Charles Möeller: “Billy Elliot é um bunker infinito de conflitos”

novembro 20, 2009
Categorias: Artigos, Möeller & Botelho

Direto de Nova York, Charles Möeller & Claudio Botelho analisam os principais musicais em cartaz na Broadway no momento

Billy 02

Gregory Jbara e David Alvarez em “Billy Elliot”, na Broadway

Quando estreou em março 2005 no Victoria Palace Theatre em Londres, eu e Claudio estávamos lá e tive a sensação que o teatro musical estava diante de um “Antes e Depois de Billy Elliot”.

Tive esse prazer algumas vezes na vida e é o que busco a cada estreia: Um tsunami de emoções! Tive isso com espetáculos como Crazy for You, Chicago, Kiss me Kate, Kiss of Spider Woman, Spring Awakening, Hair e alguns outros.

Ser testemunha de um fenômeno logo que ele estreia é um acontecimento único, algo arrebatador, como muitas vezes já escrevi: ter a sensação de desaparecer no terceiro sinal e só retornar nos aplausos. Por isso me obrigo há muitos anos estar em estreias e previews, tanto em Londres como em Nova York, sigo atrás desse momento.

A peça em Nova York é a mesma e sua transposição para os palcos americanos é perfeita! Até o dialeto me parece mais suave aqui, ou me acostumei de tanto ouvir.

O elenco é extraordinário e imagino que esse deva ser o elenco mais difícil de ser formado em toda a história dos musicais, pois além de garimpar crianças ciborgues – sem palavras pra defini-las -, o elenco em volta é dos mais complexos, pois os atores têm que parecer mineiros caucasianos, pobres rústicos no meio de um piquete de trabalhadores e policiais viris e assustadores. E ainda têm que dançar, cantar e interpretar um dramalhão dos mais emocionais que já vi.

Em qualquer primeira aula de dramaturgia, a gente aprende que pra se ter ação dramática é preciso se ter conflitos. Billy Elliot é um bunker infinito de conflitos estratégicos feitos sadicamente pra te matar na cadeira!

Billy 03

No final do primeiro ato você já era!

Criança pobre órfã de mãe criada pela avó senil, com pai brutal e irmão violento no meio de um strike de mineiros em 1984, tem como melhor amigo um crossdresser, e uma professora de dança nada convencional. Nesse cenário, se descobre um excepcional e particular BAILARINO! A partir daí o conflito se desenrola e no final do primeiro ato, você já era!

A direção de Stephen Daldry, o mesmo do filme, é a melhor que já vi na vida! Os atores interpretam uns pros outros, evitando os clichês de estarem sempre de frente. É muito realista e profundo. Estão todos inseridos naquele submundo da sobrevivência, onde ter um dom artístico é uma piada, afinal não há dinheiro pra comida. Como olhar com carinho para uma audição no The Royal Ballet School?

Todos os números coreográficos são espetaculares. Teria que escrever um livro pra descrever todos. Não sei apontar qual eu amo mais! Lógico que tem os óbvios ‘arrasa quarteirão’, como o do final do primeiro ato, com Billy se atirando nos policiais no meio do piquete em ‘Angry Dance’. Tem a audição frustrada na Royal que resulta na exibição do preciosismo ‘Electricity’; o adorável e corajoso ‘Expressing Yourself’, com Michael (genialmente feito aqui por Keean Johnson) e Billy (vi pela desta vez com o cubano David Alvarez, que é fantástico. Mesmo assim não entendo esse politicamente correto e essa cota racial. Fica pouco crível num espetáculo tão realista ver um cubano, com pai, avó e irmão tão nórdicos e caucasianos! Às vezes te dá a sensação que Billy é adotado, mas isso é outro capitulo, afinal David é genial e merece cada segundo de aplauso que teve).

Vou me arriscar a escolher um número que sempre choro e vejo a genialidade do coreógrafo Peter Darling: “We’d go Dancing”, com a avó de Billy dançando com todo elenco masculino que atravessa a cena como fantasmas rústicos do passado com cigarros na boca, cadeiras de bar e garrafas de whisky e desaparecem pela janela como um carrossel de lembranças…

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O destaque é Gregory Jbara

Meu destaque total nessa versão americana vai pra Gregory Jbara, que faz o pai de Billy. Ele é o grande catalisador de todas as minhas lágrimas… da truculência inicial, até sua despedida de Billy na cena final, foi ele que me assaltou! Foi merecidamente vencedor do Tony de melhor ator coadjuvante! Já o tinha visto num chiquérrimo Billy Flynn em ‘Chicago’. Aqui, ele está irreconhecível como mineiro inglês emocional e sem traquejos com os filhos! Li que ele engordou 20 quilos para parecer mais brutal e rústico, o que realmente fez o maior diferença nas cenas que ele está de camiseta, com uma barriga pesada e truculenta! No final, quando aparece de tutu dançando com toda técnica e preparo de tantos anos de musicais, fica até chocante.

Billy Elliot após tantos anos de sua criação ainda mantém o frescor de estreia e é dos meus shows preferidos. Fico muito feliz quando amo um show, pois antes de ser diretor sou fã de musical e rever é sempre um enorme prazer. É sempre entrar em contato com o que me motiva a continuar nessa profissão…

Charles Möeller

Novembro, 2009.


