Em férias na “Grande Maçã”, Charles Möeller & Claudio Botelho analisam para seu Site particular os principais musicais em cartaz na Broadway no momento
Capítulo 8: “Síndrome de Sondheim”
O mais importante acontecimento na história do Teatro Musical americano dos últimos 40 anos atende pelo nome de Stephen Sondheim (foto ao lado). Tudo mudou no gênero e na Broadway a partir de COMPANY, musical de 1970 que finalmente apresentou ao mundo o Sondheim integral (música e letra) e, mais que isso, redimensionou toda a maneira de fazer teatro a partir de então, seja na parte estritamente musical, seja na dramaturgia em si.
Não vou ocupar o tempo e a paciência dos amigos do site estendendo-me aqui por páginas e páginas de elucubrações sobre a obra de Sondheim, sua importância para o gênero ou seu significado de uma maneira mais abrangente. É mais fácil irem ao Wikipedia ou outro site similar para entender isso, e certamente estará muito melhor explicado lá do que por mim.
Mas ontem, assistindo a “NEXT TO NORMAL”, musical com muitas indicações ao Tony deste ano, incluindo melhor score, me veio este pensamento que, inclusive, discuti com um amigo do meio local durante um almoço.
Todo bem que Stephen Sondheim terá feito ao Teatro Musical como um todo, mexendo em suas estruturas, revertendo suas bases, reinventando sua escrita e até sua genealogia – a todo este bem, me parece, corresponde um mal inequívoco: a espécie de “Síndrome de Sondheim” que acometeu os compositores de teatro nos últimos anos.
Quase todo sujeito que escreve música pra teatro hoje em dia se acha na obrigação de ser um novo Sondheim. É muito difícil você ver uma peça nova com canções normais, com “começo-meio-e-fim”, os tais 32 compassos de boa música que tanto apregoavam Gershwin, Rodgers, Kern e os caras que inventaram tudo isso.
Você vai a um musical e dificilmente sai assobiando alguma coisa. Isso não quer dizer que a música é boa ou ruim. Algumas vezes é boa música sim, mas impenetrável numa primeira audição, ou seja, o espectador que está ali sentado vendo aquilo pela primeira vez (sem ter ouvido CD ou fuçado em internet) escuta aquilo, mas não lhe dispara o pulso. Entra na gente como matemática, não como canção. Está tudo lá, os acordes são maravilhosos, as melodias intrincadas e geniais, as vozes mais que bem escritas – mas não vai ao coração.
Não é geral. Vi espetáculos lindos que, apesar de tentarem imitar Sondheim, conseguiam se livrar do seu cabresto e ofereciam grande música aos ouvidos, cérebro e alma. Um exemplo é GREY GARDENS (foto à esquerda), cujos compositores acabam de colocar um fracasso na Broadway que atende pelo nome de HAPINESS (não vi este ainda). Em GREY GARDENS tudo emulava o estilo SS de escrever música, mas havia uma autenticidade qualquer, uma voz própria falando mais alto e deixando a gente sentir que a música era mesmo a vocação inicial do cara que a escreveu, não apenas um alvo a ser atingido no topo da montanha.
Me lembro também de um lindo e esquisitíssimo musical chamado URINETOWN, com música autêntica, moderna, letras sensacionais e um estilo próprio, ainda que – evidentemente – “sondheimiano”. UNRINETOWN é um primor do início ao fim, bebe na fonte de Kurt Weill sem ser ‘difícil’, remete à ópera bufa sem ser velho, relê a velha Broadway sem ser boboca.
Já um exemplo do lado pouco interessante disso tudo é THE LIGHT IN THE PIAZZA. Música absolutamente enfadonha, embora elaborada para que o espectador tivesse a sensação de estar dentro e uma inequívoca obra de arte.
Outro exemplo de chatice: THE ADDING MACHINE. Começa bem, mas depois de 10 minutos você percebe que não é música, é uma exibição de como colocar notas e acordes uns atrás dos outros, sem nenhuma emoção, mas com fortes doses de empenho cerebral.

Não é o caso de NEXT TO NORMAL (foto ao lado). A música aqui é bastante interessante. A dramaturgia é irmã da música. Ambas são fruto de um pensamento coletivo e uma serve a outra perfeitamente bem. Mas dá pena você perceber que o compositor mostra alguns temas que poderiam ir mais longe na emoção e, de uma hora pra outra, desvia o rumo para algo menos simples e muito mais difícil de apreender. A obrigação de apresentarem trios, quartetos, quintetos, diversas sobreposições de melodias e diversas vozes internas nos côros – tudo isso que se tornou regra a partir especialmente do fim dos anos 70, faz com a que a canção pura e simples, aquela que o ouvinte pode levar pra casa e assobiar na esquina, esteja se tornando cada vez mais rara nos musicais da Broadway.
