
Um bate-papo informal sobre o teatro musical produzido no Brasil e a trajetória dos diretores Charles Möeller e Claudio Botelho. Esse foi o mote principal do evento “A Dupla que reinventou a arte do musical ‘made in Brazil”, ocorrido na noite de segunda, 6/4, na Casa do Saber (RJ).
O encontro foi mediado pelo crítico do jornal O Globo Jefferson Lessa. Em duas horas de bate-papo com apreciadores do gênero, os diretores abordaram temas como preconceito contra musicais, crescimento do teatro musical no Brasil, dramaturgia de musical, entre outros.
Inicialmente, Claudio fez um panorama da cena musical no Brasil desde as revistas da Praça Tiradentes, passando por montagens importadas da Broadway nos anos 50 e 60, pelo musical de protesto dos anos 70 e o renascimento do musical no Brasil, com biografias de astros da MPB no Rio (anos 90), e a produção da CIE Brasil (atual Time for Fun) em São Paulo, já na década de 2000.
A entrevista foi ilustrada por trechos de musicais da dupla, como “A Noviça Rebelde”, “Beatles num Céu de Diamantes”, “7 – O Musical”, “Sweet Charity”, “Lado a Lado com Sondheim” e “Ópera do Malandro”.
Leia a seguir alguns dos principais momentos do evento:
Sobre o teatro musical nos anos 60/70
“Com o regime militar, houve um declínio do gênero teatro musical que era feito no Brasil. Havia uma identificação do repressor com o modelo americano de entretenimento. O teatro, que sempre foi um lugar de muita resistência, optou por outros temas, indo para um campo de resistência. O teatro musical passou a ser fortemente ligado à política. Surgem então os musicais de Chico Buarque, Edu Lobo, Guarnieri, do Arena etc. Tudo aquilo tinha um viés político que não existia até então”. (Claudio)
Preconceito contra musicais
“Existe um preconceito contra o gênero. O musical é meio híbrido. Ele não é erudito como a ópera. Ninguém é capaz de falar mal da ópera. E há o preconceito pelo musical estar muito ligado aos Estados Unidos. O brasileiro tinha uma relação maior com o teatro de revista, que era naif, trazia tipos populares, como o caipira, a nega fulô e outros tipos brasileiros. O musical, por ser associado aos Estados Unidos, sofre com um ranço de esquerda que permaneceu. É como se você estivesse impondo ao mundo uma coisa alienante. Existem 300 Broadways dentro da Broadway. As pessoas falam da Broadway como se fosse só Holiday on ice. Existem musicais seríssimos, difíceis, de proposta densa e existem musicais só para entreter”. (Charles)
O novo boom do musical no Brasil
“No final dos anos 80 e início dos 90 houve uma retomada de espetáculos musicais no Rio de Janeiro. Eram muito ligados à biografias. Foram feitas biografias de vários cantores, o que até gerou um desgaste. Nós mesmos participamos de duas: ‘O Abre Alas’ e ‘Cole Porter – Ele Nunca Disse que me Amava’, que não era exatamente uma biografia e sim uma fantasia. Ao mesmo tempo em São Paulo começou um novo boom de importações, com a entrada no mercado da CIE Brasil. O primeiro musical que eles trouxeram foi ‘Rent’, que não deu certo porque esse musical não viaja bem mesmo. Ele só deu certo em Nova York. Não funcionou nem em Londres. Depois fizeram ‘Les Miserables’, ‘O Beijo da Mulher Aranha’, ‘O Fantasma da Ópera’, ‘A Bela e a Fera’. Esses espetáculos chegavam aqui com cenário pronto, figurino pronto. Os atores entravam e faziam a peça. Eu participei de todos eles na tradução. Enquanto que no Rio havia algumas propostas que tentavam fomentar alguma coisa, em São Paulo, até pelo poder econômico, os espetáculos vinham prontos”. (Claudio)
“O musical virou de cabeça pra baixo o teatro brasileiro nos últimos 10 anos. Ele lida com uma coisa que o teatro havia esquecido: o público. O teatro era feito para os amigos, para os parentes, para os críticos. O musical trouxe de volta o público”. (Claudio)
“Nós estamos em 2009. Em 98 ninguém jamais imaginaria que seria possível se montar uma ‘Noviça Rebelde’ da maneira como foi feito. Quando eu comecei a fazer musical, tinha um microfone desse tamanho pendurado na testa e tudo apitava. Era um desastre. Evoluiu muito rápido graças ao interesse da plateia”. (Claudio)
