Direto de Nova York, Charles Möeller & Claudio Botelho analisam os principais espetáculos em cartaz na Broadway no momento
Daniel Craig e Hugh Jackman em encontro histórico na Broadway
“A Steady Rain” é um caso raro, talvez único na história da Broadway, de dois dos astros de maior poder e ascensão do cinema, ambos na lista dos 10 mais poderosos da indústria cinematográfica e na Forbes, dos que mais rendem bilheteria da história e ambos na lista dos 10 mais sexys do mundo, sendo Hugh o primeiro colocado, se juntarem numa produção tão pequena e obscura na Broadway!
É claro que isso causou um enorme furor e os ingressos se esgotaram em segundos! Está sold out a temporada toda e ingressos prêmios estavam sendo vendidos na bagatela de 600 dólares no balcão e já se esgotaram!
“A Steady Rain” é realmente uma chuva constante de fofocas, comentários, gritinhos histéricos e não é pra menos! As criticas principais são todas positivas ao espetáculo e reverentes ao encontro.
Me parece ser o que está salvando a Broadway da crise: As estrelas nessa temporada estão por lá e algumas até no off, como Cate Blanchet.
A peça conta a história de dois policiais de Chicago amigos de infância que se vêem envolvidos numa rocambolesca história de prostituição, assassinatos, seqüestro, vinganças, traições e ate canibalismo! Acho que a peça se passa em uma ou duas noites, mas são anos de amizade que vêm à tona!
Sem dúvida é uma experiência única ver Daniel Craig e Hugh Jackman juntos. Sou fã de ambos muito antes do Wolverine e do 007 os tornarem ícones de ação. Comprei meus ingressos assim que a bilheteria abriu, pois imaginava que seria uma loucura. Só não imaginava que eles escolheriam ou se motivariam por algo tão sem proteção, pois a simplicidade da produção e direção chega a ser assustadora em se tratando de um espetáculo da Broadway e não um off ou off off!
Gostaria de ler a peça e falar com calma disso, mas sem dúvida a presença deles eleva o material deste drama de policial, fugindo do maniqueísmo do bom e o mau. Eles realmente são atores espetaculares e vê-los em cena é uma chuva constante de sensações!
A peça é um veículo ideal para estrelas do calibre deles brilharem e darem seus shows particulares! A grande sacada do texto apesar de extremamente elaborado e cheio de viravoltas, é que eles quase nunca contracenam. Eles na verdade parecem que estão prestando depoimentos pra nós, numa delegacia escura e cinza com aquela famosa lâmpada de panela de interrogatório. Percebemos que estão na mesma sala, no mesmo interrogatório, ambos ouvindo o que o outro tem a relatar e muito embora não concordem, também não discordam a ponto de dialogar. Complementam-se! Isso permite que ambos tenham momentos impecáveis.
A peça é narrada na primeira pessoa como uma confissão, num jogo constante de ‘eu fiz isto, ele fez aquilo’. Ambos compactuam conosco o tempo todo, nos tornando um terceiro personagem, talvez o terceiro policial encarregado de escutar seus depoimentos, ou um companheiro de cela, ou um padre, ou Deus, enfim…
Os personagens se apresentam pra nós separadamente, tecendo linhas que só ocasionalmente se sobrepõe, e quando isso acontece, muitas vezes nos vêm aquele gostinho de ‘quero mais’ - a sensação de ter aquela grande cena um pro outro acontecerá!
Mas a direção é má com o público e bem esperta, nos obrigando a continuar com ambos separadamente em seus depoimentos. Aos poucos vamos juntando um enorme quebra-cabeça de uma noite de horror na vida de dois amigos de infância, parceiros erradamente complementares.