Esta é uma opinião pessoal, claro. Mas me ressinto disso.
Assistir a algo como INTO THE WOODS ou SUNDAY IN THE PARK WITH GEORGE é entrar num mundo de arte maior, é a mais sublime expressão musical que o século XX/XXI tem para apresentar ao apreciador de teatro musical; mas isso só acontece porque é Deus, ou seja, Stephen Sondheim, o autor daquela obra.
Os seus seguidores conseguem, no máximo, deixar a gente com saudade de coisas que nem vivenciamos como a velha Broadway de Rodgers & Hart, os velhos tempos de Lerner & Loew, os temas simples e definitivos de Irving Berlin.
A verdade é que, aos quase 80 anos de idade, Stephen Sondheim ainda não fez nenhum sucessor e não há ninguém (pelo menos por enquanto) sugerindo algo que possa ‘quebrar’ tudo como ele o fez há quase 40 anos.
Assunto pra muitos almoços e muitas discussões.
Claudio Botelho
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Enviado por Marllos Silva em 11/5/2009:
Claudio, Eu concordo quando você diz “não há nada intecionalmente”. Mas quando se cria algo você está se doando por inteiro. É você sem proteção, limpo… Porém, tudo a sua volta interfere na sua obra, na sua criação… e Sondheim é um artista muito presente na sua trajetoria… E li em algum lugar que o Ed Motta é Fã e tem vasto conhecimento da obra dele. (O que pode ser mentira) Por isso “eu” sinta esse sabor no “7″. É algo inevitável se apropriar de caracteristicas de artistas que nos agradam… seja ele um Verdi, um Pavarotti ou um Paulo Autran… Não acho que nenhum compositor deseje ser Sondheim, mas que tenta criar um novo paradigma para suas criações… O meu comentário foi muito centrado na parte musical. Quando citei a noviça era no sentido de comparação musical. Da reação do público em sair cantando os temas, não citei a dramaturgia, apesar de caminharem juntos, mas é algo que também é real e você concorda com a influência. Também não acho que são espetáculos iguais, são díspares em estilo…. Concordo que tanto a Bela, quanto a Noviça tem um estilo mais leve, claro, diferete do “7″ que tem esse lado sombrio e de Teatro Guinol… A minha citação foi por conta de todos estarem aos olhos do mesmo público, o paulistano. O que pode ser irrelevante numa cidade de mais de 19 milhões de Habitantes… E mantenho que o “7″ é um ponto importante da retomada da dramaturgia nacional. E que não vejo mal nenhum em ter um toque Sondheim. Afinal, quantos dramaturgos não se apropriaram da técnica de Albee, Tennesse Willians… e Shakepeare? O “7″ é um espetáculo que não vem sofrendo as frequentes criticas que os grandes musicais sofrem da classe teatral. Que tanto gosta de dizer que musical não é teatro. E na minha opinião isso já é um fato a ser amplaudido. Abraços Marllos Silva PS: Também estou gostando do bate papo. Só a internet para propiciar essa grata troca de informações. Com criadores e apreciadores.
Enviado por Anna Toledo em 11/5/2009:
Ótima, esta discussão! É verdade! Qualquer peça que se pretenda “séria” na Broadway tem que ter uma música meio tortinha, rsrs. Sondheim levou meia vida para burilar seu estilo musical, no entanto. Creio que vem daí a sua consistência e também o seu poder revolucionário. Ele conhecia bem o terreno que estava ultrapassando.//E também sinto em “7″ um perfume de Sondheim, sim,talvez pela complexidade das melodias e das harmonias dissonantes que ajudam a contar a história. Mas, no caso, acho isto uma maravilha.