“A magia do musical se dá quando ele é linkado em uma única linguagem. Quando o texto conversa com o cenário, que conversa com o figurino, quando a equipe de criação tá toda conectada”. (Charles)
Teatro musical brasileiro
“Eu não agüento quando abro o jornal e vejo alguém montando um novo musical e dizendo: ‘agora vamos mostrar o verdadeiro teatro musical brasileiro’. Parece que nós (Möeller & Botelho) estamos negando as nossas origens. Nós somos dois diretores brasileiros. Se a gente vai fazer um musical, a gente tá fazendo um musical brasileiro. Pra mim a Noviça é brasileiríssima. Se um diretor monta Pinter, ninguém reclama: ‘por que ele está montando Pinter, se ele não é brasileiro?’ Mas se você vai montar um musical americano, começam as críticas”. (Charles)
Teatro no Rio e em São Paulo
“O Rio tem uma cabeça mais cosmopolita. São Paulo ainda tem um ranço forte. Um ranço do teatro do sofrimento, da vertigem, que tem culpa de ser feliz, de ganhar dinheiro, de pagar elenco, dar salário”. (Charles)
O início
“Quando fizemos ‘Hello Gershwin’ com a Claudia Netto e direção do Marco Nanini todo mundo falou que a gente estava doido. Ninguém ia ver. Mas tivemos uma crítica muito boa do João Máximo, que falou bem das versões que o Claudio fez. Do ‘Hello Gershwin’ até ‘As Malvadas” foram muitos anos investindo naquele gênero, tentando entender qual era o mecanismo dele. Quando fizemos ‘As Malvadas’, nós optamos, pela primeira vez no Rio, por um time de atores que poderiam ser cantores. Anteriormente a seleção não era feita para a pessoa cantar, mas se expressar. As pessoas diziam que eram ‘atrizes que cantavam’, como se cantar fosse menor, como se fosse uma vergonha. Quando a gente colocou esses cantores em cena, deu um clique. E a partir daí passamos a investir mais”. (Charles)
“As Malvadas trazia Kiara Sasso, Alessandra Maestrini, Gottsha, Ivana Domenico e Ada Chaseliov. As pessoas que iam ver ficavam surpresas pelo fato das atrizes cantarem muito bem. Não tinha muita concorrência naquela época. Era incrível ver aquelas mulheres cantando”. (Claudio)
Mercado de Trabalho
“Foi um investimento que começou a abrir um leque no mercado. As pessoas que sabiam que podiam cantar começaram a ver que existia um nicho ali para elas. E isso se deu através das audições e através dos atores. Esses profissionais começaram a encontrar um lugar no mercado. Isso fez com que o mercado ficasse mais preparado. Na nossa primeira audição as pessoas cantavam ‘Agonia’, do Oswaldo Montenegro, ‘O Barquinho’…” (Charles)
“Essa mudança de perspectiva para os elencos é absolutamente fundamental. Abriu um campo de trabalho para pessoas que, sem ele, certamente não estariam na profissão. Há muita concorrência na MPB, mas no teatro há um lugar para eles e um lugar honesto. A pessoa tem que ser boa”. (Claudio)
“Não foi só o mercado de atores-cantores que cresceu. O de técnicos também. A quantidade de técnicos no backstage da Noviça é impressionante. São mais de 20 pessoas trabalhando lá atrás. Uma peça regular tem geralmente um diretor de cena, um contra-regra e uma camareira. Não é possível se fazer assim em musical. Em ‘Avenida Q’ há todos os dias, trabalhando no teatro, um elenco de oito nomes, uma orquestra de seis e os técnicos. Ao todo são 30 pessoas trabalhando. Aumentou a quantidade de mão de obra empregada. A especialização é muito grande. É uma realidade”. (Claudio)
Tradução
“Nos anos 50/60, as traduções eram feitas pelo produtor, como o Victor Berbara. Ele traduzia do Espanhol. Quando você conhece as versões em Espanhol, você entende de onde ele tirava aquelas coisas. Não havia nenhuma preocupação com métrica musical. Ele traduzia, colocava a letra e ‘vamos cantar’. Não teve nenhum letrista com essa função na época”. (Claudio)
A MPB e o teatro musical
“A música popular brasileira dos anos 60 pra cá se interessou muito pouco pelo teatro. Tirando Chico Buarque e Edu Lobo, a gente não teve nenhum compositor se dedicando ao gênero. Por isso eu me sinto um herói em ter conseguido trazer o Ed Motta para o teatro. É disso que o teatro brasileiro precisa para que exista um musical brasileiro. Musical só existe por causa do compositor. Não adianta ficar só fazendo biografias, que são só colagens e não têm dramaturgia nenhuma.
