Os Marrentos Russos. Atores contam como compuseram os ‘pitboys’ de Anatevka em ‘Um Violinista no Telhado’

agosto 31st, 2011 16 Comentários

 

 

No número de abertura de ‘Um Violinista no Telhado’, o grandiloquente ‘Tradição’, o leiteiro Tevye apresenta as principais figuras da comunidade judaica da aldeia de Anatevka, mas também introduz os “outros” do vilarejo, os que formam uma comunidade bem maior.

 

Os ‘outros’ mencionados por Tevye são os russos, com quem os judeus dividem o espaço em Anatevka. “A gente não incomoda eles, e por enquanto eles não incomodam a gente…”, diz o pobre leiteiro ignorando que destino lhe aguarda.

 

Quem já assistiu ao musical sabe que os russos de Anatevka, especialmente os jovens, são bem ‘marrentos’ e não perdem a oportunidade de demonstrar força e pressão sobre a pequena comunidade judaica. Arrogantes, provocadores e até cruéis, eles acabam praticando uma espécie de ‘bullying’ nos judeus do vilarejo.

 

Interpretando esses jovens abusados está um grupo de talentosos atores, cantores e bailarinos: Arthur Marques, Emmanuel Pasqualini, Fabio Porto, Guilherme Lazary, Tomas Quaresma e Wallace Ramires. Seus personagens têm como uma espécie de líder o tenor Vladimir (Ricca Barros). E o único que se mostra diferente é Fiedka (Cirillo Luna).

 

Seriam os russos os vilões da história? E como nossos atores construíram seus personagens?

 

 

 

 

Marrentos

 

Fabio Porto, que vive Kostia, um dos mais ‘marrentos’ do grupo, conta que no início ‘carregou mais nas tintas’: “Até o Claudio Botelho disse que estava com medo de mim”, ri Fabio. “Com o tempo fui entendendo melhor a história e relaxei um pouco, pois os russos, principalmente naquela aparição da taberna já estão meio bêbados, querem mostrar que aquele espaço pertence a eles. São muito esnobes, sarcásticos e a alegria toda dos judeus começa a incomodá-los. Quando o Vladimir estoura aquele vozeirão, eles se sentem mais ainda e entram com tudo!”

 

“O que vemos na peça não é nem um décimo do que realmente aconteceu naquela época, as atrocidades que eles cometeram, e acho que é aí que o nosso trabalho de ator tem que entrar com força, pois precisamos transmitir toda aquela arrogância e ódio que eles têm. Precisamos passar para o público toda aquela carga de sentimentos conturbados e confusos que eles têm em poucas cenas e fazendo nem a metade do que realmente aconteceu”, diz Guilherme Lazary, intérprete de Boris.

 

Outro marrentão é Zarech, o personagem criado por Tomas Quaresma, que teve até que descolorir os cabelos para ganhar uma aparência mais forte e ‘intimidador’. “Eles se acham superiores. Eles acham que o czar cedeu um cantinho daquele espaço para os judeus, como se fosse um curral. E pode tirar na hora que quiser. E eles acreditam mesmo nisso”, afirma Tomas.

 

 

 

 

Eram os russos de Anatevka vilões?

 

Será que os russos de Anatevka são os vilões da história? Os malvados?

 

Guilherme Lazary lembra que o próprio diretor Charles Möeller questionou, durante os workshops, se os russos seriam os vilões da história. “Eles cumpriam ordens de um czar do qual eles não podiam opinar ou não concordar, pelo menos não abertamente. O czar faz de certa forma quase uma lavagem cerebral nesses soldados russos”, acredita Lazary.

 

“O meu personagem, o Sacha, só existe com o grupo dos russos. Ele não tem muito DNA próprio. Só faz o que o grupinho dele faz. Sozinho não faria provavelmente nada. Por isso acho que ele não é um vilão absoluto. Ele e os demais são um instrumento da política russa contra os judeus”, afirma Emmanuel Pasqualini.

 

Wallace Ramires, o Mishka, concorda com o colega de elenco: “Apesar de toda história sanguinária que envolve esse povo, os russos tinham um lado humano que infelizmente era manipulado por uma entidade maior, os ortodoxos e czares, que faziam com que eles agissem de maneira violenta e fizessem atrocidades. E é desta forma que acredito que o grupo de russos do “mal” age neste espetáculo. São manipulados por um sentimento de exclusão. Quando os judeus se alegram e festejam uma boa notícia, eles não deixam por menos, mostram o potencial impondo certa superioridade amigável (por conta da bebida) na cena da taberna”.

