Fórmula garante sucesso de “Gloriosa”

junho 9th, 2009 Sem comentários

Dramaturgia de autor inglês Peter Quilter e toque brasileiro de Marília Pêra são destaques da comédia

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Luiz Fernando Ramos

Folha de São Paulo – 08/06/09

A comédia musical pode ser um gênero irresistível, principalmente quando se estrutura em boa dramaturgia. “Gloriosa” tem todos os ingredientes de um espetáculo vitorioso.

A começar pela dramaturgia do inglês Peter Quilter. Várias de suas criações recentes tornaram-se fenômenos de público e foram traduzidas para dezenas de línguas. “Gloriosa“, de 2005, estourou em Londres e já foi produzida até na Finlândia.

O segredo de Quilter é ser fiel à fórmula da “peça bem-feita”, inventada no século 19 pelo francês Eugene Scribe, outro campeão de bilheterias: prepare uma situação, prolongue-a até um momento crítico e escape dela com uma reviravolta sensacional.

Todas essas credenciais prévias do texto encontram as mãos treinadas da dupla incansável formada por Charles Möeller e Cláudio Botelho, responsáveis pela adaptação, direção musical e encenação.

Mais uma vez, eles mostram compreensão da maquinaria cênica e fazem bom uso dos recursos disponíveis para vestir o espetáculo com elegância.

Sem contar com as clássicas canções norte-americanas, e as animações de fotos da mulher que inspira a personagem central, a excêntrica milionária Florence Foster Jenkins.

Ninguém melhor do que eles para capturar o estranho glamour dessa personagem em favor da teatralidade. Mas quem dá a marca verdadeiramente brasileira do espetáculo é Marília Pêra, evocando a tradição das grandes atrizes do nosso teatro popular como Estela Sezefreda, no século 19, e Conchita e Dulcina de Moraes, no século 20. Marília, de algum modo, sintetiza essa linhagem histriônica que remete ao circo e não teme o ridículo, e a escola moderna erguida com base na técnica e nos temas elevados.

No espetáculo, ela funde os dois planos, combinando a fala educada e os modos de grã-fina da personagem, com seus desempenhos grotescos como cantora. Só quem já encarnou Dalva de Oliveira e Maria Callas poderia envergar sem peias a voz de Florence Jenkins.

Destaque-se que o mérito maior é mesmo do dramaturgo.

Convicto de que o erro alheio é o primeiro passo para o riso, descobriu o patético dessa personagem real. De tanto se expor às gargalhadas, na inocência de sua completa falta de talento, ela conquistou a glória de uma trajetória trágica.

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