Eu sou a sua Liza! Claudio Botelho entrevista Liza Minnelli
fevereiro 16, 2009
Categorias: Clipping, Entrevistas, Fique Ligado
Aprendi a gostar de Liza Minnelli ouvindo um LP do histórico show “Liza with a Z”, isso antes ainda de ter assistido ao filme “Cabaret”. Eu começava a me interessar por musicais, tinha uns 17 anos e, numa palavra: surtei. A voz cheia de sopros diversos, as sílabas com aquele excesso de consoantes, as palavras pronunciadas com uma propriedade e uma teatralidade que pareciam conversar com a gente mesmo — toda aquela torrente de sentimentos vindos de uma só intérprete me converteu e me tornou um fã apaixonado.
Tudo em Liza é pessoal, ela transforma cada canção em declaração de afeto, desafeto muitas vezes, e há sempre rondando uma espécie de renúncia ao mundo real com um eterno convite para que a gente largue tudo e vá para o cabaré.
É isso, Liza convida… Eu aceito, claro! Quando O GLOBO me convidou para bater esse papo com Liza pelo telefone, a propósito do show que ela vai apresentar por aqui — dia 24 de março, Liza fecha no Vivo Rio uma turnê que passará também por Porto Alegre, São Paulo e Brasília —, fiquei tenso e excitado.
O que perguntar? Falar de Kander & Ebb, os compositores que praticamente a batizaram no teatro e em toda lar da mãe, Judy Garland, que é a maior performer do século passado? Falar de drogas, álcool, recuperação? Mas pode se falar disso, deve-se falar disso? Fiz uma lista de perguntas sobre o que achei ser interessante conversar. Gentil e extremamente doce ao telefone, Liza escapou de algumas, devolvendo-me a bola. Seu entusiasmo ao falar de alguns temas é substituído por monossílabos quando parece não gostar do assunto.
Mas quem conversou comigo foi uma Liza Minnelli de voz inteira, alegre, superenvolvente e, mais que isso, sedutora.
O convite para que eu largasse tudo e fosse para o cabaré estava no ar o tempo todo. Mas foi isso mesmo ou foi minha cabeça de fã de carteirinha que, no íntimo, queria ser convidado?
Claudio Botelho especial para O Globo
- O show que você está trazendo ao Brasil é o mesmo que você apresentou recentemente no Palace, em Nova York, ou há mudanças?
Liza Minnelli: Fizemos mudanças. O show que fiz em 2007 no Brasil era exatamente o que apresentei no Palace. Este é diferente.
- Você está vindo com dançarinos e vocalistas?
Sou apenas eu, querido. Com meu grupo de 12 músicos.
- Sua volta ao Palace foi um grande sucesso, com ótimas críticas na imprensa. Qual a diferença entre a Liza de hoje e a de dez anos atrás, quando, também no Palace, você apresentou um tributo à carreira de seu pai, Vincent Minnelli? Há alguma mudança substancial entre essas duas Lizas?
Sim, eu estou melhor! E também, quando fiz o show sobre meu pai, eu estava me recuperando. Tive que reaprender a andar e a falar.
- Fui àquele show, “Minnelli on Minnelli”, há dez anos, e realmente gostei muito dele.
O que posso falar sobre o atual show, e você vai entender, por ser quem é, é que ele trata de tudo sobre o entretenimento. Hoje em dia, as pessoas sobem no palco rodeadas de todos aqueles efeitos: fumaça, luzes, fogo… Enquanto tudo o que tenho é o microfone, a banda e os refletores.
- E, claro, seu grande talento…
Bem, isso é o que terei que provar.
- Este show também é um tributo à sua madrinha, Kay Thompson, personagem muito importante nos bastidores dos musicais de Hollywood, ela também atuou e, em “Funny face”, faz um número sensacional com Fred Astaire na canção “Clap your hands”. Kay também teve uma influência forte no seu estilo de cantar e atuar. Você pode falar mais um pouco sobre o que ela lhe ensinou? Eram questões técnicas, sobre o fraseado, a musicalidade, ou era uma abordagem mais emocional, dramática para uma canção?
Em primeiro lugar, ela era a minha madrinha, a pessoa que minha mãe e meu pai escolheram para cuidar de mim se alguma coisa acontecesse a eles. Através dos anos, o que ela me ensinou foi ter confiança em mim. Mas, Deus, ela fez isso da forma mais inusitada. Não saberia como explicar. Mais perguntas, por favor!
- Mas ela te ensinou como cantar? Digo, como respirar, esse tipo de coisa, técnicas para a voz, exercícios ou foi algo mais amigável?
Em primeiro lugar, eu nunca me senti realmente apta para cantar. Ainda hoje, eu não me sinto uma boa cantora.
- Eu discordo.
Mas o que ela me ensinou, sendo também minha madrinha, foi: “Por que eu irei cantar essas palavras? Por quê? Por quê?”. Isso faz sentido para você? A pergunta é sempre uma: “Por quê?”. E não “Como irei cantar?”.
- Nos últimos anos, a história de sua família tem sido explorada em shows, peças e livros. Assisti a um show off Broadway chamado “A property known as Garland” sobre a carreira de sua mãe. Você viu esse espetáculo?
