Direto de Nova York, Charles Möeller & Claudio Botelho analisam os principais espetáculos em cartaz na Broadway no momento
Vou começar este texto lembrando a todos que não sou crítico de teatro. Vou ao teatro para ver o que pode me divertir, emocionar ou, no mínimo, me tirar de mim mesmo por umas boas duas horas… O fato de estar na profissão não me dá nenhum crédito para falar dos espetáculos alheios algo mais do que “gosto” ou “não gosto”. Isso é para os críticos.
Dito isto, vamos lá: A-DO-REI a FAMÍLIA ADDAMS, o musical!!!
Pra começar, não sou íntimo daqueles personagens, conheço o pouco que vi na televisão e nem é o tipo de seriado que eu goste, já que minha fixação são definitivamente os seriados policiais, de júri, sequestros, gente sendo assassinada, e o que mais Se puder imaginar nesta área… Portanto, ”The Addams Family” na TV nunca foi meu prato favorito.
Mas um musical é um musical. E o que mais me faz gastar 130 dólares em espetáculos da Broadway é acreditar que posso ouvir um tipo de música que me agrade, ou seja, música de teatro. E confesso que fui ver a FAMÍLIA ADDAMS cheio de medo de que eu fosse ouvir aquele tipo de canção que anda na moda na Broadway ultimamente, o tal do “indie-rock” (ou lá como se escreva isso), ou ainda o abominável “rap”, ou música que você pode perfeitamente ouvir no rádio, ou pior de todos: os imitadores de Stephen Sondheim que escrevem “música difícil” pra mostrar pra você que são ótimos alunos de harmonia de Berkeley e que assobiar uma canção no final do show é coisa pra gente decadente e pouco antenada .
Bom, mas neste caso aqui, de cara já fui surpreendido por uma música deliciosa de Andrew Lippa, autor da música e das letras, que tem pouca estrada na Broadway (fez apenas “The Wild Party” que é ótimo, e algumas canções extras em “You´re a Good Man, Charlie Brown”). As canções de “The Addams Family” são o ponto alto do espetáculo, com letras engraçadíssimas, cheias de humor negro e muito cinismo, como é de se esperar de um espetáculo baseados nestes personagens. Há muito ritmo latino nas canções, um tango sensacional no segundo ato (“Tango de Amor”), que é um número onde Morticia e Gomez dançam depois de cantarem, e que proporciona em seguida uma das melhores coreografias do espetáculo para Morticia e o coro de bailarinos. Outro número excelente é o quarteto “Let´s not Talk About Anything Else But Love”, com Gomez, Mal, Uncle Fester e a Vovó Addams, um delírio no estilo de Cole Porter (a canção é quase uma paródia de uma das “list-songs” de Porter, “Let´s Not Talk About Love”), que traz um gosto de ‘velha Broadway’ ao centro da cena, o que aliás aparece em diversos outros momentos. Virei fã de Andrew Lippa assim que baixou o pano, quero ver e ouvir tudo o que ele fizer a partir de agora, já que dificilmente consigo me interessar por compositores de teatro nos últimos tempos, pois fico sempre esperando escutar algo que só ouço mesmo nos revivals.
O espetáculo foi muito mexido desde a estreia há alguns meses fora de Nova York. Trocaram de diretor, mexeram diversas vezes no texto, mudaram músicas, foi um tipo de produção bastante traumática e cheia de problemas até chegar ao Lunt Fontanne Theatre, que é um dos maiores teatros de Nova York, e um dos mais cheios de recursos cênicos para espetáculos de grande porte. Não faço ideia do pesadelo que viveram antes da estreia, nem mesmo do que rolou por trás do pano até chegarem aqui… Mas isso também não interessa, pois estou assistindo ao que está na minha frente, e não o que não chegou a nós na plateia. Deste modo, o cenário é bastante complexo, grandioso, talvez um pouco monumental demais, mas não deixa de ser bonito e gótico na medida certa. Os figurinos são lindos e as caracterizações são coisa de cinema: você está vendo o que viu na TV em preto e branco, sem tirar nem pôr. A luz é o padrão Broadway, ou seja, dificilmente você vai ver uma iluminação ruim ou mal feita num espetáculo que chegou a estrear ali. O mínimo de garantia é sempre ver um espetáculo bem iluminado, mesmo quando a proposta é trabalhar com muita escuridão e sombras, como é o caso de “Addams Family”.
