
Charles Möeller, ao lado de Claudio Botelho, observa atentamente a teste de candidato
Foi uma semana muito cansativa, mas muito produtiva. À procura dos jovens atores que farão os papéis de Melchior, Wendla, Moritz, Ilse & Cia, o diretor Charles Möeller foi incansável. Conversou com os candidatos, fez marcas, dirigiu, deu dicas, acalmou, deu segundas chances aos mais nervosos e acima de tudo, esteve o tempo inteiro atento a cada um que passou pelo palco onde foram realizadas as audições de “O Despertar da Primavera” (Spring Awakening).
Do primeiro ao último candidato, de segunda-feira a sábado, Charles tratou todos com o mesmo respeito e carinho, sendo talentoso ou não, conhecido ou não.
Confira a entrevista que o diretor concedeu ao Site Möeller & Botelho, minutos após o término dos testes, no último sábado.
Qual o balanço que você faz dessa audição?
Fico muito feliz porque nós estamos nos profissionalizando muito nessa área de audição. Essa questão da pré-seleção foi muito importante porque evita que tenhamos que escutar milhares de pessoas que não têm a menor noção do que seja um musical, nem a menor ideia do que é a peça que eles vão fazer, que não têm currículo, enfim, são curiosos.
Ao mesmo tempo nós temos oportunidade de escutar pessoas que nós nunca ouvimos, que às vezes não vão ser usadas nessa peça, como já aconteceu várias vezes nos meus elencos. Se vejo uma pessoa ótima, que tem um fogo, uma luz, uma chama, acho que é boa para se guardar. Eu fiz isso com o elenco masculino de “7 – O Musical”. Vários foram reprovados no teste de “Cristal Bacharach”. Isso aconteceu muitas vezes na minha vida.

Charles faz as marcas para teste de candidato
Por que a audição é importante?
A audição é importante para tudo dentro do teatro musical. É para descobrir pessoas novas, para direcionar pessoas, para apontar caminhos. Você pode falar para um candidato se concentrar mais em uma parte, pode aconselhar que ele procure um professor de voz, que dê mais ênfase à interpretação, entre outros toques. Com isso, a gente acaba formando pessoas de audição. Não se pode pensar que é marmelada, que colocamos as pessoas x. Não existe isso. Existem pessoas que têm que estar prontas para a audição. Eu sempre digo que sou justo nas audições. Passo quem for melhor. Eu não passo uma pessoa que penso que ficará incrível, que tem futuro… ou uma pessoa que foi mal em uma audição, mas com trabalho, pode-se dar um jeito. Isso não acontece. Quem fica com o papel é quem fez a melhor audição. Se é desconhecido, se tem carreira, se tem 10 anos de teatro, se fez 20 peças comigo, ou se não fez, isso não interessa. É por isso que a gente faz audição. É um jeito de você fazer um soduco (jogo de quebra-cabeça). Entram o talento, o tipo físico, a voz, a interpretação e se tem química com o resto do elenco, porque assim como em “A Noviça Rebelde”, “7” e todas as peças que eu fiz, você precisa ver as pessoas juntas. Você precisa acreditar que essas pessoas são amigas, estão na mesma classe, moram nesse mesmo lugar. Essa é a minha função aqui, separar o joio do trigo.
Como lidar com o “não” em um teste?
Em uma audição, o “não” não significa um fracasso. O “não” faz parte dessa profissão e ensina muita coisa. Não é que você tenha perdido. É que naquele dia, naquela audição, naquela peça talvez você não estivesse totalmente preparado. Essa é a cultura da audição. Não significa que você tenha que levar uma derrota para casa. Você tem que levar é que você já fez essa audição. Que você fará outra e fará outra. Há pessoas que me falam: ‘poxa, já fiz cinco audições para você e nunca fui aprovado’. Eu falo: ‘Você está cada vez melhor e quem sabe na 6ª vez eu passe…’ Há pessoas que fizeram audições para mim muitas vezes e eu disse ‘OK, agora chegou sua vez’. Não pode ter esse complexo. Essa escola a gente precisa ter no Brasil. As pessoas são muito mal-tratadas pela televisão, que trata todo mundo como gado. Aqui não é gado e não tem comparação de talento. Todo mundo pode ser talentoso ou todo mundo pode não ser talentoso. A gente precisa arrumar um time e um time precisa de uma determinada voz, que às vezes não é tão brilhante como aquela outra, precisa daquele tipo, daquele ator que dá aquela vida pro personagem. Enfim, é muita coisa em questão. Teatro musical não é só um item.

