Os Reis do Dó-Ré-Mi
julho 7, 2008
Categorias: Acervo, Möeller & Botelho
Midas dos musicais, Cláudio Botelho e Charles Möeller estreiam a superprodução A Noviça Rebelde
Debora Ghivelder
* Matéria publicada na Veja Rio em 21 de Maio de 2008
Fotos Fernando Lemos![]() |
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| Botelho (à frente) e Möeller durante ensaio de A Noviça Rebelde no renascido teatro Oi Casa Grande: métodos de trabalho diferentes, mas em sintonia fina
Os acordes dão um ar familiar ao ambiente: “Dó-ré-mi. Dó-ré-mi”. No palco do Teatro Tereza Raquel, em Copacabana, usado enquanto aquele em que farão sua estréia não ficava pronto, o ensaio de A Noviça Rebelde segue agitado. Sentados na platéia, distantes um do outro o suficiente para inviabilizar cochichos, mas não para impedir a troca de olhares cúmplices, os diretores Cláudio Botelho e Charles Möeller observam atentamente a afinação do elenco, que canta sem o apoio de recursos eletrônicos. Os parceiros têm métodos diferentes de trabalho, mas funcionam de um jeito tão sintonizado que parecem xifópagos artísticos. Möeller, responsável pela parte cênica e pela pantomima, anota tudo em um bloco. Cabe a ele, ao fim do dia, destacar os avanços da preparação. Nunca critica de forma rude e saca sempre uma palavra de incentivo. Por sua vez, Botelho, que divide a direção musical com o maestro Marcelo Castro, pouco fala. Quando abre a boca, é seco e direto. Com estilo e personalidade tão diferentes, eles formam um afinadíssimo duo que virou sinônimo de excelência no mundo dos musicais.
Natural, então, a enorme expectativa criada em torno de A Noviça Rebelde, que inaugura na quinta (22) o renascido e rebatizado Teatro Oi Casa Grande, no Shopping Leblon (veja quadro). O 19º espetáculo da dupla é uma superprodução que consumiu 9,8 milhões de reais e envolveu diretamente cerca de 100 profissionais, entre artistas e técnicos. Só o elenco reúne 44 atores. A orquestra, catorze integrantes. Os onze cenários, criados por Rogério Falcão, pesam mais de 6 toneladas. A luz, concebida por Paulo César Medeiros, reúne uma parafernália de 300 refletores. “Resolvemos tudo antes de seguir para o ensaio”, explica Möeller para quem se surpreende com tanto rigor. “Lá, só nos preocupamos com a adaptação dos atores à parte técnica.” Depois de montar musicais de Cole Porter, Stephen Sondheim, Bob Fosse, Chico Buarque, Burt Bacharach e Beatles (veja quadro), os parceiros tinham a ambição de levar ao palco a história da família austríaca Von Trapp, que estreou na Broadway nova-iorquina em novembro de 1959, quando o mineiro Botelho, 43 anos, e o santista Möeller, 41, nem sequer eram nascidos. Eles esperam repetir o sucesso da criação dos americanos Richard Rodgers e Oscar Hammerstein II, vencedora de oito prêmios Tony no teatro e cinco Oscar na popular versão cinematográfica de 1965, estrelada por Julie Andrews. A escolha do projeto foi de Möeller. Três anos atrás, ele dirigia em sua cidade natal uma encenação sobre a chegada do colonizador português Martim Afonso ao Brasil quando perguntou à platéia o que ela gostaria de assistir. “A maioria citou A Noviça Rebelde“, lembra. O primeiro passo foi adquirir os direitos da obra. “Eles queriam saber tudo sobre a gente. No nosso caso, tínhamos referências”, diz Botelho. É verdade. Podem dizer que seu trabalho foi reconhecido por eminências como o produtor inglês sir Cameron Mackintosh. “Tive o prazer de ver Cláudio Botelho estrelando sua bem-sucedida produção de Company no Rio. Fui com Stephen Sondheim e gostamos imensamente”, elogia, por e-mail, o britânico, responsável por blockbusters como Os Miseráveis, O Fantasma da Ópera e Miss Saigon.