 

 

 

 

Construindo um perfil

 

E como nossos atores-cantores-bailarinos compuseram seus personagens?

 

“A palavra que ficou na minha cabeça foi troglodita. Falei pra mim mesmo: pense nisso. Só que não é um troglodita de hoje em dia, é de época e da Rússia. Então eu penso em deixar o corpo armado, pois sou todo molenga (risos), todo tranqüilo, enquanto que eles estão sempre olhando pros outros com cara de nojo. Eu me imagino aquele pequenininho da turma, que é o mais louco, o mais metido…”, diz Tomas Quaresma. “E eu não sou nada disso! Quando eu me olho no espelho eu não me vejo, e sim o Zarech por causa do cabelo loiro que mudei só por causa da peça! Então é uma coisa de ser tomado mesmo… Quando coloco a roupa de russo e vou pra coxia é como se não fosse mais eu, e não é fácil, porque tenho que lutar contra todos os meus trejeitos, o jeito que me movimento, ando, pego a caneca do bar… fico gritando na minha cabeça: “EU SOU MAL, EU SOU MAL!” (Risos).

 

“Para a composição do Kostia, meu personagem, em particular não tive dificuldades, pois sempre quando danço, seja qual for a modalidade, gosto de trabalhar o lado ator do bailarino para que não fique fake, tem que passar verdade para o público, tem que convencer, tem que sentir. Cheguei a ver alguns vídeos no YouTube de soldados russos, danças folclóricas e não de ballet russo, o que é bem diferente, pois não temos que dançar com a leveza de um bailarino e sim com o peso de um soldado russo, ou seja, diferente do que trabalhamos quando fazemos uma aula de dança. E é com esse pensamento e garra que entramos em cena, uma verdadeira cavalaria russa como diz nosso querido Ricca! Também sou coreógrafo e quando crio penso da mesma forma, procuro sentir o que a música está dizendo”, conta Fabio Porto, que é o dance captain de ‘Um Violinista no Telhado’.

 

“Meu personagem foi uma reunião de informações de interpretação, dança e expressão corporal adquirida ao longo do processo de ensaios ligado aos workshops sobre cultura judaica. Aprender um pouco mais deste histórico foi de fundamental importância, pois consegui fundir o meu pessoal, o que já conhecia com as informações obtidas, dando então uma concreta consciência de como poderia ser formado o “Mishka”, revela Wallace Ramires.

 

Emmanuel Pasqualini conta que construiu seu Sacha como um ‘gigante meio imbecil’, que é malandro e desonesto por oportunidade: “Ele curte o que acha ser o bom da vida sem muita consciência dos seus atos. Ele tem o tipo físico para cometer qualquer horror e assustar qualquer oponente. E acha graça em tudo que faz porque é um imbecil que gosta de bagunça e de emoções fortes. Bebe demais na taverna e esquece que os judeus são inimigos, portanto vai dançar com eles. Tá curtindo a onda só. Ele não tem lógica nem memória. O Sacha é inconseqüente, ele não avalia riscos nem efeitos das sua ações. No final do casamento, ele vai bater no Perchick porque todos vão e que deve ser legal de participar disso”.

 

 

 

 

“uma das coisas que ajudam muito no nosso trabalho quanto russos, é o inesperado em cena, quando alguém (dos judeus) faz algum movimento diferente, olha pra você, ou te toca de alguma outra maneira… isso faz com que esse sentimento venha mais rápido e de uma forma que ainda não tínhamos explorado e a cena sempre acaba sendo mais verdadeira. Acho que esse é o grande desafio de deixar todos os dias aquilo ser vivenciado com verdade”, diz Guilherme Lazary, que no final da cena da quebradeira no casamento de Tzeitel e Motel, ainda dá uma cuspida em Hodel.

 

“A cusparada na Hodel é o ápice da última cena. Quando você acha que já tinha tudo pra dar errado, toda a festa destruída, o Perchick apanhado, o russo ainda vai lá e cospe na Hodel. É um momento interessante porque quando estou me aproximando dela o público que está bem nas primeiras fileiras que é o que consigo ouvir, sempre esboça algum comentário ou suspiros do tipo: – Ai meu deus; – Ai não, o que ele vai fazer? …

 

 

 

 

Fiedka, o “Russo bonzinho”

 

No grupo dos russos de ‘Um Violinista no Telhado’ um se destaca por ser diferente dos demais. Fiedka, apesar de andar com o grupo de ‘pitboys de Anatevka’, salva Chava de um estupro iminente e ainda empresta livros para a moça. A frase que define Fiedka é dita por ele mesmo: “Eu costumo fazer coisas que não devia fazer…”

 

E uma das coisas que ele não deveria fazer naquele contexto era se apaixonar por uma moça judia.

