Site Möeller & Botelho entrevista Paulo César Medeiros, o ‘Dramaturgo da Luz’

maio 21st, 2010 8 Comentários

Paulo César Medeiros e seu Prêmio Shell 2010 (Foto: Leo Ladeira)

Em ’7 – O Musical’, o design de luz foi considerado pela crítica Barbara Heliodora como “de excepcional qualidade e em perfeita sintonia com o clima de cada cena“.

Em outros espetáculos de Charles Möeller & Claudio Botelho, como ‘A Noviça Rebelde’, ‘Versão Brasileira’ e ‘O Despertar da Primavera’, o design de luz foi igualmente elogiado.

Por trás desse trabalho está Paulo César Medeiros, que trabalha há muitos anos com a dupla e, também por esta razão, tem acompanhado a evolução da luz no musical brasileiro.

Paulinho, como é carinhosamente chamado, tem tido seu trabalho reconhecido não só pela crítica, mas pela classe teatral: Por ‘7’ ganhou o Prêmio Shell e o Prêmio APTR (Associação dos Produtores de Teatro do Rio), repetindo a dobradinha agora em 2010 com o Shell e o APTR por ‘O Despertar da Primavera’.

Nessa entrevista exclusiva ao Site Möeller & Botelho, o ‘dramaturgo da luz’  fala de seu trabalho, da evolução da luz no Brasil e de sua parceria com ‘Os Reis dos Musicais’.

O que você procura criar quando faz a iluminação de um musical?  Como a luz participa e colabora com o clima de fantasia dos mesmos?

Cada espetáculo musical tem, assim como qualquer peça de qualquer gênero, características e necessidades próprias. Procuro nunca ir com nada pré-definido. Meu maior prazer é poder assistir aos primeiros ensaios simplesmente como espectador. Essas primeiras sensações é que vão me conectar com o espetáculo e me aproximar do que provavelmente será a primeira impressão do público. Acredito muito que cada peça, cada música, cada personagem tem uma energia própria, uma luz. Procuro perceber e concretizar essa força natural de cada espetáculo em forma de luz teatral. Com o tempo, percebi que existe uma dramaturgia da luz. Existem códigos quase secretos no inconsciente coletivo que podem ser revelados através de variações de luz. A intensidade, as cores, os movimentos, as combinações de tons, as variações de temperatura, o ritmo das mudanças… Tudo isso é lido pela platéia de forma quase subliminar. Percebo que quando a luz está adequada e justa à cena, ela pode passar quase despercebida pelo campo racional, mas ser totalmente absorvida emocionalmente pelo público. A única diferença que faço entre a luz de musical e outros gêneros é que num musical, via de regra,todos os sentimentos parecem ter muita urgência,os sentimentos são de grandeza quase trágica, tudo é tão intenso que aos personagens só resta cantar. Por isso acho que a luz pode se permitir tanto em musicais. É um campo de afetos solto que explode em energia e luminosidade. Me sinto realmente como uma criança solta em um campo aberto aonde tudo é possível.

Paulinho no Shell 2008, por ’7′

Você revelou que uma viagem à Broadway mudou sua visão em relação ao design de luz em musicais. Por que?

Porquê apesar de toda a tecnologia e recursos financeiros, eles fazem luzes absolutamente concentradas na função de contar as histórias de cada espetáculo. Transitam entre luzes realistas e verdadeiros shows pirotécnicos sem nunca perder o fio da meada. Porque as montagens de luz são de uma limpeza e de uma segurança que podem servir de padrão para tudo. Porquê os equipamentos são todos de primeira linha. O Teatro é visto da única forma correta a ser vista, ou seja, como uma área da maior importância artística e de criação de divisas e de troca com o resto do mundo. Essa é a cultura gerada pelos americanos e ingleses. Fico triste ao perceber que ainda temos muito preconceito com musicais no Brasil. Muita gente que não gosta, mas nunca viu. Nosso país é um dos países mais musicais do mundo, deveríamos ter uma verdadeira revolução cultural em que a prioridade fosse criar uma industria da cultura e do entretenimento. Somos ótimos em produzir musicais, estamos cada vez melhores. Precisamos estabelecer metas de transformar esse país em um grande exportador de produtos de cultura. Os musicais certamente poderiam ser uma grande bandeira para todas as outras artes, já que dentro de um musical estão todas elas. Dramaturgia, artes plásticas, música, interpretação, indumentária, luz, dança, absolutamente tudo pode passar no palco de um musical. O Brasil é o celeiro de uma cultura universal, o mundo todo mora aqui. Portanto podemos, com facilidade, estabelecer contato cultural com todo o mundo, basta sermos apoiados e termos condições logísticas para isso.

