“TEMOS TEATRO COM HOMENS”
Assistindo ao Despertar no último domingo, em que nosso protagonista Pierre Baitelli subiu à cena com uma mão enfaixada e teve de fazer o espetáculo assim, tolhido de alguns movimentos, fui assaltado por alguns pensamentos que agora tento colocar aqui:
O grande problema de você trabalhar com alguém como Pierre Baitelli num papel central é que você começa a achar que não vai conseguir fazer mais nada sem ele.
Eu tenho a idade de Maomé nesse negócio de musical e já vi de tudo. Mas nenhuma vez vi um ator (homem) tão maduro e capaz de enfrentar personagens complexos até conhecer Pierre. E isso se estende também para o nosso co-protagonista – Rodrigo Pandolfo – mas vou ficar só no Pierre agora, pois Charles vai falar sobre o Rodrigo em outra oportunidade.
Os atores que se dedicam aos musicais, especialmente os homens, o fazem geralmente por terem uma especial habilidade no canto e gostarem do gênero. Muitos levam anos pra se tornar atores de verdade, amadurecer e serem capazes de interpretar papéis que vão além de uma partitura de notas difíceis.
Lembro do meu queridíssimo Fred Silveira, que é meu ídolo, começando no Les Miserables lá em 2001 e fazendo lindamente o Marius, num espetáculo sem uma única fala, tudo cantado. Fred levou um tempo até poder se exercitar e convencer como ator mesmo, sem que o “cantor” estivesse na frente. Hoje ele é tudo isso junto…
O mesmo posso dizer do Saulo Vasconcelos, que entrou na carreira pelo mesmo viés da grande voz e atualmente a gente já o encara como um ator/cantor, não apenas como um Caruso dos musicais. O que não dizer então do André Dias, que é um comediante de primeira linha, este sim já incrivelmente preparado pra aturar e cantar desde o Rent (que não assisti, mas soube de sua atuação fantástica), um espetáculo mal montado no Brasil. Acho que André teve a sua grande chance mesmo, sem dúvida, no AVENIDA Q, onde ele pode se colocar em cena como protagonista num espetáculo à altura do seu talento que é incomensurável.
Mas voltando ao Pierre: o que me deixa boquiaberto todos os dias é que, até onde eu sei, esse menino tem 25 anos. Não tem carreira ligada aos musicais, não é daqueles como nós que vive em função de se preparar para um grande papel na próxima produção da CIE (é uma metáfora, tá?). E o cara chega e transforma o Melchior no que ele realmente é: um Hamlet adolescente. E mais que isso: canta!!! Não há nada que eu tenha pedido a Pierre nos ensaios que ele não tenha conseguido fazer. Imagino que ele tenha se achado menos lapidado para o canto no início do processo, mas isso foi sendo embrulhado pelo todo e agora a voz está toda lá, cheia de nuances e com uma força incrível.
Difícil distinguir onde está a frente artística: no canto ou na interpretação? Toda vez que assisto ao espetáculo fico me perguntando: como é que eu vou fazer alguma coisa sem ele daqui por diante? Ele pode ser o (…, mistério) no nosso musical do ano que vem. Ele pode ser o (…, mais mistério) no musical que compramos há pouco. Ele é o que eu precisava para o (…, mais mistério ainda) pra ser o principal do musical que estamos escrevendo e será o número dois na trilogia do iniciada com “7″.
Meu entusiasmo com ele é pelo fato de achar que, com o DESPERTAR DA PRIMAVERA, alcançamos uma maturidade no teatro musical brasileiro que ainda não tinha sido vista com atores/cantores homens. Inclusive porque não tivemos no Brasil espetáculos onde os papéis masculinos pudessem ser testados desta forma, ou os que tivemos – na minha modesta opinião – deixaram a desejar nessa parte.
Não quero (e não posso) ser injusto com Daniel Boaventura, Sandro Christopher, Claudio Lins, Alexandre Schumacher, Marcos Tumura, e muitos outros, que são grandes atores/cantores, mas que são todos “de musical”, fazem isso há anos, praticamente começaram na carreira fazendo musicais.
Alguns desses lideraram montagens recentes de musicais, algumas relativamente corretas, outras equivocadas do ponto de vista artístico, mas sem dúvida eles se destacaram e cresceram em suas carreiras. Mas nem todos tiveram pela frente um material dramático/musical tão denso quanto a dupla Melchior/Moritz propõe. A maturidade a que chegamos com este espetáculo, com este elenco, e em especial com a chave de ouro que são os dois protagonistas masculinos – é definitiva.