Enviado por Claudio Botelho em 10/5/2009:
Marlos, claro que concordo em parte com o que você diz obre o “7″. Muito em parte mesmo, pois como sou participante de todo o projeto, sei que ali não há nada intencionalmente ligado ao Sondheim. As músicas de “7″ vêm sendo escritas dsde o fim dos anos 90 e chegaram para nós, sem letra naturalmente, após uma reunião que o Ed Motta fez de suas próprias criações que ele julgava terem um caráter teatral. Não vejo nada ali que lembre Sondheim, nem nas harmonias e menos ainda nas melodias. E todas as intervenções de “7″ são em forma de canção, não há recitativos nem mesmo trechos musicados desprendidos de uma canção em si. Não tenho mais distanciamento para considerar aquilo assobiável, já que eu mesmo assobio tudo, claro. Não é uma música fácil, não é exatamente algo muito fácil de digerir numa primeira audição, mas me parece muito mais ligada a experiências próximas de Leonard Cohen do que realmente a Sondheim. Já a história tem sim parentesco com Into The Woods e, pela atmosfera sombria, com Sweeney Todd. Mas ambos são espetáculos também que jogam com pastiche, seja de histórias infantis quanto de teatro de Grand Guinol, de modo que no fundo tudo são adapatações de adaptações… Nãoconsigo imaginar nenhuma possibilidade de comparação de SETE com A NOviça Rebelde ou com A Bela e a Fera, que são espetáculos luminosos, feitos para agradar um público de crianças, e não têm anda de experimental em suas formas. Estou adorando a discussão, depois escrevo mais.
Enviado por Marllos Silva em 10/5/2009:
Claudio, Acho isso tudo muito bem colocado. E o que vou dizer aqui é extremamente pessoal, assim como são suas postagens. Mas eu acrescentaria a sua lista o SETE. Pois é exatamente o que eu senti e sinto até hoje ao ouvir as músicas do espetáculo. Mas, eu não colocaria como uma obrigação dos autores de se tornarem DEUS. Mas, que ele é a maior referência Dramaturgica da atualidade. E por isso a constante referência. Assim como acho que o SETE é um espetáculo que bebeu muito da fonte de Sondheim. Fato que nunca foi negado pelos criadores. E tenho essa opinião pela resposta do público paulistano, não vejo o público sair cantando nenhum dos temas, não sinto o envolvimento do público, mas eles tem gostado. O efeito que acontece com a Noviça ou a Bela e a Fera, que podemos ver muitos temas serem cantados. Claro, que são exemplos até certo ponto injustos diante da massificação e de serem músicais intrínsicos na memória de todos, mas é um fato percepitivel à olho nú. E quando cito o público levo como referência o público não artista, a grande massa. O espetáculo conta com músicas maravilhosas, arranjos lindos e com caminhos musicais interessantes. Mas sinto a falta nas músicas de que elas terminem, um fim. Claro, que esta é a minha opinião. E dentro dela me permito inserir que SETE é um divisor de águas da dramaturgia nacional. E a partir do sucesso dele poderemos em breve visiornar mais dramaturgia nacional direcionada a Teatro musical sendo encenada. Pelo menos é o que espero. Abraços Marllos Silva
Enviado por Claudio Botelho em 10/5/2009:
Grande e querido Ary: estamos em NOva York, super felizes de ver seu nome aí no site. Mais felizes ainda que tenha gostado do Avenida Q!!!! O elenco deve ter adorado sua presença lá… ONtem vi a última peça da Yasmina Reza, God of Carnage, elenco sensacional e peça genialmente simples e bem escrita. Um primor de comédia! Quando aparecer por aqui não perca… E tem um papel que é a sua cara! UGrande abraço e obrigado por escrever, Claudio @ Charles
Enviado por Ary Fontoura em 10/5/2009:
Assisti Avenida Q, hoje, sábado,com um teatro lotado e uma plateia como eu, maravilhada! Tudo é bom e extremamente gratificante.O trabalho seu, Claudio e do Charles, cada vez melhor.A orquestra excelente.Parabens ao tambem notável elenco que defende, como ninguem, um espetáculo vigoroso e extremamente profissional.. Obrigado. Ary Fontoura
Enviado por Kalinde Braga em 10/5/2009:
São posts coerentes e ponderados como esse que me fazem deixar um obrigada por essa delícia de site! Um beijo pra vocês.
Carissimos,
Sempre que entro aqui no site e leio seus textos fico muito feliz. Sou cantor classico e a há pouco comecei um paixao por musicais. As materias que mais curti na faculdade foram: Historia da música no Brasil, Historia da música Ocidental e Historia da musica do seculo XX. Entrando nesse site vejo que estou numa aula de historia dos musicais. Adimiro a sua inteligencia no assunto e como o expoe. vendo sua “preocupaçao” na evoluçao dos musicais me leva a pensar na evoluçao da ópera. Imagina aquela galera de antigamente imaginando o que seria o futuro da ópera!! Gosto de ver tudo com uma visao tecnica, como tudo se desenvolve, e nos musicais tudo isso é muito intenso. Sou umleigo nisso tudo, mas té uma paixao que esta nascendo e fico feliz por ter um site como o seu pra me esclarecer as coisas.
Obrigado e parabéns pelos trabalhos, assisti alguns e me apaixonei pelo profissionalismo da galera!
Abraço