Crítica “7″: ” Musical com um sopro de originalidade”

maio 15, 2009
Categorias: Clipping, Críticas

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Mesclando lendas urbanas e contos de fadas, 7 evoca dramaturgia rodriguiana

Crítica: Mariangela Alves de Lima

Tudo que atropela o senso comum cabe no teatro musical, um lugar onde, para começar, as pessoas podem cantar em vez de falar. Nesse domínio de fantasia absoluta, a dupla de criadores formada por Charles Möeller e Cláudio Botelho tem exercitado as vertentes usuais do gênero. Encenam desde 1996 peças brasileiras, musicais norte-americanos de muito sucesso de público, peças que são sucesso de estima e, também, produzem peças de autoria própria. A diversidade desse trabalho erige verdadeiros parques de diversões, imensos conjuntos para multidões com elencos numerosos, prodígios de cenotecnia e coreografias espetaculares, mas também contempla obras ácidas e intelectualmente brilhantes como as canções de Cole Porter ou uma criação de Stephen Sondheim. É provável que todo esse esforço eclético e o trabalho sobre diferentes etapas criativas, da tradução à composição de letras originais, seja indispensável para o aprendizado de um tipo de teatro que solicita em proporções iguais criatividade e preparo técnico. Mas, depois disso tudo, os criadores de 7 – O Musical parecem mais do que aptos para a liberdade autoral.

Neste caso não há sinais de que uma criação com o sopro da originalidade queira divergir das tradições consolidadas. Möeller e Botelho são autores que seguem por algumas trilhas ousadas do musical que já foram desbravadas por outros pioneiros. Há neste espetáculo, por exemplo, recorrência aos contos de fada e às lendas urbanas do passado.

Desde a invenção da ópera, o fantástico e o terrível foram sempre ingredientes usuais da associação entre o drama e a música. Stephen Sondheim, artista particularmente cultuado pelos criadores deste musical, fez duas obras célebres, uma baseada em um apavorante caso policial londrino do século 19 (Sweeney Todd) e outra em contos de fadas (Into the Woods). Os mesmos procedimentos servem aqui a propósitos diferentes e, sobretudo, têm um tratamento que pouco se assemelha ao de outros autores. Também nesta narrativa se mesclam ao conto de fada as versões modernizadas da feitiçaria e, ao fundo, salpicando diálogos e caracterizando a cidade noturna intemporal, a memória diluída das peças de Nelson Rodrigues. Para tramar esses repertórios de origens diversas há, como um tema persistente, o mito órfico. A mulher que desce ao submundo para resgatar o amor perdido sugere a um só tempo o lirismo do sofrimento amoroso e o grotesco da jornada infernal. É essa mescla de duas categorias em geral dissociadas que torna especialmente pungentes a música de Ed Motta e as letras de Cláudio Botelho. Colada à paixão desmedida da protagonista está a contraface do ridículo que ameaça os amantes sem pudor ou escrúpulos.

Não é o ritmo que prevalece na composição das personagens, mas a imprevisibilidade jazzística, a nota sustentada, a melodia com um grau de abertura suficiente para caracterizar situações dramáticas que não têm solução, ou seja, estados de alma em lugar dos acontecimentos decisivos das fábulas. É uma matéria difícil para os atores, porque desprovida de pontos de apoio sonoros ou verbais desconhecidos. Os elementos do roteiro têm uma origem mais ou menos familiar, mas a parte musical desencoraja qualquer clichê de interpretação.

Sob a direção-geral de Charles Möeller, os jovens intérpretes formados e experimentados no canto lírico são, além de esplêndidos cantores, perfeitamente capazes de imprimir à parte dialógica as mesclas estilísticas de lirismo e comicidade. Alessandra Maestrini pode ser uma diva segundo a tradição da cena musical, mas atua como uma disciplinada atriz de ensemble. Inversamente, intérpretes com outra formação musical, como Eliana Pittman, Rogéria e Zezé Mota, conservam os traços fortes das respectivas personalidades, como se fossem solistas. A música respeita e enfatiza a individualidade e, uma vez que o espetáculo não procura submeter essas artistas consagradas a um estilo uniforme, o público celebra a presença de cada uma.

Funcionando como uma espécie de elo de ligação entre as diversas escolas interpretativas mobilizadas pelo espetáculo Suzana Faini é uma extraordinária condutora de trama novelesca. Quando sua personagem narra a história para a criança ouve-se mais o desencanto pelo futuro do que os tempos passados dos verbos. Há alguma coisa insinuante e misteriosa no tom de voz e na expressão facial da personagem. Mesmo no momento em que, ao final da história, desvenda-se o enigma da narrativa, permanece a impressão de ocultamento.

Nesta peça, os moços fazem muito bem o pouco que têm a fazer. Não é a hora e a vez deles. Rogério Falcão emoldurou o palco com as paredes enegrecidas e festões murchos dos antigos contos góticos, criou escadarias para movimentar a cena, efeitos em contraluz e discretas mutações de ambientes. Ainda é muito para um espetáculo que se realiza inteiramente por meio dos recursos dos intérpretes e dos músicos. Fossem mais abstratos e escassos, os elementos cenográficos combinariam melhor com um tipo de espetáculo cuja sedução não se apoia no fascínio da cenotécnica. Esse é outro tipo de musical.

O Estado de São Paulo – 15/05/09.


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Comentários

1 comentário de "Crítica “7″: ” Musical com um sopro de originalidade”"

  1. admin em seg, 18 mai 2009 9:17 am 

    Enviado por Noêmia Maestrini em 16/5/2009:
    O que mais acrescentar a estas muito bem traçadas linhas? Nada que acrescente! Portanto, diante de tal avaliação, que a dupla tenha longa e profícua vida para alegria e gáudio dos nossos públicos aficionados e lúcidos! Parabéns, mais uma vez!

    Enviado por Luciano Fernandes em 16/5/2009:
    Assisti “7″ no último fim de semana e realmente eu fiquei passado! Claudio e Charles, PELO-AMOR-DE-DEUS, leva isso pro exteriooooooor! Isso é teatro de primeira qualidade! Esse é definitivamente um espetáculo perfeito parar mostrarmos que aqui não precisamos ‘copiar’ deles (digo sobre a vinda de musicais da broadway), mas que podemos fazer o nosso e que é tão bom quanto o deles! Achei tudo MUITO fantástico…é incrível…e soube que vão trazer Hair…eu amo Hair e já tinha suspeitado desde que postaram a crítica entusiasmada sobre o musical…já estou me preparando para as audições! Beijos e sucessooooooooooooo!!!!!!!!!!!

    Enviado por Anna Carolina Machado em 15/5/2009:
    Que pena que é uma temporada tão curta! Não dá pra esticar até julho ao menos???

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