

Um mês depois da estréia de “A Noviça Rebelde” no Teatro Casa Grande, o cantor Saulo Vasconcelos, que havia feito teste para o papel principal masculino do musical, foi ver uma récita. No palco, Herson Capri interpretava o Capitão Von Trapp, no lugar que ele tinha almejado.
— Foi a primeira vez que vi um musical para o qual tinha feito teste sem ter passado e pensei: “Que pena que não estou no palco”. Fiquei melancólico.
Mas, quando uma coisa é para ser sua nessa vida, acaba acontecendo — diz o cantor, que, a partir desta quarta-feira, substituirá Capri, de saída do teatro para a novela “Negócio da China”. — Assisti ao espetáculo e me emocionei muito.
Vendo “Dó ré mi”, que é a coisa mais doce, fiquei com o olho cheio d’água. Acho que é porque está no inconsciente, lembra a infância.
Currículo tem “La bohème” e “Don Giovanni” A primeira vez em que Vasconcelos viu “A noviça rebelde” também foi marcante: — Eu já tinha mais de 20 anos. Achava que era uma chatice, mas, quando vi, respeitei.
Esses musicais antigos, como a “Noviça” e “My fair lady”, são imortais, assim como óperas bem escritas.
A autoridade para fazer comparações é assegurada por um currículo que inclui papéis em “Don Giovanni”, “O barbeiro de Sevilha”, “La traviata”, “Aída”, “La bohème” e outros títulos eruditos, encenados em Brasília. A estréia foi em 1997, em “Madame Butterfly”.
Mas ele garante ser mais feliz nos musicais: — Há coisas muito bonitas escritas para musical e tem o dinamismo das cenas, os textos falados, que têm que soar verdadeiros; você pode mostrar duas ou até três facetas. Você pode ser um excelente cantor, ator e bailarino — diz Vasconcelos, que se considera hábil nas duas primeiras funções. — Esse papel de Capitão Von Trapp é o que exigirá mais de mim como ator, tirando “A Bela e a Fera”.
Tive, ainda, que aprender uma valsa. Treinei com Dalal (Achcar) e “tia” Ângela (Ayres), assistente dela. Não sou bailarino, mas consigo dançar.
O primeiro musical de sua carreira foi feito na adolescência, em sua Brasília natal: ele escreveu, dirigiu e protagonizou um espetáculo em que cantava, em ritmo de rock, a história da fundação do Colégio Marista, onde estudava. Na infância, montou uma banda de rock chamada Zona Morta, para tocar Legião Urbana, Paralamas do Sucesso e Capital Inicial. Começou na bateria, mas logo tomou o microfone.
A vontade de levar a música a sério, porém, só nasceu na época em que cursava a Universidade de Brasília, quando, em 1992, entrou para um coro amador da instituição. Com esse grupo, ele chegou ao Carnegie Hall, em Nova York.
— Eu estava lá, uma entre 600 vozes, pensando: “Nossa, isso é muito especial”. A partir daí, preocupei-me em educar minha voz. Passei a estudar mais as músicas do coro do que as matérias. Minha mãe ficou preocupada. Eu ficava cantando em casa, e ela dizia: “Pára de gritar! Pára de gritar!” — conta ele, que estudou química, engenharia e economia.
— Estava no último semestre da faculdade de economia quando surgiu a audição de “Rent”, que mudou minha vida.
Estava fazendo a monografia de fim de curso. Não me formei, mas não me arrependo.
Ele estava atuando em “Don Giovanni”, de Mozart, quando descobriu que “Rent” seria montado na capital paulista.
Cantor estrelou “O fantasma da ópera” no México — O sujeito que veio ao Brasil julgar os candidatos na última fase de audições viria a ser o diretor musical de “O fantasma da ópera” no México. Ele me pediu para cantar uma música do “Fantasma”. Não entendi o porquê, mas cantei. Fui bem na audição. Ele me pediu para gravar aquilo em vídeo e mandar para os Estados Unidos para análise. Fui aprovado para uma seleção final na Bélgica, com outros quatro candidatos, para ser o fantasma, em 1999. Fomos escolhidos eu e um mexicano.
Eu seria o substituto, mas, quando chegou a hora, o mexicano não deu conta, por indisciplina, e fiquei com o papel.
Durante um ano e quatro meses, o brasileiro fez o fantasmagórico personagem no México. Novato naquele meio, ele acumulou experiência e passou por situações tensas, como esquecer certa vez a letra de uma canção e ter que improvisar em portunhol (com frases do tipo “macaco quer banana”, revela ele), ouvir reclamações do diretor quando a voz não estava boa num ensaio e sentir saudades constantes de casa (“até pagode, que eu não gosto, me emocionava quando eu ouvia lá”, observa).
Para ele, que hoje tem 34 anos, foi o trabalho mais desafiador de sua carreira: — Eu não sabia nada, cheguei sem experiência, sem falar a língua. Mas fiz outras óperas muito marcantes. “Os miseráveis” foi uma grande experiência, porque é a obra-prima dos musicais. Fiz no Brasil e no México. “A Bela e a Fera” também me marcou, porque eu chegava em casa leve, graças ao final feliz. Isso é importante.
Fazer todos os dias uma pessoa que se jogava de uma ponte para a morte em “Os miseráveis” gerava uma seqüela; um cara deformado que era abandonado, deixado sozinho no palco, como no “Fantasma”, também não é fácil. Agora tem o Capitão Von Trapp, que começa tão ríspido e termina tão humano. Acho que chegarei em casa feliz.






Enviado por César em 13/5/2009:
Isso que é complicado, perde-se a vontade total de fazer uma audição. Ou os de sempre estão nas montagens ou se você não tem olhos azuis ou fios dourados você já era.
Enviado por Madelín em 20/10/2008:
Imagino a emoção do Saulo qdo soube que finalmente, seria sua vez de estar naquele palco que deixou ele meio “melancólico” (como ele disse)! Fico muito feliz de saber que ele conseguiu!!!! Tenho certeza que vai ser um SR. Capitão!!!! =)
Enviado por Vera em 20/10/2008:
Que emoção ler a entrevista do Saulo!!! Além desse talento imenso (como ele), esse carisma fantástico que conquista todo o tipo de público, ele mostra essa garra, e luta por seus objetivos com afinco…. E mesmo quando não consegue o pretendido, não é que depois vem para as mãos dele??? Ele é abençoado!!! Merece todo o SUCESSO que faz, pois é um ser humano com muitas qualidades!!! Saulo!!! Tudo de muito bom SEMPRE para vc!!! Nós, seu fãs, estaremos com vc, pois vc nos cativou simplesmente por ser assim….!!!
Enviado por Charles Fouquet em 20/10/2008:
Por mais ansioso que eu esteja pra ver o Saulo de Capitão, confesso que preferia o Ricca Barros (mas eu entendo a mudança, tendo em vista que ele não é tão pop quanto ele).