A primeira montagem de A Noviça Rebelde no Brasil data de 1965, com letras adaptadas por Billy Blanco. O famoso refrão “Dó é pena de alguém / Ré, que anda para trás / Mi, pronome que não tem / Fá, a falta que nos faz / Sol, o nosso astro rei / Lá, distante que nem sei / Si, de sino e de sinal / E afinal voltei ao Dó” ganhou agora nova versão, assinada por Botelho: “Dó é pena de alguém / Ré, eu ando para trás / Mi, assim eu chamo a mim / Fá, de fato eu sou capaz / Sol, que brilha no verão / Lá é lá no cafundó / Si indica condição / E de novo vem o dó”. Foi no Rio, em 1989, que a dupla se conheceu. Botelho morava com a família na cidade desde os 13 anos. Möeller, que originalmente é ator, tinha acabado de chegar de São Paulo para gravar a novela Mico Preto. Quem os apresentou foi Miguel Falabella, que atuava no folhetim e dirigia Um e Outro, espetáculo com Ítalo Rossi declamando versos de Fernando Pessoa ao som do violão de Botelho. Logo descobriram a paixão em comum por musicais. Instrumentista autodidata, Botelho dominava o assunto. Möeller gostava do gênero por causa dos filmes que vira na infância. Uma paixão velada, diga-se. Como escancarar a predileção por um estilo considerado menor e extremamente americanizado? “Eu tinha vergonha. Fiquei encantado com o modo como Cláudio assumia aquele gosto”, confessa ele, que passara quatro anos nas companhias teatrais de Antunes Filho e Antônio Abujamra. O parceiro, mais desinibido, havia sido aluno do Colégio São Vicente de Paulo, no Cosme Velho, escola conhecida por sua liberalidade. Foi nas suas aulas de teatro que tomou contato com os musicais. “O professor Almir Telles me emprestou um LP do filme Oliver“, lembra Botelho. Foi o início de um hábito de garimpar discos em sebos e de uma paixão desmedida pelo gênero.
Não demorou para que o gosto comum dos dois rendesse frutos. O primeiro, em 1990, foi Hello Gershwin, montagem em que Botelho dividia o palco ao lado de Claudia Neto, com direção de Marco Nanini e cenários e figurinos assinados por Möeller. Só em 1997 veio à cena o que eles consideram seu primeiro trabalho autoral. Baseado em filmes B, As Malvadas ocupou o extinto Teatro Delfin e faturou o Prêmio Sharp na categoria. Depois de um tour pela Broadway, surgiu a idéia de desenvolver algo sobre Cole Porter. Nascia, assim, Cole Porter – Ele Nunca Disse que Me Amava, um divisor na carreira do duo. A peça, que estreou no decadente Teatro de Arena, caiu no gosto do público, virou cult e ficou dois anos em cartaz entre Rio, São Paulo e Portugal. A essa altura, os dois já eram chamados nos bastidores de Lippy e Hardy, numa alusão ao leão sonhador e à hiena pessimista (“Ó, céus! Ó, vida! Ó, azar”) do desenho animado. Mais introvertido, impaciente e crítico, Botelho, claro, se assemelha à hiena. “Cláudio é mais estressado, se descabela”, diz a atriz Kiara Sasso, que faz a noviça na nova montagem. “Quando as pessoas têm alguma dúvida, preferem falar com Charles.” Há certo exagero nessa divisão entre bom e mau. “Cláudio é, sim, exigente. Mas é um amor de pessoa”, derrama-se em elogios o jornalista e pesquisador Sérgio Cabral, pai, co-autor com Rosa Maria de Araújo de Sassaricando (2007), outro sucesso que contou com a expertise de Botelho na direção e Möeller na cenografia.
