Alessandra Maestrini: “7 é um novo clássico”

outubro 14th, 2008 2 Comentários

Atriz, cantora, compositora e versionista, Alessandra Maestrini é uma das mais completas artistas da cena contemporânea brasileira. Dividindo-se entre as gravações do humorístico “Toma Lá Dá Cá” e os preparativos para o lançamento de seu primeiro CD solo, ela recebeu com surpresa a notícia da volta de “7 – O Musical”, espetáculo de Charles Möeller & Claudio Botelho que protagonizou no ano passado. “Faço uma Amélia bem melhor agora”, diz ela nessa entrevista exclusiva ao Site Möeller & Botelho. A atriz-cantora fala também de seus cuidados com a voz, do mercado de musicais e de seus projetos. Com vocês, Alessandra Maestrini.

Como você recebeu a notícia da volta de “7”?

“Eu confesso que quando soube que ‘7’ ia voltar pro Rio de Janeiro, para a Praça Tiradentes – onde a gente fez no ano passado, achei uma loucura. No mesmo lugar? Na mesma cidade? Mas está sendo uma surpresa maravilhosa. É sempre uma alegria saber que ‘7’ vai voltar porque é um espetáculo que eu adoro fazer, que é muito especial. ‘7’ é de uma qualidade que eu não me lembro de ter visto antes. É muito bem cuidado em todos os aspectos, desde o texto, passando por cenários, figurinos, atores, músicas, vozes… Está sendo ótimo. Quem já fazia está gostando mais de fazer. Os atores que entraram agora são um presente. Todo mundo que já havia assistido antes tá gostando mais e o Carlos Gomes é realmente um teatro mais acolhedor. A gente fica mais perto do público, o que para mim é melhor, pois eu lido com a energia do público. O espetáculo está mais quente e mais enxuto. Está com os parafusos apertados. O Charles e o Claudio mexeram aqui e ali e a peça não está mais tão confusa. Antes as pessoas achavam o primeiro ato confuso e que o segundo elucidava. Agora, no primeiro ato, o público acompanha e, no segundo ato, a flor desabrocha. As pessoas saem muito mais felizes, tanto quem já tinha visto como quem nunca havia e diz ‘amei’, de cara. Está muito bom de fazer.

Mais uma vez você está se dividindo entre duas personagens antagônicas, a cômica Bozena e a dramática Amélia…

Mas eu estou fazendo a Amélia de um outro jeito também. Eu a fazia mais dividida em duas. Ela era grave e aguda. Agora a Amélia é uma só, que permeia em estar mais leve e estar mais pesada, como todas as mulheres. Eu consegui também apertar esse parafuso. Ela não está mais em uma gangorra. Ela tem o núcleo do drama e do trágico, com algumas pontuações de comédia. A minha necessidade de ser comediante eu deixo para o Toma Lá Dá Cá. O comediante é sempre um ator trágico. Na verdade existe sobre a vida esse olhar de desespero. E com o desespero vem o famoso ‘só rindo’. O Charles Chaplin é uma grande referência. É um comediante que é dramático ou trágico. Você ri se comovendo.

‘7’ é um espetáculo muito feminino, não só por conta das personagens principais, mas também por causa de elementos do universo feminino, como vaidade, ciúmes, inveja, espelho, apego…

É muito feminino mesmo. E também tem essa coisa da mulher achar que ela só pode ser feliz e inteira se tiver um homem ao lado, se ela tem um homem que a ama, se todos os homens a amam. E na peça tem uma coisa bacana: os homens também são um pouco assim.


A Amélia é vítima ou é autora das desgraças que ela vive?

Na outra montagem eu ficava na dúvida se ela era vítima ou heroína. Nessa montagem eu estou mais forte e a faço mais heroína. O tempo inteiro ela é assertiva. Ela é firme. Ela começa tendo sido traída e querendo se vingar, segue querendo sair da vingança e entrar no amor, e termina sendo traída pelo amor que ela trocou para não se vingar, mas ela é firme. É do tipo que cai de pé, como dizem os gaúchos. Ela envelhece guerreira. É uma heroína que só toma na cabeça (risos).