O elenco é um caso à parte. Kevin Chamberlin como Uncle Fester é um ladrão de cenas, no melhor sentido da palavra. Super protegido pela adaptação, o personagem ganha número fantástico no segundo ato, algo entre entre o lírico e o grotesco, onde Fester dança com a Lua, sua namorada. Jackie Hoffman, que faz a Vovó Adams, é outro acerto: fala pouco, tem apenas alguns trechos em canções, mas é hilariante e tem as tiradas mais ferinas da peça. Uma delícia de composição!
Mas o casal de protagonistas é mesmo o destaque absoluto. Primeiro, Bebe Newirth, uma estrela da Broadway, como Morticia. Ela é o personagem, com sua voz rouca e sensual, sempre parecendo de mau humor, com um charme incrível, e num papel que inclusive nem é à altura da sua carreira e do seu talento.
Contudo, a noite e o espetáculo são de Nathan Lane. Sou suspeito pra falar dele, pois sou mais que fã: sou obcecado por Nathan Lane. Desde que o vi num palco pela primeira vez fazendo “Guys & Dolls” em 1996”, tornei-me um seguidor de Lane, não deixei de ve-lo em nenhum espetáculo em todos estes anos. De lá pra cá ele se tornou top billing absoluto, ou seja, um nome que sempre vem antes do título. Isto é para poucos no teatro, e Lane nem fez a habitual passagem para Hollywood (fez poucos filmes e não é um astro internacional, digamos assim); continua um ator da Broadway e dos musicais, como sempre. Já vi Nathan Lane em espetáculos inesquecíveis como “The Producers”, onde ele era o show em pessoa, e também em espetáculos menos vitoriosos como o tedioso “The Frogs” de Stephen Sondheim, que Lane ajudou a re-escrever e levar à cena. O show era um pouco chato, mas Nathan Lane fazia a gente aguentar até o fim.
Aqui na FAMÍLIA ADDAMS, no papel do patriarca Gomez, ele tem um personagem que lhe exige pouco, pois Nathan é muito parecido com seu Gomez. É o dono da cena em quase todos os quadros, mas nem precisa se esforçar muito: sua cara de enfado, de preguiça e de desinteresse apenas ajudam o personagem que é cheio de tiques, detalhes de expressão facial impagáveis, sobrancelhas que se mexem para cada palavra do texto, e uma piada certeira atrás da outra. Tudo o que Nathan Lane sabe fazer, e faz quase como se estivesse em casa, entre uma refeição e um banho de banheira, completamente à vontade e quase entediado. Eu adoro isso! E o público o ama!
Sei que a crítica do Times falou mal do espetáculo. Sei que realmente não é uma unanimidade. Mas está lotado até o final do ano, você realmente precisa batalhar por ingressos na fila de desistências, e lhes garanto que o público sai muito feliz e cantarolante do teatro. É uma festa.
Comentei com um amigo brasileiro que não gostou muito do espetáculo que eu estou no meu momento “Márcia de Windsor”, ou seja, estou curtindo as coisas sem muito compromisso, achando tudo ótimo, divertido, dando nota dez sem nem pensar nas consequências… Bom mesmo é ser feliz, e to torcendo pra este sentimento durar bastante.
Então indico A FAMÍLIA ADDAMS pra todas as pessoas normais que forem à Nova York e quiserem assistir a um musical que não é uma revolução em nenhum aspecto da dramaturgia mundial, nem mesmo uma facada no peito de quem está a fim de descer às profundezas da alma humana, e menos ainda é algo pra você passar o resto da semana pensando a respeito. Mas é diversão garantida por duas horas e meia, com música de grande qualidade, muitas risadas, uma festança para os olhos e ouvidos. Eu A-DO-REI!
Claudio Botelho
Veja mais fotos de The Addams Family:
Créditos das Fotos:
The Addams Family – A New Musical Home Page
Broadway.com
Playbill.com
Tags: Direto da Broadway












Por acaso esse entusiasmo todo pode ser entendido, como um desejo de mergulhar nesse deliciso mundo do puro divertimento digamos, de forma mais PROFISSIONAL? A dupla dinâmica vai “encarar” a família Adams???????
A estéttica me agrada, achei as fotos lindas !! Parece ser bem legal sim.. ô vontade de ver
Ai que delícia de texto! Me transportou pra poltrona do teatro… Vontade de ver também.
Estive em Nova York em março e assisti a 5 grandes espetáculos, inclusive a Familia Adams ainda em sua pre-estreia. Sem comparar com outras produçoes e sem aspiração para critica,achei a peça simplesmente leve, criativa e repleta de grandes momentos. O publico saboreia cada minuto admirando a performance dos atores, as musicas, o cenario (que muda frequentemente)e as fantasias que, apesar do tema exigir, são de uma leveza impressionte. Também adorei e acho que é um espetáculo para assistir e rever.