 

Segundo o intérprete de Fiedka, Cirillo Luna, a paixão dele pela Chava fez o personagem refletir em toda crueldade que os judeus sofriam. “Ele pode ter se transformado, mudado a sua maneira de pensar. Acredito que deixou o amor agir. E quando o amor age ele acaba quebrando todas as barreiras, destrói qualquer sentimento de ódio, raiva, faz compreender e aceitar qualquer tipo de religião e cultura, possibilita qualquer ser humano tornar-se mais humano”.

 

Para compor Fiedka, Cirillo pensou em um sujeito desprovido de preconceitos e/ou julgamento alheio. “Ele é Russo, católico e anda com muitos outros Russos. Esses, por questões culturais e religiosas, não vivem uma relação sadia e amistosa com os Judeus da aldeia de Anatevka. E mesmo assim ele foi capaz de se apaixonar por uma judia e lutar por esse amor. Pensando nisso pude entender que o Fiedka era um homem do bem e, apesar de ter também as suas tradições, as suas raízes, não deixou o preconceito ser maior que o amor. Ele simplesmente optou por outro caminho. Para compô-lo coloquei-me uma questão: se de fato eu “fosse” o Fiedka e vivesse a vida dele, de acordo com as circunstâncias propostas pelo texto e pela cena, como agiria e reagiria? Essa pergunta me ajudou a experimentar em cena as diversas situações do personagem e, com isso, vivenciar essa nova “realidade” a partir das minhas experiências, do material humano que existe em mim”.

 

 

 

Em breve, matérias com os outros russos de Anatevka: Cássio Pandolfi e Ricca Barros!

 

 

 

Veja mais fotos do nosso grupo de ‘marrentos’:

 

 

 

 

Fotos: Leo Ladeira. © Copy Right: Site Möeller Botelho.

 

 

 

 

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16 Comentários

  1. Moquinha Eizerik disse:

    Eles são divinos! um show à parte

  2. marrentos nada! todos queridos!

  3. George Luis disse:

    As cenas deles dançando e o vozeirão do Ricca Barros fazem a gente não odiá-los tanto assim, rs.

  4. Carol Machado disse:

    Gatos!!!!

  5. paula sandroni disse:

    como são lindos! adorei saber alguns detalhes da construção dos personagens!

  6. Marisa Sá disse:

    Esse é um momento de puro deleite. Bravo, meninos!!!!

  7. Tatiana Amaral disse:

    Esse grupo é mesmo especial e foi bom conhecê-los mais poucos. Adorei as fotos.

  8. Cassio Pandolfi disse:

    Me aguardem…

  9. Giulia Nadruz disse:

    Adorei as fotos e as entrevistas!! Eles são d+!!

  10. Ada disse:

    Adorei a matéria!!!
    Muito bom ver como eles construíram os personagens!
    Sempre falei que minha cena favorita, de assistir, é “To Life”! Não me canso de ver!
    Como dançam! Como são lindos!!!
    Difícil acreditar que essas pessoas tão doces se transformem nesses personagens durões!
    As fotos estão maravilhosas!

  11. Sergio Stern disse:

    São os marrentos mais queridos que já conheci.

    Bailarinos sensacionais e colegas muito queridos.

    Bravos, soldados !!!

  12. Kelzy Ecard disse:

    queridos, talentosos, companheiros… viva os russos!

  13. Wallace Ramires disse:

    Adoro fazer parte disso tudo!!! Ficou linda a matéria. Adorei.

  14. Arthur Marques disse:

    Não deixei depoimentos pro Léo para a matéria, infelizmente! Mas o Léo tá de parabéns! As fotos e a matéria estão incríveis! Adoro trabalhar com esse povo querido!!!

  15. Ah, antes que eu esqueça… “To Life” é mesmo a cena que mais exige do nosso fõlego! As fotos registraram bem isso! Bjao!

  16. Leo Ladeira disse:

    Só faltou você mesmo, Arthur!!!

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