‘7’ te exige um preparo vocal muito forte. Quais são os seus trabalhos e cuidados com voz?

O ator de musical é um pouco escravo do musical. Não pode dormir tarde, mas também não pode acordar cedo, embora às vezes precise. Quando a gente ensaiou a peça na primeira vez, em todos os ensaios eu dava agudo. Desta vez eu ensaiei menos. Agora eu já conheço os meandros musicais da peça. Eu estudava o que podia e o que não podia fazer no resto do dia pra ter aquele agudo do final do primeiro ato, pois eu ia precisar dele em todos os dias de espetáculo. Então eu pensava, pra eu ter a certeza que vou ter aquele agudo em todos os dias de espetáculo, eu quero ter a certeza que vou ter aquele agudo em todos os dias da minha vida. É diferente do cantor de ópera, que estuda, sai, bebe, mas quando vai se apresentar, passa duas semanas sem falar. Eu não posso fazer isso. Eu gravo durante a semana, dou entrevistas, estou preparando um show. Eu uso exercícios de fonoaudiologia para me aquecer. Eu aprendi com a Dra. Mara Behlau, que é um ícone da fonoaudiologia mundial. Então eu só faço exercícios de fono, não faço vocalise. Se a minha voz falada está no lugar, depois eu resolvo o que fazer com ela sonoramente. Eu sou cross over Singer, que é a que canta do rock à ópera. Com a minha voz falada estando saudável, eu resolvo com qual sonoridade eu quero brincar.

As músicas do espetáculo não são simples, são muito bem trabalhadas…

Todas as músicas compostas pelo Ed Motta foram feitas para instrumentos. Depois é que o Claudio pôs letra para fazer o musical. Então as músicas são compostas com uma tessitura que ninguém tem, nem o Ed. São músicas compostas para violino, não têm respiração. Nessa nova temporada eu consegui descobri respirações novas pra fazer a brincadeira poética sonora que o Ed imaginava. É o que dá a graça poética. Agora eu tô respirando diferente e fazendo o ‘violino’. O Ed compôs músicas dissonantes com uma tessitura para instrumento, ou seja, que não é humano, e por isso, sem a respiração humana. O Claudio colocou as letras, e por conta das letras, o ator se dá o direito de respirar para dar intenção. Nessa nova temporada, além da intenção das letras, eu posso elaborar a poesia musical também. Quando eu estava namorando o Guilherme Bernstein, regente do Municipal, eu passei a ficar mais ligada na ópera, que é a base do teatro musical. Aliás, ‘7’ é um musical muito operístico.


Você é uma das principais atrizes-cantoras do teatro musical brasileiro contemporâneo, que está em um momento de franca expansão. Como é estar vivendo esse momento e como você vê esse mercado?

É maravilhoso não só para os atores-cantores, mas para a arte em geral. Se o mercado passa a se conduzir de tal maneira que você será mais bem-sucedido, vai ter maiores oportunidades, se você souber, além de atuar, cantar e dançar, isso significa que você, além de ser um bom intérprete da palavra, também vai ter que ter um bom domínio de seu aparelho vocal, e um bom domínio sobre seu corpo. Se o mercado te sugere que você deva cantar ou dançar, naturalmente os atores passam a ter um instrumento de trabalho melhor, independente se eles vão fazer teatro musical. Está se criando uma classe artística mais rica, mais elaborada. Se o teatro musical está em alta, o material do ator é melhor. O teatro musical ensina isso. Quando ele for fazer Shakespeare, ele vai estar com os pés no chão e imponente. Ele terá essa ferramenta. Ele vai ter um maior domínio do equilíbrio do próprio corpo. Quando ele for fazer um Tchekov, ele vai ser um cara ‘limpo’ nos seus movimentos. E isso já traz um Tchekov melhor.


