Saltando do Alto da Montanha em Direção ao Abismo – Entrevista Eduardo Semerjian

março 17th, 2010 14 Comentários

Foto: Marcos Mesquita

A estreia de O Despertar da Primavera em São Paulo marcou também a entrada de um novo nome no elenco, que já chegou com a difícil tarefa de interpretar nove papeis diferentes e de substituir Carlos Gregório, que os dava vida na temporada carioca do musical dirigido por Charles Möeller & Claudio Botelho.

O ator Eduardo Semerjian, que nem é tão aficionado por musical assim, topou o desafio na hora e veio com força total. “Foi como saltar do alto da montanha em direção ao abismo”, disse ele, que já trabalhou com o universo de Frank Wedekind na montagem de “Lulu, A Caixa de Pandora”, em 1996.

Batizado como Eduardo Lourenço Magdaleno (Semerjian é o sobrenome de sua mãe, que o pai optou por não colocar no momento do registro, e que foi resgatado no nome artístico), ele está acostumado a jogar em diversas posições: participou de inúmeras peças, longas-metragens, teleteatros, seriados, minisséries, novelas, locuções, campanhas publicitárias, vídeos institucionais, entre outras atividades em 20 anos de carreira.

Se em janeiro de 2009, Eduardo brilhou na minissérie “Maysa – Quando Fala o Coração”, da TV Globo, interpretando o austero marido da cantora, o empresário André Matarazzo., agora está brilhando em nove papeis distintos. Sorte do público paulista que está tendo esse privilégio!

Confira a entrevista de Eduardo Semerjian ao Site Möeller & Botelho:


Eduardo, como você recebeu o convite para atuar em “O Despertar da Primavera”, ficou surpreso?

Recebi uma ligação em meio de fevereiro da Marcela Altberg, produtora de casting de O Despertar. Conheci a Marcela em outubro ou novembro do ano passado, em um teste para um seriado norte-americano para o qual ela fazia a produção de elenco. Acho que desde então, ela ficou com meu nome na “lista”, pra eventualmente me chamar. Foi até engraçado quando ela me convidou pra fazer a peça, pois minha reação foi de extrema surpresa: “Eu??? Nunca cantei na minha vida, a não ser debaixo do chuveiro!”. Mas então ela me explicou que eu faria os nove personagens mais velhos da peça, e cantaria apenas uma música, ao final do espetáculo, e em conjunto com todo o elenco. Fiquei aliviado, confesso.

É verdade que você nunca foi um entusiasta do gênero (musical)?

Pois é. Parece chocante pra quem faz um musical dizer isso, mas é verdade: não gosto de musicais. As exceções ficam por conta de duas óperas-rock dos anos 70: Tommy e Jesus Christ Superstar. Explico: a maior parte dos musicais que vêm pra cá são franquias, e nelas só é permitida a réplica da peça, em que as criações do diretor e do ator ficam tolhidas. Isso tende a deixar a peça um tanto formal, fria, apesar de sempre serem produções esteticamente belíssimas. Sou um ator e, por essa razão, um tanto tendencioso na hora de assistir um espetáculo, porque quero ver interpretações vivas, antes de mais nada. Foi aí que fui surpreendido: Charles e Claudio conseguiram na negociação dos direitos da peça, que tivessem liberdade pra fazer seu próprio espetáculo e, ao ensaiar, tive enorme liberdade pra apresentar minha visão dos personagens, o que acabou por me dar um prazer enorme também de fazê-los. Se conseguiram isso é porque também gostam de ter gente pulsando de verdade no palco. Isso me interessa, independente do gênero.

Como foi o processo de elaboração dos nove personagens?