O teatro musical no Brasil sempre foi lugar de mulheres. Desde Bibi Ferreira, passando por Claudia Raia, Claudia Netto, Soraya Ravenle, Marya Bravo, entre tantas outras, sempre foi facílimo escalar protagonistas femininas para os espetáculos.
O problema sempre foram os homens. Muitas vezes, recorre-se a um ator que pode fazer a parte dramática, mas não pode cantar. Ou vice versa. Muitas vezes você baseia uma produção inteira num ator que não tem a idade do papel, e aí… você afunda. E a verdade é que os grandes clássicos onde há grandes papéis masculinos não têm sido escolhidos pelos produtores brasileiros para chegar à cena.
Um exemplo típico do que era musical por aqui há 40 anos é a escalação de Paulo Autran na montagem de MAN OF LA MANCHA. O papel foi feito pela metade no Brasil, pois toda a parte cantada ficou pra escanteio. Papel criado pelo grande Richard Kiley na Broadway, um ator/cantor de primeiríssima linha, foi aqui apenas recitado (pelo também genial Paulo Autran, um ator tão bom que fez todos acreditarem que o personagem era assim, recitado mesmo). Isso para não citar alguns descalabros recentes, coisas que estiveram recentemente em, de papéis importantes masculinos feitos com deboche e absoluta falta de senso por gente que, definitivamente, não é de musical, é de outro ramo diferente do nosso.
Eu trabalho de modo bissexto como ator, atualmente muito mais coisa do passado do que bissexto realmente. Fiz um Company no teatro Vila Lobos numa época em que os musicais engatinhavam e só tínhamos tido mesmo Les Miserables como um musical da Broadway montado com alguma dignidade por aqui. Eu fazia o papel central, Bobby, que falava quase nada, cantava muito e ficava em cena vendo os “coadjuvantes” se engalfinharem até um break-down final. Eu estava ali porque era o dono do projeto e tinha o sonho e a vontade olímpica de encenar Sondheim no meu país. Mas tenho certeza de que, houvesse na época uma espécie de Pierre Baitelli com a idade certa (35 anos) para o papel, aquele Bobby teria sido defendido com muito mais verdade e profundidade do que o foi por mim. Isso nem é um surto de falsa modéstia, é uma constatação. Eu só estive naquele papel naquele momento porque eu era o cara de musical que tava ali pra fazer aquilo, era uma aposta minha, e o espetáculo em si era muito mais importante do que eu. Mas daqui a 10 anos podemos pensar em ter Pierre à frente de um novo COMPANY, ele é o Bobby que pode dar nova vida à peça quando for o tempo.
Por enquanto, é tempo de reverenciar esse salto no nosso teatro: Pierre , à frente deste elenco inusitadamente jovem, é motivo de comemoração. Chegamos num lugar diferente. Cada novo espetáculo é um novo salto, um novo desafio, uma nova chance pra nós mesmos – especialmente nós, Moeller & Botelho, que nunca vamos atrás da corrente, que não baseamos nossos sonhos nas vitórias dos outros, que não fazemos repertório tentando tirar uma casquinha do que já foi feito e provado por aí a fora. Pelo contrário, tudo o que fizemos até hoje em teatro musical foi – bom ou ruim – novidade pra nós mesmos, pura novidade. E o patamar de O DESPERTAR é esse: musical também é um artigo masculino, tempo de astros, além das estrelas.
Claudio Botelho
Tags: Claudio Botelho, O Despertar da Primavera, Pierre Baitelli, Rodrigo Pandolfo







O Pierre realmente merece congratulações pelo “conjunto da obra”. Por mais que ele tenha se sentido inseguro em relação a suas habilidades vocais no início, acho que agora, com a resposta do público e da crítica, ele deve estar bem mais tranquilo. Com um personagem como o Melchior nas mãos, é preciso muita competência e o Pierre está correspondendo mais do que a altura!
Muito bom o seu artigo, Botelho! Interessante que o q vc disse (q a maior parte dos nossos atores de musicais eram homens que cantavam há muito temos mas não tinham grande experiência em atuar) é uma grande verdade e eu nunca tinha parado para refletir sobre isso. E eu me sinto maravilhada em constatar que essa realidade está mudando. O Pierre e o Rodrigo realmente são grandes atores/cantores que não deixam desejar em nada. Uma delícia isso!
Parabéns pelo artigo.