Nós já estamos sendo procurados por outros compositores brasileiros, como Carlinhos Lyra, Milton Nascimento, Danilo Caymmi, Francis Hime e o Roberto Carlos, que desejam ter suas obras no teatro”. (Claudio)
Cole Porter
“Foi nosso primeiro sucesso de público. Contamos a vida do Cole Porter através do ponto de vista das mulheres que o cercavam, como a esposa, a mãe, a maior intérprete, as amigas. Ele mesmo não aparecia. Era a vida de Cole Porter sem ele. Só aparecia com uma voz gravada em alguns momentos. Era para ficar um mês, ficou três anos em cartaz, entre Rio, São Paulo e Portugal. Houve um encantamento com o espetáculo que funcionou”. (Claudio)
Company
“A gente conseguiu alguns feitos impressionantes. Tivemos críticas ótimas e conseguimos algo raríssimo em nossa carreira que foi trazer o Sondheim ao Brasil. Ele não sai da casa dele no Central Park para ir à Broadway, mas esteve no Brasil para ver a nossa montagem. E ele adorou a peça”. (Charles)
Dramaturgia de musical
“A dramaturgia de musical é uma coisa específica. Acho que tem que haver milhares de musicais mesmo, mas eu sou apenas diretor de musical. Eu não faço outra coisa a não ser dirigir teatro musical. Eu sei que a luz no musical é diferente, assim como o cenário e o figurino. Dramaturgicamente ele também não é como uma peça comum. Nem todo autor de teatro convencional funciona no teatro musical”. (Charles)
“O público brasileiro tem uma dificuldade enorme de gostar de música que ele não conhece. Todo mundo vai para uma ópera para ver aquela ária famosa. Mas o musical precisa do estranhamento. Existe um compositor que quer que o público goste da música, estranhe a música ou se incomode com a música. O musical é o único gênero do teatro que as pessoas vêem 40 vezes a mesma peça. Isso se dá porque elas têm uma ligação com a música. As pessoas querem escutar de novo aquela música. No teatro musical, a música é a catarse, é onde a ação caminha. Depois da música tudo muda. É onde o monólogo acontece. É o ‘ser ou não ser’ do Hamlet”. (Charles)
“Não adianta só escrever uma peça e enfiar a música lá, como muitos fazem. O que aconteceu com essa febre de musicais biográficos foi justamente isso. A demanda cresceu, os produtores são espertos, os atores querem fazer sucesso. Aí decide-se: ‘vamos fazer um musical’. Escolhem um cantor, escreve-se a história dele e enfiam um monte de músicas conhecidas”. (Charles)
7 – O Musical
“O 7 talvez seja nosso espetáculo de menos público, mas eu me orgulho muito dele. Eu sei que ele é um divisor, assim como Cole Porter e Company foram. ‘7’ é o musical novo, o musical moderno. As pessoas não vão assisti-lo da primeira vez e achar aquela música dissonante legal. Elas vão ter que descobrir, se reeducar. A nossa tentativa é criar plateia. Eu não quero fazer teatro apenas para um público específico. Eu não quero ficar fácil. Senão eu faria o Sassaricando II. O que a gente fez no João Caetano foi uma coisa muito corajosa. A gente apanhou muito. A gente saiu do ‘Sassaricando’ e entrou na semana seguinte com o ‘7’. Mas a gente insistiu e o ‘7’ encontrou o seu público, que não é o mesmo público dos musicais saudosistas”. (Charles)
“O ‘7’ teve trabalhos de atores incríveis. É o último trabalho da Ida Gomes, que faleceu alguns dias depois de fazer a última sessão. Tem um trabalho extraordinário da Rogéria em uma performance incrível, tem a Zezé Motta, a Alessandra Maestrini…” (Claudio)
A Noviça Rebelde
“Eu adoro a peça, sou louco por esse musical. A minha família é de origem austríaca, eu sou o 8º filho, meu pai é militar. Sou totalmente identificado. O que eu mais queria na Noviça era não negar a Noviça. Sou muito resolvido comigo mesmo. Eu não preciso aparecer. Jamais faria uma Noviça com adultos fazendo as crianças, com cenário todo preto… Eu gosto da história. É uma história linda e real. Ele tá no inconsciente de todos porque toca em tópicos de todo mundo. Até os mais duros ou intelectuais se identificam com alguma das questões da peça, seja com um pai durão, a gata borralheira que se casa com o príncipe encantado, com os ideais… A Noviça é um dos maiores sucessos da nossa carreira porque ela é diferente do filme. A gente respeita a ordem da peça. Eu também acho que a nossa Noviça seja brasileira porque as nossas crianças são mais barulhentas, elas sentam no chão, elas abraçam o pai, choram. Isso criou um link com a plateia brasileira”. (Charles)
Fotos na Casa do Saber: Leo Ladeira
Foto 7 – O Musical: Paulo Ruy Barbosa






Enviado por Lulu Joppert em 8/4/2009:
Fui e amei a palestra! A trajetória de vocês é muito bacana! Vocês nos mostraram que o desenvolvimento da qualidade no trabalho de vocês é algo que não acontece por acaso, e sim por meio de muuuito trabalho, ousadia, auto confiança e humildade para aprender com cada experiência! Parabés pelas pessoas que vocês são! Pessoas de sucesso que produzem sucessos!Obrigada pela generosidade de compartilhar suas experiências conosco! Lulu Joppert (preparadora vocal, cantora, produtora e psicóloga).