Das estréias deste ano, somente os Adams, Promisses Promisses e Million Dolar Quartet ainda não assisti.
Se vocês ainda estão por aqui, não percam Fela! A produção mais original e genial em cartaz atualmente. American Idiot é bem bacana mas tenho certeza que vocês vão torcer o nariz. Já a nova produção de La Cage está delciosa, vocês devem assistir também! E por último, Memphis é OBRIGATÓRIO!
Que bom você estar num momento “Márcia de Windsor”, Claudio! Adorei.
Guilherme, não estamos mais em NYC. Acabamos não vendo FELA. Eu confesso que não me interesso muito por espetáculos com “rap”, é uma linguagem um pouco chatinha pra mim.
Mas vimos La Cage sim e vamos escrever sobre este e Promises, Promises (e muitos outros) aqui no site, ok?
Grande abraço!
ADOREI o texto!!! E concordo com o Claudio!! Mtas vezes a gente quer é puro entretenimento!!!!
Adorei as caracterizações e ver Nathan Lane de Gomez só me fez pensar: Esse é o Cara!!!
Ainda não ouvi o score de The Adams Family, mas acho que deve ser o Shrek desta temporada. Aquele musical que os críticos detestam, mas que tem uma boa produção, um apelo para o público familiar e que lota SEMPRE.
MAs só de ter Bebe e Nathan no elenco eu iria com certeza. Vi o Nathan em The Producers no teatro e também sou meio Nathan Freak.
Abs,
Eu fico encantado. Eu queria muito um dia ir até lá assistir coisa bacana assim!
Vou confessar q ja tinha virado a cara pra”Addams Family” por causa das criticas do Wall Street Journal e Times… mas agora acho q vou dar uma chance pra esse espetaculo!
…
Botelho falando sobre Addams Family, muito bom! Deu ainda mais vontade de assistir!…
Eu sou fã da Família Addams desde o momento que vi a Christina Ricci no papel da filha. Gosto do Nathan Lane! “O Rei Leão”, “A Gaiola das Loucas”, “Os Produtores”, tudo com ele e que adoro!! Mas o musical é novidade e quero muito ver!!
Fico tão feliz nessas postagens! É bom saber o que acontece naqueles teatros sem poder viajar… Obrigado M&B!
Voltei de NY ontem. Não tinha incluido este musical na minha lista, mas de última hora resolvi ir. E adorei.
Acho que não devemos confiar tanto nos críticos. Essa peça é sensacional. (FULL DISCLOSURE!)
Aaaah que vontade de ver! Ah, eu sou fã da família Addams, de humor negro, de estética gótica… esse musical deve ser muito divertido de verdade! Todas as caracterizações estão impagáveis, e realmente, o Nathan Lane é sempre impagável!
Ótimo texto!
Nossa, Addams Family foi o musical dessa temporada que menos gostei junto com Fela! (que apesar de admitir ter qualidade, achei chatissimo). Tirando a trilha que é bacana, o libreto de Addams Family é péssimo. As piadas são quase todas meios bobas. O elenco em grande parte salva o musical pra mim junto com a trilha, mas o musical ainda sim é bem fraco na minha opinião.
No fim, achei o mais fraco da temporada (tirando Million Dollar Quartet que não assiti, e Finian’s Rainbow e Ragtime que fecharam antes de conseguir ver).
Natan Lane é bom demais!!!!!
Eu vi Addams Family em abril e ADOREI!!!!!!! É leve, muitissimo divertido, de dar risada mesmo!! As músicas são deliciosas, o cenário é lindo… Aliás, o teatro é lindo!! Enorme!! E tava mais do que lotado!! Quando o espetáculo acabou, saí de lá feliz (querendo mais) e ainda com as músicas na cabeça… Valeu demaaaaaaais!!!
Fantastico, este e atualmente um dos musiciais que mais entretem na Broadway atualmente.
Eu ri descontroladamente este musical, uma coisa que e rara pra mim.
O Nathan Lane e a Bebe Neuwirth são as grandes estrelas do musical. Nathan Lane deve estar sendo mt bem pago por este musical e merece cada centavo pois ele esta otimo e nem um pouco exagerado.
O elenco de apoio tb e otimo. O Kevin Chamberlin e a Jackie Hofman roubam as cenas.
O musical e tecnicamente mt bom e o forte elenco contribui mt para o espetaculo.
Ps:Esse e o show do momento na Broadway. Qnd eu fui assistir estava lotado e eu acabei comprando o ultimo ingresso do teatro inteiro!E o Lunt Funtanne e um teatro grande.