QUE BELEZA,CLAUDINHO.VOCE E CHARLES SÃO DE UMA DIGNIDADE E DE UM RESPEITO COM VOCES MESMOS, E PORTANTO COM OS SEUS ATORES.NUNCA VI UM DIRETOR FALAR ASSIM PUBLICAMENTE DE UM ATOR JOVEM.PODEM ATÉ TER FALADO.MAS NÃO DESSE JEITO.É UM GRANDE INCENTIVO.É TUDO QUE UM ATOR QUER LER E OUVIR.AGRADAR E REALIZAR OS SONHOS CONSTRUÍDOS PELO DIRETOR,AUTOR ETC.SÓ OUÇO ELOGIOS A ESSE MENINO E FICO ENCANTADA POIS SEI A DIFICULDADE QUE É.E ELE POSSUI ALEM DE TUDO, UMA SIMPLICIDADE , UMA GENEROSIDADE E UMA DIGNIDADE,SEMPRE ATRIBUÍDA AOS ELENCOS DA DUPLA.PUDE PROVAR ISSO,POIS ELE SEM NUNCA TER SIDO APRESENTADO A MIM,FOI DE UMA TERNURA,UMA EDUCAÇÃO E UMA EMOÇÃO LINDAS.PARABENS AO PIERRE.VÁ EM FRENTE VOCE É UM GRANDE FUTURO NOSSO.ESPERO QUE A SUA MÃO ESTEJA BEM MELHOR.SÃO MEUS SINCEROS VOTOS.
NÃO POSSO ME CALAR.NÃO POSSO MESMO:CLAUDIO SEU BOBBY FOI UM DOS MELHORES TRABALHOS QUE VI.NÃO QUERO NEM SABER…VOCE SABE DISSO.E NÃO VOU NEM FALAR DO SEU GENIAL SIMPLES E ABSOLUTO GENI.EU SOU MESMO UMA SORTUDA.QUE ORGULHO DE TODOS VOCES.VOCES FAZEM DO MUSICAL E DO TEATRO UM TEATRO REALMENTE DE HOMENS!!!
UM BEIJO CARINHOSO DA PA E VIVA VOCES!!!
Eu também vi o Bobby do Cláudio e gostei muito! Cláudio, queremos você no palco de novo! rsrsrs…
Mas falando do Pierre, a carga dramática que foi dada ao Melchior dele é fantástica! Ele é ótimo em cena! E se este é seu primeiro musical, imagino o que virá. A prática do canto vem com o tempo e dedicação. Tenho certeza que se ele continuar estudando e vai aperfeiçoar-se cada vez mais.
Abs,
Desde o primeiro dia de ensaio, notei que havia algo incrível e enigmatico em Pierre.
E no decorrer dos ensaios, agradeci ,todos os dias, a existencia de Pierre nesse elenco.
Foi uma lição pra mim.
Muitas aulas de interpretação, coragem, superação , coleguismo e elegancia que tive com ele.
Obrigada Pierre por existir.
Parabéns Claudio e Charles pela magnifica escolha.
Eu tbm escolheria Pierre o resto da minha vida para Melchior e para muitos outros personagens!
Não há palavras que descrevam o que é Pierre Baitelli em cena!!!E eu que acompanhei de dentro … vi todo o esforço … toda a dedicação … fico orgulhosa e emocionada a cada final de espetáculo … é inacreditável o que ele faz!!Pi, amamos vc e melhorasssssss super rápidas!!!!!!!!!!^^
Pelo que podemos ver, o Pierre é daqueles atores que realmente se entregam a um personagem. É de uma linhagem de atores maravilhosos que o Brasil têm e que encontram seu melhor espaço no teatro, como Emílio de Mello, Fernando Eiras, Wagner Moura…
Pierre é desses atores intensos e profundos. Não é raso como alguns são – os que apenas se preocupam com a beleza física, a fama, o dinheiro e os benefícios em ser uma celebridade.
De celebridade o Pierre não tem nada. É um ATOR com letra maiúscula. E isso faz toda a diferença, Claudio.
Não sei o que você, Claudio, faria sem o Pierre…. mas já que o tem, escale-o sempre!!!!!! Como meu colega aqui em cima, Jorge, disse: “É um ATOR com letra maiúscula. E isso faz toda a diferença”
Tenho visto e lido coisas impressionantes sobre o Pierre, e cada vez mais me certifico de que nunca vi nada parecido com ele!
Poxa, esse espetáculo parece estar lindo e nao poderia ser mais mágico! Parabéns !
A força da interpretação do Pierre é algo realmente hipnotizante. Me surpreendi quando, ao ler as primeiras impressões do espetáculo nas comunidades do Orkut, o foco ficava sempre com os excelentes Malu e Pandolfo (realmente sensacionais), e achava que o Pierre não era citado com o mesmo entusiasmo. Pensei: Será que ninguém está vendo o show de interpretação e canto que esse grande ator está nos oferecendo? Bom, hoje respiro aliviado, pois já é meio senso comum que o Pierre é insubstituível no “Despertar” e (espero eu) em muitas outras produções que ainda virão.