Enviado por Charles Fouquet em 8/4/2009:
Maravilhosa cobertura, parabéns Leo pela matéria! Gostaria muito de ter ido, mas como não foi possível, a matéria já deu um gostinho do quão maravilhosa e informativa essa palestra foi.
Enviado por LAURA LIMA em 8/4/2009:
Senti muito por não estar lá… Admiro o trabalho de vocês e torço muito para que continuem emplacando sucessos, não só por perceber o crescimento, no Brasil, do gênero ou da técnica que o cerca, mas por reconhecer um estilo diferente de lidar com esse tipo de trabalho. Um estilo que valoriza as pessoas e respeita o potencial e o talento de cada um. Parabéns, Charles e Cláudio, e obrigada pelas grandes oportunidades que vocês dois nos proporcionam! Grande abraço!
Enviado por Charles Moeller em 8/4/2009:
Zaida vc é nossa musa bugre!!!!we love U!!!!
Enviado por Gustavo Katz em 8/4/2009:
Palestra de altissimo nivel, pena que acabou, queria que tivesse durado mais… o papo tava tao bom… Os 2 estão de Parabéns. PS: olha eu la na foto todo compenetrado na 2a fila hahaha
Enviado por zaida valentim em 8/4/2009:
Ler estas palavras de Claudio/Charles me faz sentir orgulho desta trajetória da qual faço parte como amiga, irmã, companheira, admiradora e participante como pianista de muitos dos musicais. Ver alguém acreditar no sonho, trilhar o caminho com afinco e busca pela qualidade só traz alegria. O musical como forma e seriedade vai se firmar cada vez mais e a dupla será sempre referência no gênero pois abraçou como “causa de vida”. Fico feliz pelo crescente sucesso merecido, porque há MUITAS HORAS DE TRABALHO E SUOR NISSO!Vou sempre dizer, obrigada por me deixarem fazer parte desta história, amo voces. bjzzzzzz zaida valentim /pianista
Enviado por Mateus Ramalho Dalla Riva em 8/4/2009:
mesmo tendo 11 anos e não conhecendo vcs pessoalmente +++ já conheço pelos trabalhos e pela categoria q enfocam nos musicais, me sinto um preveligiado por vcs estarem no meu orkut e sabe q vcs são os verdadeiros produtores q estão trazendo os musicais ao Brasil, eu estou construindo uma base no meu inicio de carreira como ator e quero crescer e demostra o meu talento como vcs tem demostrado o seu… ainda quero este ano ter o praze de conhecer vcs!!!! Parabéns pelo bonito papel q tem feito para a cultura do Brasil!!!! seremos parte dela…vlwwwwwwwwwwwwwwww amigos
Enviado por Fred Silveira em 8/4/2009:
Não tenho muito o que dizer sobre a carreira, o talento a energia desses dois. Trabalhar pra eles e com eles num espetáculo que a cada dia me dá mais prazer (Avenida Q), me dá a certeza que eles fazem e vão ser história no Brasil. A cada dia de ensaio eu pensava e agradecia por estar fazendo parte da história deles. Charles e Cláudio, esteja ou não fazendo um espetáculo de vocês, vou sempre torcer pelo sucesso e brilho em suas vidas.
Li a entrevista, gostei sou admiradora de seus trabalhos,principalmente “A Noviça Rebelde”.
Mas, não sei porque esse preconceito quanto ao Sassaricando,
que foi um espetáculo senão intelectual, divertidíssimo, que
homenageou de forma inteligente nossos compositores do passado que fizeram a alegria deste país. E porque não ,então,
o Sassaricando II?