A sintonia entre eles se limita ao trabalho. Botelho é básico. Sua casa tem poucos móveis, no estilo menos é mais. Já Möelller mistura a modernidade de linhas retas e aço cromado com certo ar barroco que permite lustres de cristal, almofadas bordadas e quadros com imagens de santos. O primeiro é metódico. Acorda às 7 horas, trabalha na tradução ou versão de canções até as 10 horas no computador, vai para a academia meia hora depois, corre na praia e almoça pontualmente às 12h30. À tarde, responde a e-mails e dorme duas horas e meia antes de seguir para o ensaio, por volta das 17 horas. Möeller também acorda cedo, em torno de 7 horas. Trabalha em cima de storyboards e às 10 horas sai para as aulas de conversação em inglês. Na seqüência, dedica-se às aulas de boxe com seu professor, na academia ou no próprio apartamento, no Leblon. Depois do almoço, lê ou estuda assuntos invariavelmente ligados ao trabalho. “Meu dia-a-dia é mais flexível”, diz. Ambos adoram séries de TV. As preferidas de Botelho são House, Law & Order, 24 Horas. O colega é fã de Lost, Grey’s Anatomy, Brothers & Sisters. Botelho é internauta, vive no teclado. O outro adora jogar PlayStation 3. Cinema é um ponto de conversão. Möeller não perde nada. Vê até filme do Azerbaijão com legendas em polonês. Botelho gosta de tramas de ação e mistério. “Meu negócio é descobrir o assassino”, comenta. Ambos têm cães da raça buldogue francês. Botelho cria as fêmeas Nina e Sofia e Möeller diverte-se com Sebastião e Joaquim. Não afeitos a noitadas, são de poucos amigos e não gostam de falar da vida pessoal. Chegaram a dividir um apartamento em Botafogo, nos tempos bicudos. Hoje, moram na mesma rua no Leblon, em prédios contíguos, pagando aluguel. Dizem que ganham, cada um, 20 000 reais em média por mês. Os picadinhos saborosos e simples do início de carreira cederam espaço a pratos e restaurantes mais requintados. “Antigamente íamos jantar em lugar barato. Na semana passada fomos ao Gero”, compara Kiara Sasso, amiga dos dois há doze anos. Para manter a excelente marca de mais de um lançamento por ano, em setembro planejam estrear Avenida Q, em parceria com produtores paulistas. De olho no futuro, já adquiriram os direitos de Gipsy, Sweeney Todd, Kiss Me Kate e Como Vencer na Vida sem Fazer Força. Com tanto esforço e dedicação, Botelho e Möeller, sem dúvida, podem sair por aí cantando dó, ré, mi…
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Teatro rebatizado e modernizado Aberto em 1966 pelos amigos Max Haus, Moysés Ajhaenblat, Moysés Fuks e Sérgio Cabral, o Café Teatro Casa Grande, no Leblon, virou abrigo da boa produção cultural da cidade. Exemplos não faltam, como a comédia O Mistério de Irma Vap, que estreou em 1986 e ficou onze anos em cartaz, circulando por cidades brasileiras e em turnês internacionais. Nas décadas de 70 e 80, foi cenário de ciclos de debates político-culturais, onde se reuniam Tancredo Neves, Fernando Henrique Cardoso, o sindicalista Luiz Inácio Lula da Silva, Rubens Gerchman e Antônio Houaiss, entre dezenas de personalidades. Em 1997, um incêndio encerrou as atividades do teatro, que só agora, onze anos depois, será novamente aberto, rebatizado de Oi Casa Grande. Construído para sediar superproduções, o empreendimento tem nova composição de sócios: juntaram-se a Moysés Ajhaenblat e Max Haus os filhos deste, Silvia e Leonardo, além dos empresários David Zylberztajn, Luiz Calainho e Aniela Jordan – dona da produtora que atua com Cláudio Botelho e Charles Möeller. Requinte e investimento tecnológico são marcas do espaço que literalmente ressurgiu das cinzas. A platéia, de 950 lugares, tem poltronas italianas. A ribalta dispõe de dois elevadores de palco, um robô para levantar cargas e 33 varas de sustentação, que permitem içar até 1 tonelada cada uma. Nos foyers há espaço para exposições, palestras e performances. “Ele está entre os mais modernos do país”, orgulha-se o engenheiro Roberto Kreimer, responsável pelo projeto e pela execução da obra. |









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