Tive apenas 10 dias pra estudar e decorar o texto sozinho,antes dos ensaios, e apenas 12 dias pra ensaiar com todo mundo. E óbvio, fui contratado pra estar no mesmo nível de todos. Esse desafio me tomou por completo. Primeiro vi o DVD, antes de ler o texto – embora já o conhecesse de longa data – tentando não analisar nada, apenas perceber as primeiras impressões de maneira livre. Logo nessa primeira olhada tive duas certezas: uma, que queria fazer nove personagens bem diferentes um do outro e a segunda que, ao mesmo tempo, todos se assemelhavam como se fossem um único personagem, já que todos são repressores e altamente tradicionais, moralmente falando. Depois disso e de conversar com o Charles, defini que todos teriam uma mesma base – pode ver que os passos de todos em algum momento são passos marciais – com uma ou duas características diferentes, mas marcantes, pra diferenciá-los. Por último, resolvi enxergá-los com os olhos do adolescente que fui e os defini como um animal diferente cada um: o professor, com o qual começo a peça, é um tubarão, dançando entre as cadeiras da sala de aula aguardando o momento de dar o bote (este animal foi sugestão do Charles), e assim foi, até chegar ao aborteiro. Mas os outros eu não conto quais animais são. Segredo de ator  (risos). Além disso, contei com a ajuda inestimável da Juliana Zarur, assistente do Charles, que me direcionou nos ensaios de maneira maravilhosa. Devo muito a ela.

Qual dos papeis que você interpreta em O Despertar da Primavera é o mais complexo?

Não tem um mais complexo, em minha visão. Justamente por terem sido elaborados a partir de uma mesma base, eles são quase como a mesma pessoa, se você tirar os figurinos e as formas corporais e vocais. O interno de cada um é o mesmo, o foco de cada um é o mesmo. No entanto, alguns têm uma elaboração um pouco mais diferenciada, saindo do naturalismo, como o diretor da escola – Herr Knochenbruch – , e o aborteiro – Schmidt.

Como foi seu encontro com o elenco, que, na sua grande maioria, já vinha unido do Rio de Janeiro?

Sem exagero algum, eles foram a minha rede. Eu precisava saltar do alto da montanha em direção ao abismo que são esses nove personagens, e o elenco foi a minha rede, me ajudando a ter confiança de entrar de cabeça e saber que seria bem recebido e apoiado. São garotos e garotas com média de idade de 20, 21 anos, mas que tem em sua generosidade uma maturidade que muita gente não tem. Eles têm sido importantíssimos no meu processo de desenvolvimento nessa peça, além de estarem me ensinando e relembrando algumas coisas que eu havia esquecido com o tempo, após 20 anos como ator que, alias, completo este ano. Mais especialmente, agradeço demais à Debora Olivieri, que ficou ao meu lado o tempo todo, aguentando minha pouca sutileza, já que sou uma pessoa sem muito freio na língua. Ela me apoiou demais e eu sou muito grato a ela.

Como você analisa essa primeira semana do Despertar em São Paulo e a sua participação?

Não tenho um “A” pra dizer contra o que foi essa primeira semana da peça em São Paulo. Foi das experiências mais lindas que tive como ator até hoje. Um elenco afinadíssimo, uma equipe de suporte -contra-regras, camareiras, produtores, técnicos de som e luz, músicos – sensacional, e que me deu uma aula de como ser uma equipe unida em torno de um único foco. Sempre acreditei que isso era o mais importante em qualquer trabalho, mas mesmo quando tive uma companhia própria não senti isso tão forte. Aconteceu algo que foi realmente surpreendente pra mim: existe a pecha do famigerado “2º DIA”, em que tudo costuma dar errado depois da estréia. No entanto, tivemos um 1º dia lindo, um segundo dia ainda melhor, e um 3º dia fabuloso. Pena que não houve a apresentação do domingo, devido à falta de luz no teatro e na região. Quanto a mim, fiquei feliz de poder acompanhar essa evolução da peça, e espero ainda aprofundar mais os meus personagens, pra mantê-los cada vez mais vivos, e dar ao público o melhor que puder. Sou muito crítico e cobro demais de mim e dos outros, e isso, nesse caso, é uma vantagem.

Qual sua expectativa em relação à reação da plateia paulistana ao espetáculo?

O paulistano tem o hábito antigo de ir ao teatro. Sei que buscamos – também sou público paulista – sempre bons espetáculos, e que essa busca se torna cada vez mais exigente. E acho ótimo pra nós, porque sei que a peça é excelente, tem unidade, tem vida, e pode agradar aos mais céticos, inclusive. Acredito que o público paulista chegará a O Despertar ávida e rapidamente, pois a repercussão inicial tem sido ótima, e o boca a boca funciona muito aqui na cidade. Espero mesmo lotar esse teatro todo santo dia, e que nossa interação com o público paulista seja intensa, alegre, vibrante, e de extrema cumplicidade. Vale lembrar que isso gera uma responsabilidade em nós que devemos assumir sempre, comprometendo-nos cada vez mais a fazer de O Despertar da Primavera uma criação nova e verdadeira a cada dia.