Você é atriz e cantora, não uma cantora que virou atriz ou atriz que virou cantora. Como você citou Tchekov, você tem planos de atuar em textos de autores como ele, Shakespeare, Nelson Rodrigues…

Eu gosto sempre de inovar pra mim e pros outros. Mas eu vou fazer Shakespeare quando isso me parecer necessário. Ofélia é um personagem maravilhoso, mas ela tem que estar casada com um momento meu para ser rico pra mim e pra quem está assistindo. Em ‘7’, por exemplo, sinto que sou uma melhor ‘Amélia’ agora. Eu compreendo melhor a Amélia. Eu já vejo a Amélia como uma mulher inteira. Antes eu tinha que compor a Amélia, agora eu sou a Amélia. Tenho vontade de fazer um one-woman show. Seria algo como faz a Denise Stoklos, mas sem imitá-la, claro. Seria mais no sentido autoral, que eu dirigisse e fosse atriz. Também tenho vontade de fazer um monólogo.



E a cantora Alessandra Maestrini? Quais são seus planos?

Eu devo estrear até o final do ano um show em parceria com Alexandre Elias, que é compositor, diretor musical e produtor musical. Terá composições nossas, standards e composições de outras pessoas. É um estilo Bossa Nova Lounge. O CD, que já foi gravado (mas não lançado ainda) já recebeu as bênçãos de Nelson Motta e o show terá uma supervisão informal do Nelson, que ficou super fã do trabalho. As pessoas não vão ver nem a Bozena nem a cantora de musicais. Está mais para a Alessandra central mesmo.

Deixe um recado final sobre “7” para os leitores do Site Möeller & Botelho…

A resposta do público tem sido ótima. Se já havia pessoas apaixonadas, agora há ainda mais. Está lindo o espetáculo. É um dos que eu mais me orgulho de participar. É um espetáculo brasileiro, novo, de uma qualidade nunca antes vista. É uma celebração da parceria do Claudio com o Charles. Ele é moderno e muito à frente do tempo e ao mesmo tempo é um espetáculo mitológico. Mesmo que se diga que é baseado na Branca de Neve, quando as pessoas assistem elas lembram de Medéia, das tragédias gregas. Ele é um novo clássico… ou um clássico novo. Imperdível.

Fotos: Leo Ladeira (bastidores) e Paulo Ruy Barbosa (cena).

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2 Comentários

  1. admin disse:

    Enviado por Charles Fouquet em 15/10/2008:
    Só agora tive tempo de ler tudo, tinha dado só uma olhada antes mas agora de fato li tudo. Entrevista fantástica, só mostra o quanto a Maestrini é perfeita. Pois ela podia muito bem responder rapidinho qualquer coisa e tava ótimo, mas não, nos forneceu seu tempo e deu respostas que só mostram o quanto ela é inteligente, talentosa, simpática, etc. Parabéns Léo e Maestrini, melhor entrevista que eu já li.

    Enviado por Denny Naka em 15/10/2008:
    Parabéns pela entrevista Leo! Ficou otimo!

    Enviado por Isa Faissal em 15/10/2008:
    Ela é uma artista completa. Uma das poucas com esse nível de qualidade no Brasil. Não é só uma atrizinha de TV não – estuda, canta, escreve, sabe falar. Enfim, é talentosa e não fabricada.

    Enviado por Denise Guerchon em 14/10/2008:
    Juliana, a Alê é super inteligente mesmo, concordo com você. Ela fala muito bem, se expressa muito bem, de maneira tranqüila, sincera e muito inteligente mesmo. Digo isso porque já tive a oportunidade de entrevistá-la. Além de ser uma pessoa simples, iluminada. Adoro essa louca!! É uma profissional completa, em todos os sentidos. E uma pessoa maravilhosa. Merece tudo o que conseguiu alcançar (e consguirá).

    Enviado por Daphne em 14/10/2008:
    Quando sai o CD???? Tô louca pra ouvir (me refiro ao CD solo da Maestrini, pois soube que o de 7 está suspenso por enquanto).

    Enviado por Juliana Martins em 14/10/2008:
    Além de linda e talentosa, você também é inteligentíssima, Alê! Adoro a maneira como você fala. Muito sucesso pra você!

  2. Celso Barroso disse:

    Muito legal as duas personagens de Alessandra
    confeso que sou um fã e adoro a personagem Bozena
    de “Toma lá da cá”, e também admiro muito a beleza da
    atriz.

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