Charles & Co

Charles Möeller, Tina Salles, Antonia Prado, Ana Paula e Ada Chaseliov na plateia de “Billy Elliot” – novembro 2009

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Comentários

19 comentários de "Charles Möeller: “Billy Elliot é um bunker infinito de conflitos”"

  1. Gustavo em sex, 20 nov 2009 12:28 pm 

    Que maravilha, Charles! As críticas de vcs nos dão a vontade de pegar o primeiro avião e ir para a Broadway para conferirmos os espetáculos. Queremos mais!

  2. Mariana Carrozzino em sex, 20 nov 2009 12:56 pm 

    Realmente essas críticas dão vontade de pegar o primeiro avião e ir pra Boradway. Dá até dor no coração. Lindo, lindo, lindo, Möeller!

  3. Paulo Neto em sex, 20 nov 2009 3:41 pm 

    Eu vi com o Trent Kowalick, ai em Nova York.
    Adorei o texto. Cheio de paixão!!!

  4. gustavo klein em sex, 20 nov 2009 4:40 pm 

    Eba!!! Já to comprando meu ingresso!!!! Sempre ouvi falar bem d Billy Elliot versão musical. Mas agora tneho certeza de que PRECISO ver!!!

    Thanks Charlie!!! bjs enormes em todos, have fun!

  5. Ada em sex, 20 nov 2009 5:32 pm 

    Como assim…”e suas amigas?”
    Quero créditos!!! rs
    Meu primeiro musical na Broadway!

    Inesquecível, no dia seguinte já queria ver de novo.
    Se já não tivesse com todos os musicais comprados eu iria.
    O menino pode ser “cota”, mas é deslumbrante!
    Que emoção esse espetáculo!
    Superou todas as minhas expectativas.

  6. Vinicius Teixeira em sex, 20 nov 2009 6:04 pm 

    Realmente essas críticas dão vontade de pegar o primeiro avião e ir pra Boradway [3]

  7. Ana Clara em sex, 20 nov 2009 6:12 pm 

    Amo e passei a amar ainda mais Billy Elliot!

  8. Mariana Carrozzino em sex, 20 nov 2009 7:07 pm 

    A Ada Chaseliov realmente merece créditos! ahsuahsuasa

  9. Thirso Naval em sex, 20 nov 2009 8:40 pm 

    Ahhhh. Billy Elliot é tudo!Com certeza um dos melhores musicais já encenados na broadway. Os três alternantes no papel de Billy são igualmente fantásticos.

  10. Leo em sex, 20 nov 2009 10:09 pm 

    Já foram! É que faltava um nome…

  11. Thiago Marinho em sáb, 21 nov 2009 12:09 am 

    Foi uma das coisas mais lindas que eu ja vi em cena

  12. Betto Marx em sáb, 21 nov 2009 5:42 am 

    Vi alguns vídeos na net (os números pro Tony são incríveis) e concordo plenamente com o termo CIBORGUES. hahaha… Essas crianças são criadas em laboratório. Experiências milagrosas e deslumbrantes. E viva os pais que incentivam a arte desde cedo.

  13. Ada em sáb, 21 nov 2009 12:21 pm 

    Obrigada, Leo maravilhoso!!

  14. Ana Paula Abreu em sáb, 21 nov 2009 1:11 pm 

    Meu primeiro musical na Broadway também!
    Foi muito emocionante, sentamos muito perto do palco e conseguíamos ver todas as expressões nitidamente!
    Impactante!
    Amei!!!!

  15. Tomas Quaresma em sáb, 21 nov 2009 5:24 pm 

    pra fazer esse musical no brasil tem
    q se descobrir crianças “monstras”
    com uns 5 anos e começar a treinalas!

    kkkkkkk… pra q com 11 eles consigam ser billys!

    ha ha… obrigado ao charles e o claudio
    pelos artigos, são deliciosos de se ler!

    é como ver o “mundo do musical” pelos olhos
    dos q melhor entendem no brasil, é mágico!

    abração!

  16. fabiana em seg, 23 nov 2009 3:20 pm 

    Eu assisti no final de abril e AMEI! Sentei na primeira fila (adoro!) e foi maravilhoso… eu tinha a sensação de estar no palco, vivendo a história junto com eles…
    O choro é inevitável… a emoção é total!
    Em The Letter, eu tava aos prantos, chorando tudo o que eu podia… e foi muito engrçado qdo a mulher que sentou do meu lado me passou uma caixa de lenços… Tive que rir!
    Lindo! Do começo ao fim!

  17. Ana Cristina em ter, 24 nov 2009 9:00 am 

    Teremos “Billy Elliot” versão Möeller e Botelho? Se tem tanta paixão em ver e contar, imagine em recriar … parabéns!

  18. Vanessa Porto em ter, 1 dez 2009 11:18 am 

    Nossa!! Como é incrível, ler esses comentários, a forma como Claudio e Charles, descrevem o espetáculo. é surpreendente, a visão deles, fico cada vez mais admirada.

    Abraços!!!

  19. Ricardo em dom, 27 jun 2010 1:54 pm 

    Tive a oportunidade de ver este musical em Londres no ano passado e gostei bastante, porem acho que não merecia o Tony de melhor musical no ano passado. Acho Next to Normal mt superior ao Billy Elliot e este merecia o Tony.
    Tb não acho que os 3 Billys que receberam o Tony merecia ganhar. O Brian D’arcy james estava mt melhor em Shrek:The Muscial (sou suspeito para falar pq sou fã desta ator), o Gavin Creel estava otimo em Hair e o J. Robert Spencer estava excelente em N2N.

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