Fotos: Marcos Mesquita (Divulgação), Denny Naka, Caio Gallucci

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14 Comentários

  1. Vinicius Teixeira disse:

    Muita vontade de assistir com o Edu, ainda mais depois da entrevista

  2. Leonardo disse:

    Vi ele sábado passado e devo confessar que foi uma (ou nove? =P) performace incrível. Principalmente durante Left Behind.

  3. marcia disse:

    Ah Edu, que matéria/entrevista deliciosa de ler!!!! Estou agradecida por ler isto! Beijo, Má.

  4. Tássya disse:

    O Edu é um ator fantástico, e pessoa maravilhosa. Depois do espetáculo de sábado, ele foi super atencioso, conversou comigo e com minhas amigas, e até falou sobre a construção dos personagens.
    A performance dele é imperdível. E ele demonstrou estar bem à vontade com o elenco.

  5. Bruno Didone disse:

    Boa sorte e bem vindo ao DESPERTAR DA PRIMAVERA, Edu!

  6. Thiago disse:

    Ótima entrevista! Infelizmente estava entre aqueles que haviam comprado ingresso para o domingo, porém já garanti minha presença no final de semana para prestigiar este maravilhoso ator e esta incrível peça.

  7. Mariana Carrozzino disse:

    Que entrevista maravilhosa!!! Que homem inteligente!!! Deve ser um ator brilhante. Pelo menos compartilho da opinião dele de como um ator deve agir em cena.
    Quero MUITO ir pra São Paulo só pra ver o Despertar com esse cara. A peça já era um primor, e com ele, deve ter ficado ainda mais impressionante.
    Parabéns pela matéria.

  8. João Victor disse:

    Quero muito ver o musical com ele. Só fui conhecê-lo assistindo a Maysa, no ano passado, e ele é simplesmente brilhante. =)

  9. Adorei a entrevista Edu, e agradeço o reconhecimento ao apoio dado. Desejo vida longa ao nosso despertar
    bjs e ate logo mais.
    db

  10. Diego Alberto! disse:

    Adorei a entrevista!!
    e não vejo a hora de assistir
    O “novo” Despertar!!

    Desejo vida longa ao “nosso” Despertar!![2]

  11. Bia Mello disse:

    Quero muito ir pra são paulo vê-lo. Mal posso esperar… estou contando os dias!
    Pelo pouco que conheço, ele deve ser uma pessoa incrivel e um ótimo ator!
    Parabéns!

  12. Edu Semerjian disse:

    Pessoal, agradeço muito o carinho. Não sei se vou corresponder à expectativa de voces, mas certamente vou dar o melhor que eu tenho. Venham ver a peça… Beijo pra voces.

  13. Hikari disse:

    Quero MUITO ir pra São Paulo só pra ver o Despertar com esse cara. A peça já era um primor, e com ele, deve ter ficado ainda mais impressionante.
    Parabéns pela matéria [2]

    O pouco que eu conheço do trabalho dele atrelado a impressão que eu tive dessa entrevista exaltou minha curiosidade do desempenho do musical em São Paulo. O quão estranho é dizer que eu sou admiradora desse ator sem mesmo ter assistido a ele? Acho que a sinceridade das palavras dele em cada resposta me convenceu do bom resultado que o espetaculo teve com a dedicação e disposição que ele mostra ter em seu trabalho. Vou me virar para ir a São Paulo! (:

  14. Juliana Zarur disse:

    Edu! Muito merda para vocês!!!! Foi um prazer trabalhar contigo e abraçar esse sistema corre-corre com você! Sempre confiei muito nas suas propostas e no seu trabalho!!!!
    Gente, esse cara é grandioso! Se resolve sozinho!!!Criou personagens com uma força cênica impressionantes e em pouquíssimo tempo!
    Beijo enorme e muito sucesso

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