O público é convidado a escolher a versão da mesma história contada por dois policiais com comportamento ético bem distinto . Vemos de cara que Jackman é o policial corrupto e violento e Daniel o policial do bem e solitário. Mas isso é só o começo. Você acredita, é obrigado de cara a escolher uma versão dos fatos, mas depois você muda de idéia e depois muda de novo! Esse é o elemento interessante desse jogo, pois a ação já aconteceu, o crime já foi feito… tudo é no passado. O destino é imutável e trágico e com um golpe final de tirar o fôlego!
Eles não mudam ou passam a ser maus ou bons. Nós é que mudamos de ótica na medida em que a historia é contada! O ponto de partida é que esses homens viveram suas vidas entrelaçadas até o momento que a peça começa. Saberemos que algo aconteceu que mudou o mudará aquela situação pra sempre! A forma usada pelo autor é fascinante, pois quando um acaba de falar, o outro continua enchendo de detalhes e opiniões, completando um enorme quebra-cabeça sobre uma noite de erros e incidentes envolvendo uma prostituta, gangue de latinos, seqüestro de um adolescente vietnamita canibalizado , drogas, traições e família mostrando como a amizade deles é desafiada o tempo inteiro e ao mesmo tempo em que é destruída, é imediatamente restaurada por um laço indissolúvel de tempo!
Jackman e Craig deitam e rolam nesta folha em branco
A solidez da amizade deles é surpreendente, pois apesar de ambos errarem o tempo todo um com outro, não pinta o memento “DR” – eles simplesmente vão adiante. O que é quebrado se conserta. Afinal é uma peça de tough guys e sujeitos durões não sabem e nem são hábeis para revelar os sentimentos mais profundos de um para com o outro!
Joey e Denny nos falam tudo o que fazem, mas nunca param pra explicar por que exatamente. Só justificam suas ações.
É um show de interpretações! Personagens dialéticas! E Jackman e Craig deitam e rolam nesta folha em branco, rabiscando seus personagens com exatidão e tanta inteligência que não escolhemos lados, nem mocinhos nem bandidos, muito menos entramos em julgamento.
Tudo que construímos no principio pra um desfazemos depois e assim continua até o final surpreendente! Fica difícil ser mais explicito ao falar da peça e estragar a surpresa desse jogo.
Hugh Jackman traz a Denny uma exasperação indignada. Apesar de ser um policial corrupto e racista, fica incrédulo por estar sendo castigado pela falta de lógica no sistema policial. Ele tem o personagem mais trágico na mão, o que traz mau agouro e desencadeia todos os conflitos e é castigado por isso. Colocando tudo que o rodeia em risco e em questão, sua família, filhos, amizades e até o código de honra entre os policias.
Craig dá um show como o correto Joey uma espécie de sombra de Denny: menos impulsivo, mais racional e lógico, mas que precisa do todo o desafino de Denny pra viver! Como a mariposa e a lâmpada. Denny é o que leva a ação e Joey fica atrás limpando tudo, e tentando consertar as coisas. Apesar de criticar o comportamento vulcânico do parceiro, ao mesmo tempo existe uma admiração e quase uma idolatria pelo amigo irmão destemido e de caráter duvidoso.
Joey vive a vida de Denny, pois não tem brilho próprio, mas à medida que a peça avança, ele vai se apropriando da vida de Danny, e se fundindo com a dele, se tornando um homem mais confiante e destemido. Denny, ao contrário, vai se fragilizando e é aí que vemos os dois lados da mesma moeda. Eles desenham seus personagens com um transbordamento de humanidade e uma ausência de truques impressionantes. Adoro atores assim, sem maneirismos e isso impede que nós, plateia, tenhamos um julgamento do comportamento dele no final da peça, pois friamente suas atitudes são altamente dúbias e questionáveis, mas a humanidade deles, faz com que sejamos apenas testemunhas e não juízes!
O destaque é a inteligência dos intérpretes
Jackman e Craig sabem tudo e sua simbiose é de tirar o fôlego. Criam uma enorme tensão e não escutamos nem uma mosca no teatro! Às vezes ficamos suspensos numa atmosfera de suspense e quase terror e começamos a nos sentir cúmplices daquela noite de horrores.