Muitas pessoas falaram ao Site Möeller & Botelho da maneira carinhosa e respeitosa com que foram recebidas por vocês durante as audições…
Eu fui ator durante muitos anos. E sempre fiquei impressionado quando via que algumas pessoas quando se tornavam diretores, se tornavam também detestáveis. Eu não entendo isso. Se a pessoa está ali, ela merece respeito. No momento do teste, os candidatos estão se debatendo com muitos problemas. É claro que há pessoas equivocadas demais, mas se elas estão na seleção, elas acham que são capazes de alguma coisa. Eu nunca seria capaz de dizer para alguém ‘você é um lixo’ ou interromper a pessoa na primeira nota que ela cantar. A pessoa pode estar nervosa, estar com dificuldade, a pessoa pode estar precisando muito de trabalho, de dinheiro, então pra que humilhar? Eu não entendo a política do humilhar. Eu fico impressionado quando me contam que alguns diretores fazem esse exercício babaca de poder, e falam coisas do tipo ‘você é uma merda’, ‘o que você está fazendo aqui’. Ou então fazer piada na cara do candidato. Já soube que houve casos da banca ficar às gargalhadas enquanto um candidato estava se matando de cantar. É por isso também que a gente faz pré-seleção. Se o candidato é pré-selecionado, ele deve ter alguma coisa que a produtora de elenco viu nele. Todo candidato que está no palco está frágil. E é horrível aproveitar um momento frágil do candidato para rir dele. Eu fiz muita audição na minha vida e por sorte fui bem tratado em quase todas as vezes. Quando fui bem tratado, eu fui melhor ator, eu me senti melhor como pessoa e me encorajou para uma próxima audição. Se eu for mal-tratado e humilhado por uma banca, eu não volto para a próxima banca. Então eu como um diretor que precisa de gente nova e que vem renovando os elencos e trabalhando para que eles melhorem, preciso investir em pessoas que estejam prontas. Eu gosto muito de audição. É onde o sonho começa. E é fundamental ter um elenco que parta de mim. Se eu olhar a pessoa e ver “essa é o meu Melchior”, “essa é a minha Wendla”, “esse é o meu Moritz”, eu sei que vou poder mexer com eles. Por isso eu não gosto de trabalho por encomenda, com elenco pronto.
Algumas pessoas não gostam quando atores de TV fazem teatro musical…
Eu não tenho preconceito contra nada. Não tenho preconceito contra ator que vem de televisão, contra ator que nunca fez nada… eu quero que a pessoa seja boa. Algumas pessoas me escrevem questionando o fato de eu chamar alguém de televisão. E daí se ela for boa? E daí se eu acreditar nela? Mas as pessoas precisam saber que isso não é uma regra na minha peça. Ao mesmo tempo eu posso colocar uma pessoa que eu nunca vi na vida. Eu tive uma proposta de um grande ator global pra fazer essa peça como Melchior e uma grande atriz global pra fazer a Wendla. Eles são famosíssimos, lindos, cantores e a gente optou por não chama-los. Enfim, o que conta pra mim é talento.