Vamos falar de seu mais recente trabalho com Möeller & Botelho, ‘Gypsy’. Quais foram suas opções no design de luz de ‘Gypsy’?

Pensei em criar uma sensação de luz que desse uma sutil idéia do que se passa na mente de Mama Rose. Esse foi meu principal ponto de criação. Acho que essa personagem resume de forma brilhante todo afeto e toda neurose de nossa profissão. Quis dar a imagem de que a qualquer momento alguém pode começar a cantar ou dançar. Busquei não criar muita diferença entre as luzes das cenas realistas e dos números musicais exatamente para diminuir a sensação de que a cena possa ser interrompida pela música, mas sim ser uma continuação natural dela.

Foto: Marian Starosta

E no caso de ‘O Despertar da Primavera’, que lhe rendeu o Prêmio Shell e mais recentemente o APTR. Quais foram seus critérios e soluções adotadas naquele espetáculo?

O “Despertar” foi um sonho bom. Daqueles que não se quer parar de sonhar. Cláudio e Charles estavam muito inspirados, é uma montagem histórica e talvez só se perceba isso claramente daqui a algum tempo. Tive clareza disso quando vi as imagens do espetáculo. O elenco não poderia ser mais inspirador para a luz. Os olhos daqueles jovens e talentosíssimos atores eram também o olhar dos personagens com suas aflições. Charles e Claudio tinham me pedido uma mistura de expressionismo alemão nas cenas realistas e de uma luz de show de rock nas musicas. Trabalhei nisso e acho que conseguimos um resultado muito bacana. O Alonso Barros, meu querido amigo e coreógrafo genial, me trouxe um novo olhar também. O cenário do Rogério Falcão é diretamente responsável pela luz. Os espaços criados, os planos, a profundidade, as transparências, tudo era um convite a ser explorado pela iluminação. Foi, sem dúvida, um trabalho que estará em mim para sempre.

Como você chegou a Möeller & Botelho? Em que espetáculo e de que forma?

Conheço Claudio desde sempre. Já nem sei mais qual foi nosso primeiro espetáculo juntos, mas acho que foi um monólogo com Ítalo Rossi em que Claudio tocava violão. Depois ele me chamou para fazer os espetáculos dele com a Claudia Neto. Nesse momento conheci o Charles, que era cenógrafo e figurinista desses espetáculos. Depois os dois estavam fazendo um espetáculo sobre Cole Porter sem grana e eu liguei para o Charles e me ofereci para fazer a luz. Pirei numa idéia de usar efeitos de luz feitos com um retroprojetor, numa época que ninguém tinha grana para alugar projetores de vídeo. Foi muito legal o resultado e esse foi nosso primeiro sucesso. Amo os dois mais que tudo. Minha vida mudou completamente depois dessa parceria. Eles me ensinaram a ter um olhar mais ameno, concentrado, dedicado e profissional sobre minha vida e carreira. Me ensinaram a entender algumas das lógicas das luzes da Broadway e a pensar em musicais como óperas modernas. Acho uma honra ter estado ao lado deles em todo esse crescimento e também nas horas difíceis que ainda temos e continuaremos a ter, mas com mais calma e sabedoria.

Qual dos musicais de M&B você diria que foi o mais desafiador no design de luz?

Sem dúvida, “A Noviça Rebelde”. Não tínhamos ainda know how para enfrentar um projeto daquele porte, mas acho que nos saímos muito bem. Tivemos o difícil acréscimo de dificuldade pelo fato de, além de tudo, estarmos inaugurando o Teatro Oi Casagrande. Aprendi muito naqueles dias. Aliás, todos nós.

O teatro brasileiro possui um bom design de luz? Possui bons profissionais e equipamentos nesta área? Como estamos?

