Da Broadway ao Subúrbio

julho 8, 2008
Categorias: Acervo

Estréia nova montagem de Suburbano Coração

Marco Antonio Barbosa

* Publicada originalmente na Veja Rio em 9 de outubro de 2002

Ricardo Fasanello/Strana
Inez, Cláudio, Stella, Charles e Solange: inéditas de Chico Buarque

Eles deram um toque de Midas a adaptações de musicais americanos para carioca ver. Acumularam elogios de crítica e público e viraram sinônimo de teatro musical na cidade. O desafio da dupla Charles Möeller e Cláudio Botelho agora é maior. Depois de encarar com louvor Company, Cole Porter e Um Dia em Shangri-La, os parceiros dão uma guinada e se arriscam em um musical brasileiro: a versão revista e ampliada de Suburbano Coração, peça que só teve uma montagem, em 1989, com canções de Chico Buarque e texto de Naum Alves de Souza. Os anos trouxeram uma aura quase lendária ao espetáculo. Desta vez, Cláudio estará no palco e Charles assina direção, cenário e figurinos. A estréia será nesta quinta-feira (10), no Teatro Café Pequeno, no Leblon. Caberá a Inez Viana o papel da protagonista, Lovemar.

“É nossa grande incursão no musical genuinamente brasileiro”, declara Cláudio Botelho sobre a nova versão, bem diferente da primeira montagem, que tinha como protagonistas Fernanda Montenegro e Otávio Augusto. A dupla trata logo de avisar, antes que algum fã da peça se descabele: todas as mudanças passaram pelo crivo de Naum. Das dezoito músicas que Chico compôs para a peça, apenas dez estavam na montagem original. “Nós colocamos agora todas as dezoito músicas, além de outras de Chico”, explica Charles Möeller. Parte delas é desconhecida, algumas até inéditas em disco. Entre as novidades estão pérolas recuperadas, como Amor Natural, um dueto em cena de Inez Viana e Botelho, e a peculiar Canto Fundo de Frederico. “É um achado, uma canção gay do Chico Buarque”, afirma Cláudio (“Corto o pulso, corto as veias da garganta, se ele quer / me jogo no chão, me rasgo o coração, me visto de mulher”, dizem os versos). As coadjuvantes Trudes (Stella Maria Rodrigues) e Julinda (Solange Badim) ganharam os próprios números. “Antes, Suburbano Coração era uma pequena comédia burlesca com canções. Agora é um musical propriamente dito”, conclui Möeller.

A linha mestra da peça é a mesma. Lovemar, moça do subúrbio, cresce em meio a sonhos românticos nutridos por fantasias cinematográficas. As amigas Julinda e Trudes acompanham suas desilusões: um professor de religião, um pastor evangélico, um cantor cafajeste e um caminhoneiro (todos vividos por Botelho) atravessam sua vida. “É uma vida sem glamour. Mas há uma poesia e um entendimento do universo feminino no texto e nas canções que são muito tocantes”, analisa Inez Viana. A atriz não tem medo de reprisar um papel até hoje só interpretado por Fernanda Montenegro. “Estou me especializando em desafios”, diz a atriz-cantora, que viveu o papel-título do musical Elis: Estrela do Brasil no primeiro semestre. “Infelizmente, apesar de ter feito sucesso, Suburbano Coração só ficou nove meses em cartaz”, conta Cláudio Botelho. “Além de termos deixado o enfoque da peça mais leve que na versão anterior, nossa montagem vai marcar época por, afinal, creditar a peça a Chico Buarque e a suas canções. É a redenção do musical”, acredita.

Uma música inédita

Um amor natural
Que sonho viver
Um amor natural
Quase igual
A um amor de cinema
Igual aos amantes
Que sem treinar antes
Já cantam juntinhos
O tema que diz:
Te dei minha boca
Meus lábios são teus
Meu Deus
Contigo eu fui feliz
Contigo eu fui feliz

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