Enviado por Junior em 29/4/2009:
Eu conheço o Pierre a tempos e amo o trabalho dele!Ele é um P… ator!!(risos). Eu amaria vê-lo de Mooritzz!Beijos
Enviado por charles moeller em 8/4/2009:
Muito obrigado wilson… Te respondemdo: É exatamente por isso que trabalhamos com a Marcela Altberg Cast,desde a noviça. Ela é umas das melhores e mais respeitadas diretoras de elenco do país e tem uma bagagem enorme e sensibilidade pra fazer a pré seleção. E isso só acontece depois de inumeras reuniões conosco pra determinarmos o tipo de perfil pra peça e pra cada personagem. Mas é claro que isso não é uma ciencia exata e que as vzs ficarão de fora muitas pessoas com possibilidades. Mas é humanamente impossivel escutar todos os que se increveram…Nem se quisessemos poderiamos escutar mais de 3000 candidatos que muitas vzs não cantam nem “parabens pra vc”, nem sabem o que é musical ,nem nunca entraram num teatro, e muito menos sabe do que se trata a peça. São só curiosos. A pré seleção é só a tentativa de um primeiro filtro. Pois tem muitos que só tem a voz, outros só tem o tipo;outros só são atores…e outros não sem nenhuma coisa nem outra. Vou te dar um exemplo: -Teve muita gente da comudidade do orkut que dizia: Eu sou Wendla; Eu sou melchior : eu sou moritz, com uma impafia e uma segurança dos grandes …todos foram pré selecionados! Chegaram lá e cantaram como uns bebes sem pai nem mãe abandonados na soleira de um orfanato.Todos Com medo nos olhos, tremeram as pernas, desafinaram , esqueceram o texto, atravassaram o ritmo, não executaram as marcas.E aquela impafia que os faziam dizer que era hora de acabarmos com as panelinhas e que audição era carta marcada e que não davam oportunidades pra os novos e brilhantes talentos: desapareceu… Isso prova que a gente tem que ter humildade e perceber que a vida não é feita de só de sim, e é bem mais facil julgar quando estamos protegidos pela tela de um computador com um perfil numa comunidade do que ali ao vivo na cara do gol! Nada é tão simples! è seleção natural de darwin. sobrevive o mais forte! E que no pega pra capar a gente precisa estar atento e forte , e não temos tempo de temer a morte! Como diria Hamlet: Estar preparado é tudo!Abraços
Enviado por Wilson em 8/4/2009:
Parabéns pelas iniciativas. Tanto a seleção prévia pelo site, quanto o seu depoimento sobre todo o processo acredito que podem se tornar referências nesse novo painel que se desenha na arte no Brasil. No entanto, fica uma dúvida. Será que a pré-seleção sem ser física não tende a deixar passar bons artistas? Vocês mesmo disseram que “que algumas pessoas enganam um pouco pelo vídeo [...] aqui eram totalmente diferentes”. Essa situação pode ocorrer para o bem e para o mal e tanto vocês quanto o artista podem sair prejudicados. Qual a sua opinião? P.S. Não sou artista e não participei de nada. Sou apenas um fã do trabalho de vocês.
Enviado por Ronaldo Dal´Bianco em 7/4/2009:
É isso aê! Foi muito bom ler essa entrevista.
Enviado por Rodrigo em 6/4/2009:
Acho que você nem precisava dar tanta satisfação. O espetáculo é seu, vc coloca quem bem quiser. Acho ótimo que vc dê essa atenção ao seu público. Claro que o público de musicais no Brasil evoluiu muito de uns anos pra cá. Não queremos mais coisas ruins. Estamos “mal acostumados”. Só queremos gente talentosa. Abraços.
Enviado por Thuany em 6/4/2009:
De fato, o Charles e toda a equipe são muito simpáticos. Foi uma ótima experiência!
Enviado por Lucas em 6/4/2009:
É por essas e outras que eu sou cada vez mais fã do Charles.
Enviado por Nell em 6/4/2009:
Tenho um super amigo que fez o teste para Melchior ele admirou a forma como a audição foi conduzida. Ele já fez este papel na escola e sempre disse que o sonho seria fazê-lo como profissional para grande público. Espero de verdade que seja ele o Melchior de Moeller e Botelho. Se ele diz que vocês são especiais no trato com as pessoas então eu também já sou fã, viu? O mundo carece de mais gentilezas e menos solidão.
Enviado por Felipe Teixeira em 6/4/2009:
Me disseram isso mesmo do teste de Spring. Que o Charles é ultra fofo. Não é a toa que essa dupla está no patamar que alcançou.
Caraca! Como vocês parecer ser, digamos, humanos nessas audições. Tiro o chapéu! Sem dúvida os cvandidatos serão melhores atores, melhores como pessoa e sem dúvida mais encorajados para uma próxima audição… Quem sabe até com vocês mesmo.