Sassaricando na Avenida B
maio 17, 2009
Categorias: Clipping
Tudo é música na vida cheia de ritmos e melodias de Claudio Botelho e Charles Möeller, recém-chegados de Nova York, cidade que não dorme sem os acordes da ribalta. Em 10 dias, um total de nove musicais. “Não é a temporada mais brilhante, mas também não vi nenhum decréscimo. Crise? É na crise que os americanos se voltam para os próprios interesses”, garante Claudio. A convite da coluna, a dupla Kander&Ebb brasileira elege o melhor e o pior da atual temporada teatral da Broadway. Resultado? Mesmo fora de cena, nossos espectadores Claudio e Charles, implacáveis quando assunto é a paixão afirmativa pelos musicais, mesmo diante da escolha menos acertada, ainda fazem valer o ingresso. É ler e conferir.
Bom espetáculo!
West Side Story – “Sou fã de WSS desde que conheci o LP da montagem
original. Participei da produção brasileira, há dois anos, como
tradutor e versionista. Por isso, sinto-me à vontade para contar que o
que vi é uma chatice empoeirada. Não dá para acreditar que aqueles
garotos do elenco, com cara de bichinhas do Chelsea, pertencem a alguma
gangue de maus elementos. Eles (os americanos) são bonitos demais e
milimetricamente maquiados para parecerem despenteados e sujos. Os
portorriquenhos são, ao contrário, tão feios e mal vestidos, que
torcemos para eles perderem a guerra mesmo. O sujeito que faz Bernardo
não oferece perigo algum. Parece um dos Menudos demitido por falta de
carisma sexual que acabou no teatro. Sarcófago é uma palavra forte, mas
não tem nada ali que seja vivo. O que se assiste é uma exumação da
montagem original”.
(Claudio Botelho)
Hair – “Odeio espetáculo que interage. Odeio. Sempre achei que quem
interage é cachorro. Odeio que cantem olhando no olho da plateia, pois
acho que quem paga ingresso não está a fim de ser afrontado nem
encarado. Em 20 minutos de peça, você já está íntimo deles e não se
importa com a interatividade. Até gosta! E na catarse final de Let the
sunshine in, quando o elenco convida você para subir, não tem como
resistir. Abracei várias pessoas do elenco, que colocavam margaridas na
cabeça do público. Vi uma brasileira com a mãe atracada ao pescoço do
protagonista no meio do palco e pedindo uma foto, enquanto uma senhora
de 60 anos com uma câmera digital na mão, aos berros, gritava em bom
português: ‘Olha para cá, Berger! Tira uma foto com ela. A gente é do
Brasiiiiiil!’ Nesse momento, a paz e o amor acabaram e eu queria
matá-las. Mas fora isso saí em êxtase”.
(Charles Möeller)
Shrek – “Paguei totalmente minha língua por ter sido preconceituoso e resistir muito a comprar esse ingresso. Valeu muito a pena. O musical é uma delícia! A qualidade da música é a base pra eu gostar de um show, então fui pego de jeito. O que vale é que o tom absolutamente camp de toda a montagem, que, aliás, já era a tônica do desenho original. O espetáculo, embora tendo como alvo um público que inclui crianças, é tão despudoradamente debochado que muitas vezes parece um show de travesti. E eu A-DO-RO show de travesti, então me diverti a valer. Tá aí um ótimo espetáculo pra ser montado no Brasil daqui a alguns anos pela T4F. quando for assim, tomara que eles façam com elenco de primeira linha, comediantes experientes e capazes de fazer os personagens sem parecer imitadores do YouTube!”.
(Claudio Botelho)
9 to 5 – “O musical é cheio de clichês feministas que, hoje em dia, são
para lá de mofados e traz toda a cafonice dos anos 80. Mas é aí que o
frescor reside. A peça se mantém com enorme fôlego por causa da direção
segura, que investe no datado para criar um mundo naif de mulheres
frágeis e choronas, louras que não são só peitos e bundas, executivas
que jamais alcançam uma promoção por pertencer ao sexo frágil, mas que,
no final, se juntam, vão à luta numa linha Malu Mulher e conseguem se
vingar do patrão, marido, e do homem chauvinista. O figurino tem um
sabor especial pelo total desencontro fashion dos anos oitenta, com
muito jérsei, ombreiras e perucas fakes em abundância de cachos e
escovas, no melhor momento Simone, na linha ‘mais é mais’. Deu para
perceber que a plateia ama e vibra com todos os clichês da mulher que
se liberta das amarras masculinas”.
(Charles Möeller)
Guys and Dolls – “É um dos meus musicais favoritos. A música de Frank
Loesser é talvez uma das mais brilhantes partituras de musicais dos
anos 50. Não há uma única canção que não seja eletrizante. Os
personagens são debochados, cínicos, engraçados. Mas não deu pra
aguentar até o fim, saímos no intervalo. Não é que seja ruim. É
péssimo! A começar pelo cenário, que usa e abusa de projeções no fundo
do palco, recurso que ninguém aguenta mais, uma vez que tem sido usado
à exaustão nos últimos cinco anos por aqui. Portanto, este cenário de
G&D não apenas é fraco e pouco criativo, como resulta feio e sem
graça. Os figurinos nem parecem coisa de Broadway. Lembram algumas
montagens amadoras de peças de época, um clima de brechó, nenhum
glamour e nenhuma originalidade. Mas até aí, tudo bem. Tudo seria
aceitável se o elenco fosse de primeira linha. Mas é um desastre“.
(Claudio Botelho)
Next to Normal – “Acho que é a primeira vez que vejo na Broadway um
musical sobre depressão e bipolaridade! A dramaturgia americana ama
esse tema: núcleo familiar destruído exorciza seus demônios. A peça te
faz perguntar o tempo inteiro: o que é ser estável? É evitar assuntos
que venham desencadear problemas? É engolir remédios para amortecer,
anestesiar e guardar o passado numa caixinha de música para não tocar
nas feridas? Esse ano, de repente, tudo muda e damos de cara com o que
parece o grande favorito ao Tony: uma ópera rock claustrofóbica e densa
sobre bipolaridade sem dança, latinos, bonecos ou peito de fora. É
difícil falar da peça sem estragar as revelações. Estou me sentindo em
uma crônica sobre a série Lost com spoilers. Indico para todos que
queiram se arriscar em um espetáculo belo, maduro e pouco
convencional!”
(Charles Möeller)




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