Direto de Nova York, Charles Möeller & Claudio Botelho analisam os principais musicais em cartaz na Broadway no momento
Um elenco enorme e talentoso, vocalmente impecável, com números de dança arrasadoramente vigorosos e beirando muitas vezes a acrobacia dão o maior gás no novo musical “Memphis”. Evidentemente acerta em ter como plote segregação racial em tempos miscigenados de Obama.
Memphis é uma cidade, onde, nos anos 50, os negros eram proibidos de aparecer em programas de TV, de tocar em rádios pra brancos, e de saírem dos seus guetos. As vezes Memphis me parece ser uma versão séria de “Hairspray”: a cidade o tema do racismo se assemelham com o Baltimore de John Waters.
A história é parecida, até existe um programa de TV, um programa que ganha audiência com entrada de um apresentador visionário que insiste em ter em seus shows a música negra, e negros como as grandes atrações e destaques.
O que mais incomoda é o score e a previsibilidade da história
Adorei o show, é ótimo de ver e ouvir! Os cenários são lindos e ágeis, o figurino de época impecável! A luz super acertada.
O que mais me incomoda é o score e a previsibilidade da história! O maniqueísmo. Em resumo: todos os brancos são maus, exceto o mocinho, e ele paga um preço alto por isso. Todos os negros são bons e vítimas de crueldades atrozes. E no final, existe a redenção total: os canalhas branquelos se rendem à força da Black Music e o rock & roll nasce. Felicia se torna um estrela e o branquelo e cafona Huey continua em Memphis descobrindo e garimpando talentos negros na sua incansável luta contra o racismo.
Nesse ponto acho que “Ragtime” fala de coisas parecidas e mais profundamente sem cair em tantos clichês. Vejam, adoro clichês e chorei horrores como nas várias vezes que Felicia era espancada, quando o irmão mostra as cicatrizes da violência no corpo ou quando um negro que nunca mais falou, vitima de estrangulamento, de repente começa a cantar pra ajudar o branco bonzinho. Aí eu desidratei de chorar, mas sei que são clichês, e é bacana ficar esperto pra eles e saber que isso é estratégia dramatúrgica pobre e fácil, pois chorar eu choro em comercial de liquidação das Casas Bahia!
Mas todos os atores estão ótimos e fazem com muita alma e sinceridade, o que faz que a alguns chavões passem despercebidos! Isso faz com que você desejasse realmente que o score tivesse sido menos superficial, já que o elenco dá conta total do recado e te convence o tempo todo.
Segundo ato resolve os conflitos rapidamente
O segundo ato é mais fraco, pois tenta justificar e finalizar as histórias e os conflitos acabam sendo resolvidos levianamente e rapidamente.
Tirando o score óbvio, acho que o grande erro de Memphis foi ter usado música composta. Seria o maior achado usar pérolas eternas da música negra. Poderíamos ter o prazer de ver standards da genial Black music, souls e gospels originais em vozes negras do elenco tão magníficas. Eles perderam essa oportunidades!
O elenco, a coreografia e a altíssima energia proporcionam um grande prazer mesmo quando o score escorrega. Meu destaque vai pra ótima Montego Glover (foto acima, com Chad Kimball) que faz Felicia com muita garra e garganta de diva! James Monroe Iglehart, que faz Bobby, é pra mim o melhor numero do show. Um negão de uns 200 quilos e dois metros de altura que dança com leveza e carisma impressionantes! Foi quem ouviu o meu uhuhuhuhuh! Não sei se gosto de Chad Kimball (foto acima, com Montego Glover), o branco bonzinho da trama, às vezes me parece ótimo, outras composto e vaidoso demais! Sabe ator que entra e já acha que arrasa e faz cara de ”olha como sou cool e faço pequeno e tenho olhinho de sol (defino assim ator que sempre faz cara de muita claridade, eles acham que ficam sexy) Detesto esse tipo de ator. O cinema brasileiro tá cheio deles… ator que chega dizendo: ‘não faço nada, falo baixo, monocordicamente, não abro a boca pra falar e sou Brando!!!’ Gosto dos que suam, dos que desequilibram, dos que arriscam! Quero ver um outro trabalho com ched. de repente to enganado e isso foi uma opção pro papel!
Memphis vale a pena!
Charles Möeller.
Novembro 2009.
Tags: Direto da Broadway









Charles adoro seus comentários para lá de bem humorados!
Nem tinha prioridade para ver Memphis mas agora ja deu vontade.
Adorei o ator de “olhinho de sol” de “fala baixa” rsrsrsrs O pior é que tenho um amigo que é exatamente assim… e faz um filme atrás do outro e uma novela das nove atrás da outra… rsrsrsrs
Oi Charles
Agora que comecei a fazer aulas de canto, me dou conta das dificuldades, sutilezas e dos prazeres da interpretação cantada, asim, tenho curtido muito seus comentários sobre o que se passa neste mundo dos musicais. Mas além do prazer de receber informações sobre os espetáculos musicais, o que não era minha “praia”, o que gosto mesmo e de conhecer mais sobre você através da forma como voce elabora e se coloca nos seus escritos. Muito bom!! Abraços.
Excelente crítica, Möeller!
Lembra muito hairspray mesmo pela descrição, mas parece ser bem legal, adorei as fotos, pelo visto é o tipo de musical que te faz embarcar total na história
mais um p lista, rs!! thank you!!!
adorei a critica!! melhor é vc admitir q curte cliches, chora, mas consegue ve-los criticamente!!
Claudio e Charles
Continuamos apreciando muito as novidades da terra do tio SAM.
By the way… Por que não criar um espetáculo oposto ao Memphis, com elenco repleto de loiros e louras… Podíamos chama-lo de “Blondies”
Parabéns a todos