Charles Möeller: “God of Carnage”: Um Espetáculo de (grandes) Atores ou A Carnificina do Casamento

maio 10, 2009
Categorias: Artigos

Em férias na “Grande Maçã”, Charles Möeller & Claudio Botelho analisam para seu Site particular os principais musicais em cartaz na Broadway no momento

Capítulo 9: “God of Carnage”: “Um Espetáculo de (grandes) Atores ou A Carnificina do Casamento”


Nem só de musical vive meu coraçãozinho, ontem fui assistir ‘God of Carnage’, com um dos elencos mais brilhantes que já vi na vida: os famosos e premiadíssimos Jeff Daniels, Hope Davis, James Gandolfini e Marcia Gay Harden. A peça é da super cult Yasmina Reza e tem direção minimalista de  Matthew Warchus. É um exemplo do que os brasileiros adoram chamar de “um espetáculo de ator”.

Tudo começa com uma reunião dos casais, que se encontram pra discutir como resolver de maneira civilizada e analítica uma briga entre seus dois filhos no playground. Mas esse é apenas o ponto de partida, dessa comédia de humor negro, que provoca risos descontrolados na platéia, por chegar a situações limites e catárticas, como crises de vômitos, vasos sendo atirados, flores despetaladas, lutas em sofás e telefones celulares afogados em aquários. Lembra muito “Quem tem medo de Virginia Woolf? (de Edward Albee, 1962), mas aqui é uma comédia hi-lá-ria!

‘God of Carnage’ é sobre a carnificina do casamento. A ação beira ao bizarro e à violência, não fosse feita com muito humor e leveza. Tudo começa muito cerebral e matemático, mas à medida que a peça se desenrola, a tensão entre eles vai aumentando e a superfície civilizada vai dando lugar a um instinto pra lá de selvagem. Esse jogo de tensões e explosões no melhor estilo ‘roupa suja se lava em casa’ faz dessa comédia um programa imperdível (recentemente ganhou o Olivier Award em Londres, de melhor comédia).

Entretenimento garantido com verniz intelectual


O texto, como outros de sua autora, trata de desnudar o comportamento da classe média alta. Fazendo esse strip, vemos Ladys Di se tornarem D. Xepas…

A peça fala de dois casais ricos do bairro do Brooklyn.

Alan (Jeff Daniels – foto à direita), um advogado corporativo, e Annette (Hope Davis) vão  ao apartamento de Michael (James Gandolfini) e Veronica (Marcia Gay  Harden), uma escritora, para discutir a melhor forma de lidar com um problema comum. O filho de Allan atingiu o filho de Michael com um pau, quebrando dois de seus dentes da frente. Eles se reúnem para discutir, logicamente e amigavelmente, a forma de lidar com os rapazes. “Felizmente”, diz Veronica, a mais elevada de espírito do grupo, “ainda existe gente que se importa com a arte da convivência”.

Claro que não é nada disso. Logo as fissuras nesse telhado de vidro tornam-se evidentes.

Desde o início percebemos que os dois casais estão em pé de guerra e que é uma questão de tempo antes de partirem pro ataque, dividirem a culpa da violência dos atos dos filhos e se atacarem frontalmente e fisicamente até. Quando as máscaras caem, a polidez civilizada do inicio dá lugar a seres vândalos que se esbofeteiam em cima de sofás e destroem a sala de casa deixando claro que  somos todos controlados pelos nossas vísceras. Isso fica explícito quando Annette vomita (num truque teatral impressionante) toda a mesa de café em cima de uma precioso coleção de livros de arte de Veronica.

A peça é quase uma tese comportamental da degeneração das relações dos dois casais. Mas o jogo é muito mais interessante, pois assistimos a um balé coreografado milimetricamente pelo diretor. Compartilhamos o tempo inteiro das emoções e alianças que se formam e se separam entre o seu irascível quarteto. O cafezinho é logo substituído pelo rum e a sala vira um ringue. O divertido é que existe uma eterna troca de parceiros, entre rounds, mas nada disso seria possível se o texto maravilhoso não encontrasse lutadores à altura.

A peça tem como cenário fixo uma linda sala vermelha (sangue rsrs), luz geral, figurinos pretos e mais nada! É o elenco que faz você não respirar durante quase duas horas sem intervalo.



Simples e Magistrais


James Gandolfini, de quem sou fã de ir falar no final (faço isso só em casos extremos de tietagem, hoje em dia é claro), é  um homenzarrão de 200 metros com muitos e muitos quilos, um carisma absurdo e voz cavernosa. E faz um Michael cheio e silêncios e explosões. É o tipo de ator que amo, aquele que não faz nenhum esforço! Mesmo nos ataques de ira e choro e mesmo rolando no tapete com a mulher aos sopapos ou fazendo voz de bebê com a mãe no telefone parece que o faz sempre relaxado e com o pé nas costas.

Muito antes de Tony Soprano (de “Família Soprano”) já era louco por esse ator. É só conferirem o gay assassino que ele faz no fraco “A Mexicana” e verão que existem muito mais do que Tony Sopranos!

Marcia Gay Harden é um monstro de talento e de rachar de engraçada. Quando luta pelo controle da garrafa de rum com Gandolfini tive uma descompensação de tanto rir.

Pois ela tem mais ou menos um metro e maio – bate na cintura dele e, numa das seqüências mais hilárias, literalmente voa em cima dele o jogando no sofá e o socando. É antológico. Hope Davis fazendo a ansiosa e nauseada Annette,  que passa a metade da peça com uma bacia de plástico vomitando, é sensacional e Jeff Daniels como o advogado insuportável, que fica mais no celular do que em cena, é um achado!

Deviam dar um Tony de elenco, pois é impossível destacar apenas um trabalho. Como eles não fazem nada e ao mesmo tempo têm a peça nas mãos, não exageram, não tiram a cueca pela cabeça, não fazem patacoada. São simples e magistrais.


Charles Möeller

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Comentários

1 comentário de "Charles Möeller: “God of Carnage”: Um Espetáculo de (grandes) Atores ou A Carnificina do Casamento"

  1. admin em seg, 25 mai 2009 2:51 pm 

    Enviado por Noêmia Maestrini em 12/5/2009:
    AGORA FIQUEI COM MAIS ÁGUA NOA BOCA, AINDA…ADORO “TRABALHO DE ATOR”…VALEU, QUERIDO!ESTOU AMANDO ESTA SÉRIE DE COMENTÁRIOS…ISSO É QUE E´PRIVILÉGIO NA BIG APPLE, HEIN? FALA SÉRIO! UMA PEÇA POR NOITE?! BAH! QUE MARAVILHA! ISSO É VIVER!!! BEIJOS DA nÔ

    Enviado por Anna Toledo em 11/5/2009:
    Nossa, tinha lido sobre esta peça na Vogue, rsrs. Estava curiosa para ver. Gosto da Yasmina Reza desde “Três Versões da Vida”, montada aqui em São Paulo. O texto dela é muito bom. Bateu uma mega-vontade de ver uma peça com o James Gandolfini. Putz…

    Enviado por Jorge Nascimento em 10/5/2009:
    Charles, adoro ler suas críticas. O Globo devia contratar vc como crítico. São deliciosas e nos conduzem ao espetáculo. Eu me sinto como se tivesse visto a peça. Impressionante. Acho que ia adorar essa, pois gosto do estilo “Quem tem medo de Virginia Woolf”.

    Enviado por Maria Helena S. Novaes em 10/5/2009:
    Só tem ator fera aí. Jeff Daniels e Marcia Gay Harden são dois monstros. James Gandolfini não fica atrás. Maravilhosos!

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