Imagine, é a sua mãe. E de repente alguém diz: “Há um show com o nome ‘Uma propriedade conhecida como Garland’”. Como você se sentiria? Mas, na verdade, eu nem soube desse show.
- Houve também uma minissérie baseada no livro “Me and my shadows”, de sua irmã, Lorna; o musical “The boy from Oz”, no qual você e sua mãe são personagens importantes. Você assistiu e gostou desses espetáculos?
E como você se sentiria? Mas tudo bem. As pessoas fazem o que têm que fazer. Se acham que podem ganhar dinheiro com isso…
- A morte do letrista Fred Ebb, que foi seu diretor, seu amigo, seu mentor, deve ter sido muito triste, transformando você numa espécie de criança órfã artisticamente. Que tipo de arte morre com a morte de Fred Ebb?
Penso que o ponto é: poder transmitir tudo. Se você conhece algo e morre com isso, quem se importa? Mas, se você consegue transmitir seu conhecimento para outros, então vai contribuir para alguma coisa. Isso é importante.
- Quem dirige o show atual?
Ron Lewis, que conheceu Fred Ebb, com quem trabalhou desde 1970. Por quatro anos quis trabalhar com Ron.
- Os filmes musicais parecem estar vivendo um renascimento, desde “Chicago”, de Rob Marshall. Você gosta da ideia de voltar a atuar num musical do cinema ou não se vê mais nessa indústria?
O que você pensa?
- Eu adoraria ver você novamente nas telas.
Aí está a resposta.
- E em relação à Broadway? A sua carreira começou num palco, você viveu grandes papéis em montagens como “The ring”, “The act”, “Chicago” e, mais recentemente, em “Victor/Victoria”. Você ainda se sente atraída em viver um personagem num espetáculo teatral ou prefere o formato de concerto?
Num concerto, você pode fazer tudo isso. Se você é uma boa atriz, pode fazer trechos de shows da Broadway. Mas não quero fazer o mesmo papel toda a noite. Prefiro poder fazer diferentes personagens numa mesma noite.
- Em 2007, você se apresentou no Rio, comentou sobre sua forte conexão com a cidade e até cantou uma música brasileira em português. Podemos aguardar algo similar desta vez?
Eu não sei, querido, não sei o que posso esperar de mim! Tudo o que sei é que amo a música brasileira mais do que qualquer coisa. Ela me faz pensar e também é sexy. Eu já fui casada, mas nunca mais pretendo me casar, mas a música é sexy.
- Obrigado, Miss Minnelli.
Não, não me chame Miss Minnelli.
- Posso chamá-la de Liza?
Eu sou Liza! Eu sou a sua Liza. E, baby, tudo que você me perguntou é muito pessoal. Então, posso estar errada, mas acho que posso confiar em você. Isso iremos descobrir.
Fonte: O Globo – 16/02/09



admin em qua, 20 mai 2009 3:36 pm
Enviado por Fernando (de Belo Horizonte-MG…e Araguari-MG) em 17/4/2009:
Cláudio, Como alguém aí já falou: foi a entrevista, a intimidade das perguntas, o conhecimento especificado da vida pessoal e artística dela, e, principalmente, o amor, sincero, pela carreira e pelo traço fantástico da Liza, que tornaram essa entrevista fantástica, e um raro momento de franca intimidade…entre dois grandes ! Emocionante !!! Parabéns !!!
Enviado por Gabriela Giffoni em 25/2/2009:
Nossa, é muito bom ver uma estrela (que já passou por maus pedaços e que acabou caindo no esquecimento do grande público)ser até hoje muito admirada por cinéfilos, amantes do teatro e amantes da música (e apaixonados pelo conjunto desses 3 tipos de arte). Que a Liza faça muito sucesso nessa passagem pelo Brasil!! Mas, o melhor da entrevista foi a simplicidade e a energia que ela transmite. Além das perguntas que foram muito bem feitas, diferentes das perguntas clichês que vemos por aí. Parabéns! PS: “A property known as Garland”? Que absurdo!
Enviado por Alexandre Pires em 17/2/2009:
Ela foi a “sua” Liza e você foi o “seu” Claudio. Incrível!
Enviado por Ronald Assumpcao em 16/2/2009:
Claudio querido, Fiquei emocionado… a simplicidade que conheco tao bem numa entrevista linda. Obrigado. Aqui do México mando um beijo, e quem sabe um dia voce (e o Charles, claro), aceitam um convite e vem passar uns dias comigo por aqui. Touché! Bravo! Beijao, Ronald
Enviado por Leandro Giglio em 16/2/2009:
Altíssimo nível das perguntas, Cláudio! Parabéns!!! Nos vemos no show do dia 24 rsrsrsrsrs
Enviado por Jorge Nascimento em 16/2/2009:
“Eu sou Liza! Eu sou a sua Liza”… Arrasou!!! Ela deve ter ficado surpresa com o alto nível das perguntas. O Globo acertou. Melhor chamar o Cláudio para entrevistá-la do que um repórter novinho que nem sabe quem é Liza ou quem foi Judy. Cultura, conhecimento e feeling não se aprendem na escola. Parabéns, Cláudio!
Enviado por Cássio Pandolfi em 16/2/2009:
E esse é o NOSSO Claudio!