Marília Pêra estreia “Gloriosa” em São Paulo

junho 5th, 2009 1 Comentário

Marília Pêra vive cantora desafinada em “Gloriosa”, que narra história de Florence Foster Jenkins

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Após seus recitais, Florence Foster Jenkins (1868-1944), a socialite que causou furor na Nova York do início do século passado ao iniciar carreira no canto lírico, recebia cumprimentos como “esta sala nunca mais ouvirá algo semelhante”.

A atriz Marília Pêra, 66, que vive Florence na comédia “Gloriosa”, cuja temporada paulistana começa hoje, dispensa meias palavras ou frases enigmáticas para descrevê-la: “Era uma gralha, uma genial palhaça, um Oscarito cantando!”. A Folha convidou duas intérpretes do Coral Lírico do Teatro Municipal de São Paulo para conversar com a atriz sobre o folclore que cerca “a pior cantora de todos os tempos”, saudada com mais risadas do que aplausos por nomes como Cole Porter e Noel Coward.

“Ela era boa musicista, dizem que até chegou a cantar bem”, defende Marília. “Mas aí o pai a reprimiu, não se sabe se por machismo. Depois, ela contraiu sífilis do marido e teve de se tratar com mercúrio. Pode ser que, antes disso, fosse afinada. Afinal, tinha notas agudas colocadas. O problema é que não tinha grave nenhum.”

“Acho que ela não percebia a própria desafinação. E também não tinha um compromisso com o profissionalismo, mas com sua felicidade de estar ali no palco cantando”, observa Marta Dalila, 49, primeiro-soprano do Coral.

Jacy Guarany, 57, segundo-soprano do Coral, lembra um “momento Florence” de sua carreira. “Uma vez, tive de me apresentar para uma banca examinadora com um timbre de mezzosoprano [entre soprano e contralto]. Fiquei nervosa, e o agudo simplesmente não saiu. Depois dessa, houve outras, é claro! Toda vez que falam em teste, fico tensa”, diz.

Marta passou por maus bocados num papel secundário da ópera “Lohengreen”, de Wagner. “Estava mudando minha técnica de emissão, tinha perdido o referencial. Entrava sabendo que iria desafinar numa meia-nota de passagem para o agudo. Quando parei de me preocupar, acertei.”

“Areinha no sapato”

Já Marília se intitula “a rainha do erro”. “Me arrisco, dou muito salto mortal sem rede.” Reza a lenda que a frustração da cantora norte-americana ao ler as resenhas (devastadoras) sobre sua apresentação no Carnegie Hall, em 1944, precipitou sua morte. Hoje, qual é o espaço da crítica, feita por especialistas ou pessoas próximas, na carreira da atriz e das cantoras?

“Preciso muito da crítica, gosto de ouvi-la, mas dependendo de quem vem…”, afirma Jacy. “Antes, uma crítica me derrubava. Hoje, não fico feliz, mas se houver uma abordagem gentil… O fato é que é sempre um incômodo, uma areinha no sapato”, completa Marta.

“Os colegas nunca falam o que realmente acham. Antes, eu tentava dizer carinhosamente. Mas ninguém quer ouvir”, diz Marília. Também professora, Marta conta já ter dado aulas para algumas “Florences” em potencial: “Tive duas alunas que sabiam tudo de ópera, mas tinham vozes esquisitíssimas.

Um dia, depois da lição de uma delas, meu marido falou: “Ou ela ou eu dentro desta casa’”, diverte-se Marta. “Mas não desisto de aluno. Encaminho ao fonoaudiólogo, ao otorrino. Se você fala, pode cantar”.

As tecnologias de gravação existentes hoje esconderão muitos desafinados? “Olha, conheço gente que trabalha como backing vocal de uns cantores aí que diz que eles não são tudo isso, não…”, entrega Marta.

“Mas há grandes cantores com vozes pequenas, que não deixam de ser grandes por causa disso. Só necessitam de um coro”, pondera Marília. “É, a questão na música não é ter uma grande voz, mas musicalidade”, concede Marta. “E saber se apresentar, se mostrar”, diz Jacy, que lamenta a ausência da disciplina “música” no currículo escolar. “A pessoa só vai se descobrir na faculdade, mas aí já era. Não estudou, não tem ritmo.” “Ah, mas pode ser uma Florence, pode ter esta sorte na vida!”, contemporiza Marília, em tom jocoso.

Por Lucas Neves – Folha de São Paulo – 05/06/09.

Serviço – GLORIOSA

Quando: estreia hoje; qui. e sáb., às 21h, sex., às 21h30, e dom., às 18h; até 2/8
Onde: teatro Procópio Ferreira (r. Augusta, 2.823, tel. 0/xx/11/3083-4475)
Quanto: R$ 70 (qui.), R$ 80 (sex. e dom.) e R$ 90 (sáb.)
Classificação: não recomendado a menores de 12 anos
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Um comentário

  1. RIBAMAR MORAES disse:

    Boa tarde!

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    Ribamar Moraes

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