Destacar-se como protagonista não é muito difícil, mas se destacar num elenco tão poderoso como o de “Despertar”… realmente não é para qualquer um.
Desculpa mas o texto pra mim perde a validade quando Saulo é citado como um grande cantor que conseguiu atingir o mérito de bom ator, quando qualquer um com um mínimo de senso crítico (e acredito que você, Claudio) sabe que ele tem ainda muuuuuuuuuuuuuuuuuuito o que aprender como ator, porque ainda é muito ruim.
… é tempo de reverenciar esse salto no nosso teatro: – Pierre [2]
Esse é o seu Momento, Pierre – tempo de um Astro !
Hoje, esse espaço no M&B é só seu e vc o conquistou, com suor, perseverança, humildade, simplicidade e a garra dos grandes Atores !
Ouvir palavras como essas do Claudio, seu Diretor e Mestre, é o seu Prêmio maior e a recompensa por tanto esforço e dedicação. Posso imaginar a sua emoção ao ler esse artigo.
Ser citado como um “Hamlet adolescente”, na composição do seu Melchior e receber tantos elogios mais que merecidos.
Que ator teve o privilégio de ouvir palavras tão fundamentais ?
E você, tão jovem ainda, tem todo o tempo do mundo para insistir nos seus Sonhos !
Sinceramente, com tantos “mistérios” anunciados, acredito que ainda veremos muito você em cena ao lado desses bruxinhos do Teatro Musical, Claudio Botelho e Charles Möeller, que, como disse o Abu, “nos fazem ver e ouvir essa palavra tão machucada chamada Arte”.
E .. cada vez mais “um verão vermelho vai tomar nosso Quintal” !
Claudio, realmente,”o Musical é um artigo masculino” e esse
seu artigo é de uma sensibilidade e delicadeza à flor da pele.
Temos Homens de Teatro !
Lindo texto!lindo tudo rs
Surpreso. Emocionado. Extasiado. Descontrolado. Acariciado. Encorajado. Quase incrédulo. Feliz! Feliz! Feliz! São alguns dos poucos sentimentos q sou capaz de nomear ao me deparar com suas palavras Claudio! Fico realmente tonto e sem palavras depois de ser assaltado por este golpe de… de que? Não sei… perdido… Estou pasmo, estou imbecilizado… Qualquer coisa q eu disser não chegará aos pés de tamanha homenagem. Sem a menor sombra de dúvida a maior que já recebi em toda a aminha vida. Agora só consigo agradecer. Por tudo! Tudo! E por cada gota de confiança depositada em mim. Obrigado Claudio. Obrigado! Obrigado! Obrigado!
De todo o coração,
Pierre.
Gente, a gente só faz chorar e se emocionar nesse Site !!!
Pi, como vc poder ter dúvidas do teu Talento !!!
Como vc pode ser tão Doce !
Obrigada V O C Ê pelo Melchi !
De Coração !!!!!!!!!
Claudio, que lindo!
Conheço o Pierre à bastante tempo, e sempre o achei um ator MUITO talentoso. A surpresa foi saber que ele cantava! Quando eu soube disso, não tive a menor dúvida: ele era o meu trunfo! Quando me ligou um dia antes de sua audição dizendo que “estava gripado, se podia marcar outro dia”, pensei: o canto é blefe, e ele amarelou… Fiquei tensa, achando que ele ia desistir. Mas, no dia remarcado lá estava ele: lindo, resplandecendo talento, se jogando no canto, com muita sinceridade. Eu acredito que personagem tem endereço certo, que ele escolhe o ator. E o Pierre, definitivamente, foi escolhido pelo Melchior! Sorte a nossa!!!
Eu acho o Pierre fábuloso, mas tenho pena do povo que adicionar daqui pra frente, já que existe uma repetição exaustiva de Kiaras Sassos e Saulos Vasconcelos por aí, ( o que é um saco ) agora não vai ser diferente!
Realmente Pierre deu um show em o Despertar… deixou saudade em muita gente, e está mandando muito bem de peruca loira e salto alto na pele de Hedwig, vale a pena conferir ele, o Paulinho e toda sua trupe na Gávea!
Pierre fica quase irreconhecível sob a pesada maquiagem da personagem, mas quando solta a voz nos primeiros acordes, é logo reconhecido pelo incrédulo público que ficava hipnotizado ouvindo sua voz em O Despertar…
É mais uma vez, uma belíssima semente plantada pela dupla M&B florescendo em outros espetáculos, com outros diretores…
É quase uma colaboração da dupla M&B para o teatro musical como um todo!
E que venham outros “Pierres” se é que isto é possível…