres, seus antecessores assinariam.

No Brasil — onde esteve para ver a montagem carioca de “Company” —, Sondheim tem fãs, ainda que poucos, desde os tempos de “Amor, sublime amor”, a versão filmada de “West Side story”. Talvez não se tenha percebido que sua letra para “América”, mais agressiva que a escrita para o palco, fosse tão bem feita. O que chamava a atenção era a versatilidade com que escrevia tanto para gangues de rua como para jovens apaixonados, porto-riquenhos com ódio e americanos arrogantes, tudo como a música de Bernstein exigia.

Carlos Lyra, cuja música para “Era no tempo do rei”, atual cartaz do Teatro João Caetano, já se antecipa como das melhores escritas para o teatro brasileiro, está longe de ser um admirador de Sondheim. Melodista acima de tudo, Lyra reage como tantos ao “antimelodismo” de que o outro é acusado Estreia numa época de declínio da Broadway Ruy Castro acredita que Sondheim tenha escolhido a pior época para entrar em cena, a década de 1960, marcada pelo declínio da Broadway, o fim dos grandes cantores, a ditadura do rock, a infantilização do teatro musical e o embrutecimento sonoro.

— Mesmo assim, sem fazer qualquer concessão, Sondheim ultrapassou em lirismo, inteligência e beleza a época dos mestres Cole Porter, Irving Berlin, Rodgers & Hart e os irmãos Gershwin — diz Ruy Castro, para concluir que o único nome à altura de Sondheim, no mesmo período, chamou-se Antonio Carlos Jobim, cuja obra teatral resumese praticamente à experiência de “ Orfeu da Conceição” (1956), início de sua parceria com Vinicius de Moraes.

Claudio Botelho — que com Charles Möeller tem feito o teatro musical brasileiro acontecer — foi o primeiro a levar Sondheim ao público brasileiro, inclusive em português.

Em espetáculo de bolso ao lado de Cláudia Neto, com excelentes versões suas, ousou mostrar que basta um pouco de inteligência e sensibilidade para entender o artista. Depois, já com Charles, produziu, verteu e atuou em “Company” e trouxe para palcos do Rio “ Lado a lado com Sondheim” (“Side by side by Sondheim”), a antologia com que os ingleses, em 1976, antes dos americanos, provaram que aquelas canções eram de fato grandes.

Aqui como lá, é possível que o prestígio de Sondheim dependa de se saber vê-lo como um autor, um grande autor. Razão pela qual nossos autores parecem entendê-lo melhor.

Caso de Gilberto Braga: — Sondheim é a grande figura do teatro musical da segunda metade do século XX. Autor para elite, para quem tem ouvido, sofisticação. Ele procura sempre o mais difícil, está sem dúvida perto da genialidade.

Obra que fala direto ao coração

Versão brasileira para ‘Gypsy’ estreará no Rio no fim de abril

Claudio Botelho Especial para O GLOBO

Sou devoto de Stephen Sondheim. Sua música me estimula, intriga, faz pensar e, mais que tudo isso, emociona.

Há quem acuse Sondheim de ser um artista “frio”, muito técnico e vanguardista. Não vejo nada disso na obra dele. Sua música e letras falam direto ao coração.

Não é um compositor popular, pois não é um cara que senta em casa e decide compor algo para lançar num disco.

É compositor de teatro, o maior deles ainda em atividade.

Sua obra é teatro puro, é o mais longe que o teatro musical americano chegou em termos de invenção estética, criatividade, densidade, poesia. Mesmo quando suas canções estão a serviço de textos irregulares, como “Sunday in the park with George”, a música justifica o todo.

O gênio de Sondheim é tão assustadoramente grande que, após sua entrada em cena, o teatro musical americano passou a viver sob sua sombra. Hoje é assim: “antes e depois de Sondheim”. Antes havia Gershwin, Porter, Berlin, Rodgers, tantos outros, com voz própria, geniais em suas próprias searas. Mas… e depois de Sondheim? Todos tentam ser Sondheim, e, naturalmente, ninguém consegue.

Trabalho atualmente nas versões das letras que ele escreveu para o musical “Gypsy”, que estreará no Rio no fim de abril. É uma das obras mais sólidas da dramaturgia musical jamais escritas, e, mesmo que apenas como letrista, Sondheim deixa ali sua assinatura. São letras cínicas, ferinas, de um humor cortante e, sobretudo, de uma paixão avassaladora pelos personagens a que servem. Em “Gypsy”, Sondheim esbanja sua juventude como letrista genial e subverte toda e qualquer expectativa do ouvinte com rimas jamais tentadas na língua inglesa e soluções poéticas que o tornaram definitivamente o maior letrista do teatro musical americano dos últimos 50 anos.

O Globo: 22/03/10.

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4 Comentários

  1. Mariana Carrozzino disse:

    Justa homenagem do Jornal O Globo. Eu sou fanática pelo Sondheim, amo os trabalhos dele com toda a minha alma. Parabéns a ele! O gênio do teatro musical!

  2. Thirso Naval disse:

    Engraçado que o primeiro contato que tive com Sondheim foi a trilha sonora de “Dick Tracy” cantada por Madonna. Era um compositor difícil sendo interpretado pela mais pop das cantoras. Foi paixão a primeira vista.

  3. [...] deixar passar batido e vim mesmo ao menos fazer um post simbólico e comemorativo. Recomendo lerem a matéria que saiu no O Globo de hoje, que vejam as fotos do concerto que ocorreu semana passada em homenagem ao seu octagenário e o [...]

  4. Roberto Mafra disse:

    Sondheim sempre me emocionou. Tive um primeiro contato com sua obra através do “Broadway Album” de Barbra Streisand, onde ela gravou várias músicas dele.Posso quase afirmar que foi através dele que meu interesse pela lingua inglesa realmente começou…aquelas letras maravilhosas, sofisticadas,brutas e tão humanas. E o jeito que ele vai enfileirando sua vasta cultura, sem fazer concessões, respeitando a inteligência do espectador (e mesmo fazendo dele um ser mais culto). “Company” é minha trilha sonora mais constante, tem o poder de me deixar literalmente no ar.Tive o privilégio de assistir a montagem mais recente de “Sweeney Todd”, e foi uma experiência única (também me diverti muito com “Something Funny…”). Vida longa e feliz ao mestre.

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