A química entre eles é absoluta e realmente acreditamos que Denny e Joey são amigos de infância e têm uma vida de lembranças em comum. Eles criam personagens como recipientes vazios que só eles mesmos e suas lembranças podem encher com uma historia cheia de erros, cheia de mentiras e de julgamento amorais, e que só pertence a eles mesmos, pois sãos os triunfos e tragédias de uma enorme convivência numa chuva incessante (a metáfora da peça) sobre dois destinos trágicos e errantes.
Meu destaque vai total para a inteligência dos intérpretes, pois assim como Craig constrói o bom Joey com uma pitada de inveja e um q de loser de personalidade dúbia, Jackman satura o mau Denny com um humor agradável e charme incrível. Nos vemos torcendo por eles mesmo errando e quando o caráter desaparece por completo e eles agem com desconcertante violência e amoralidade.
Estas escolhas são de grandes intérpretes, escolhas profundas de olhar para os personagens com sutileza e indo contra expectativas a uma plateia ávida pra ver invencíveis feitos heróicos de Wolverine e Double Zero! Encontramos dois homens comuns propositadamente desglamurizados numa caixa teatral cinza com uma luz precisa discreta e uma cenografia sutil revelada só em cenas de alta tensão – atores simples a serviço de uma peça.
Ao acabar a peça pudemos ver os personagens indo embora e aparecerem os astros que sabem o poder que têm e usam isso a seu favor: leiloam suas camisetas suadas de baixo pra arrecadar fundos pra AIDS! Eles arremataram em minutos 13 mil dólares na sessão que eu fui. Um amigo tinha ido na matinê e eles arrecadaram 14 mil dólares pelas duas peças suadas… enquanto os outros teatros faturam cento e poucos dólares com os famosos baldinhos na com elenco esmolando na saída.
Já anunciaram o fim da temporada e a renda daquela noite será paras vitimas da AIDS, famílias que perderam tudo nos Katrinas e nas enchentes, mulheres espancadas e crianças violentadas, enfim os astros são quase uma Madonna com Eike!
As malíssimas línguas da malíssima classe andam dizendo que eles têm um tórrido romance, e escolheram uma peça pequena na Broadway pra ficarem mais perto e pararem suas agendas atribuladas por completo pra estarem juntos. Isso realmente não interessa em nada e se é verdade ou mentira o que importa é que estão em cartaz pois são tão bons atores que merecem sempre estarem no palco ao nosso alcance… o resto é fofoca e se for verdade: let the sunshine in!
Charles Möeller. Novembro 2009.
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Acho que foi a melhor análise que vocês já colocaram aqui: eu fiquei com um vontade louca de ver. E sua escrita, Charles, faz tudo ser deliciosamente magnífico também. O fato de você escolher bem as palavras ao preparar essa crítica planta a nossa imaginação e nos faz colher curiosidade.
Meu Deus, eu quero mesmo ver isso.
concordo, fiquei super com vontade de ver, e hikari, uma interna, não te lembra nenhum projeto não ?
Ainda não conhecia essa peça e gostei de ler essa análise. Pelo visto não é um musical, fiquei esperando o comentário sobre as músicas..rs
A Charlie, assim não vale!! MAis uma peça q vc`s me deixam louco pra ver!!
Mas sabe oq mais gosto quando voce escreve? Sempre vejo transbordar um amor por esse universo do teatro, um amor e respeito por aquele que voce escolheu por oficio. E isso me toca e me faz te admirar ainda mais!!
beijo enorme Gus!
Nossa! Fantástico, Möeller!!!
A peça parece ser simplesmente genial! Fiquei louca pra vê-la. Amei o enredo!!! E a sua crítica não faz por menos: deliciosa como sempre! Concordo com o que o Klein disse, o que eu mais gosto quando você escreve é que você sempre deixa transparecer o amor e o respeito profundo que você tem pelo teatro, um respeito e um amor com os quais eu compactuo!
Parabéns!