Beatles revistos num palco brasileiro

agosto 3rd, 2008 Sem comentários

fotogloboleoladeirahl1

O Globo – 07/01/08

Quase quatro décadas após o fim do grupo, com suas canções sendo regravadas por artistas de todo o mundo, ainda é possível criar algo original a partir da obra dos Beatles? A dupla Charles Möeller e Cláudio Botelho, que trouxe para os palcos brasileiros o padrão de qualidade da Broadway, topou o desafio, que será testado a partir desta quarta-feira, quando estréia, às 21h, no Espaço Sesc (Rua Domingos Ferreira 160, Copacabana), o musical “Beatles num céu de diamantes”.

São 11 atores e cantores — quase todos saídos da última produção de Möeller & Botelho, em parceria com Ed Motta, “7 — O musical”, que, em março, depois de quatro meses em cartaz no Rio, estreará em São Paulo — e três músicos no palco, interpretando 50 canções dos Beatles, algumas emendadas em pot-pourris.

Enredo cita “Alice no País das Maravilhas”

Sem usar diálogos, Möeller e Cristiano Gualda (também no elenco) elaboraram o enredo a partir das letras, em inglês — “Eu seria morto, logo após a estréia, se tentasse fazer versões”, brinca Botelho —, estabelecendo um paralelo com a obra de Lewis Carroll.

— Entre os pontos de partida estão “She’s leaving home”, que abre o musical, e “Lucy in the sky with diamonds”, que, com sua atmosfera psicodélica, serviu de elo para “Alice no País das Maravilhas” e “Alice através do espelho” — conta Möeller, lembrando que os Beatles jamais criaram algo específico para o teatro e que, só depois de ter concluído o roteiro de “Beatles num céu de diamantes”, ele foi assistir ao recente filme “Across the universe”.

— No filme, são criados personagens a partir das canções, e nós evitamos essa opção, que seria mais óbvia. O que fizemos agora está mais próximo da solução que encontramos para as marchinhas do musical “Sassaricando”, também sem diálogos.

E, no ensaio acompanhado pelo repórter, “Strawberry Fields forever”, “Blackbird”, “Here comes the sun”, “Eleanor Rigby”, “Golden slumbers”, “Help” e “I am the walrus” soam bem, interpretadas solo ou em coro pelo afinado elenco, com arranjos vocais assinados por um dos atores, Jules Vandystadt.

Os arranjos da pianista Délia Fischer (que também está no palco, ao lado do violoncelista Luciano Corrêa e do percussionista, ator e cantor Jonas Hammar) exploram a inesgotável musicalidade dos Beatles e, em alguns momentos, fazem curiosas citações. Em “While my guitar gently weeps”, por exemplo, Délia injeta um trecho de “Cais”, um dos clássicos de Milton Nascimento e Ronaldo Bastos lançados no álbum “Clube da Esquina”.

— É impressionante a afinidade musical entre o disco de Milton e a música dos Beatles — comenta Délia.

Botelho completa: — E nos temas das letras também, com a exaltação da amizade, do amor.

Fecho de um ciclo para uma atriz e cantora Já uma das atrizes, Marya Bravo, lembra-se de outro elo, este pessoal, com o quarteto: — Minha mãe, Lizzie Bravo, gravou com os Beatles, no coro de “Across the universe”. Fã do grupo, ela tinha ido a Londres (em outubro de 1968) e estava na frente do estúdio de Abbey Road quando Paul McCartney foi até a porta em busca de alguém capaz de emitir uma nota aguda. Parece que é um ciclo que se fecha agora.

Para Möeller e Botelho, que ainda têm no currículo musicais como “Tudo é jazz”, “Cole Porter — Ele nunca disse que me amava”, “Sweet Charity”, “Company” e “Cristal Bacharach” e, em abril, serão os responsáveis pela reabertura do Teatro Casa Grande com uma nova montagem, “A noviça rebelde”, o passeio pela obra dos Beatles também pode ter um positivo efeito colateral: a formação de um novo público para o gênero.

— Suas canções continuam atraindo os jovens. Eu gostaria de ver mais jovens freqüentando teatros — diz Möeller.

Canções que, agora, capturaram até Cláudio Botelho, que sempre foi mais ligado aos standards prérock‘ n’roll: — Nunca tinha parado para ouvir os Beatles e tive boas surpresas, mas prefiro suas canções com outros intérpretes, em discos como “Motown meets the Beatles”, no de Sarah Vaughan ou no do grupo vocal inglês The King’s Singers — diz ele, que agora tem seu próprio elenco tentando provar isso de novo.

Publicado originalmente no Jornal O Globo em 07/01/08.


Tags: , , , ,

Deixe um comentário



Cadastre-se

Receba as novidades cadastrando seu e-mail.