Acho que temos grandes iluminadores no Brasil inteiro. Faço parte de uma Associação de iluminadores com mais de 400 sócios. Vejo luzes em Festivais dentro e fora do Brasil e acho que temos alguns dos melhores iluminadores do mundo. Temos todo o equipamento necessário, falta só estabelecermos mais prioridade nos gastos com luz. Ainda estamos engatinhando nos valores. Todos se referem à luz de musicais como uma das áreas mais importantes e, no entanto, ainda é uma luta na hora de aprovarmos os orçamentos. A Aventura Entretenimento vem tentando mudar essa realidade e tenho tentado colaborar como posso. Vamos chegar a um patamar internacional se continuarmos buscando relações mais profissionais e vermos os musicais como um produto do mais alto nível técnico e cultural.

E ‘7 – O Musical?’, que foi um trabalho muito elogiado e premiado?

“7″ é um caso à parte em nossas vidas, pois foi totalmente autoral, tivemos muita liberdade de criação e Claudio e Charles estavam na ponta dos cascos. Tudo aconteceu de forma mágica. O elenco, os ensaios, a entrada no teatro, a sempre impecável organização da Cristina Salles (nossa Tininha), os bastidores… tudo. A luz tinha uma magia que acho que estava além do que eu tinha previsto. Me sentia meio inebriado durante aquele processo, passava horas sentado atrás da mesa criando a luz durante os ensaios e quando diziam que o ensaio ia terminar parecia que só tinham passado alguns minutos. As luzes que faço são recheadas dos comentários que ouço do Claudio, do Charles, da equipe, da Tininha, da Paulinha Sandroni, da Aniela, do Tuto e de toda nossa turma. Espero que eles também se sintam incluídos na luz, pois eles estão lá.

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8 Comentários

  1. Vinicius Teixeira disse:

    Entrevista muito legal e mt interessante… é mt bom conhecer e entender o processo !! Parabens, Paulo

  2. Raul Veiga disse:

    Esse é muito CRAQUE!
    Um profissional respeitadíssimo e uma pessoa nota mil, querido por todos.
    Parabéns pela entrevista.
    Sucesso Paulinho!

  3. Guerreiro da Luz como EU , vc é ” O CARA” .

    Digamos que o cara do VOYER COTIDIANO presente na intimidade de cada ATOR/PERSONAGEM . O seu “olhar” é um olhar atento aos códigos da simplicidade , mas percebendo sempre o extraordinário.
    Acho que dá para mensurar o tanto de ADMIRAÇÃO que sinto por você e seu trabalho , não é verdade ?
    Amo LUZES , NEONS e similares ….
    Tenho ALMA Broadway e vc bem sabe o que isto significa né ?
    Sem às LUZES …não há espetáculos ….
    Bjs no coração e MUITA LUZ para todos NÓS !!!

    Guerreira de Luz drica

  4. Mariana Carrozzino disse:

    Maravilhosa a entrevista! Amei! Arrasou, Leo!
    Realmente a iluminação de Sete e de Despertar são de deixar qualquer um inebriado…

  5. Paula Sandroni disse:

    Paulinhoooo!!!!!!!
    parceirão de todas as horas, sempre tranquilo mesmo nos momentos mais nervosos e tensos
    sua tranquilidade me ensina muito!
    grande beijo
    paula sandroni

  6. Ada disse:

    Muito boa a entrevista! Paulinho é demais!
    Além de todas as qualidades profissionais, é um gentleman!

  7. Teresa disse:

    Paulinho,
    uma vez, durante um ensaio de Despertar, no Terezão ainda, vc estava lá, sentadinho e eu fiquei te observando …
    Seus olhos brilhavam, vc quase regia com o olhar cada movimento ainda embrionário do que seria essa Maravilha, superpremiada, que foi a luz de O DESPERTAR DA PRIMAVERA – versão brasileira – CHARLESMOELLER&CLAUDIOBOTELHO !
    Em Curitiba, pude, mais uma vez, testemunhar a sua dedicação -o seu Prazer – em iluminar “Versão Brasileira” , espetáculo que celebrou os 20 anos de parceria Claudio e Charles e que ficou belíssimo, no palco italiano do Guairinha.
    Vc, realmente, é um “dramaturgo da Luz” – um Designer de luz !
    Vc cria durante o processo e por ser da Família M&B, DESDE SEMPRE, respira com eles, dá a Luz – é Pai também ! – é o TRIO !
    E Gypsy é um momento seu de grande maturidade, que merece, mais uma vez, todos os elogios !
    - Agora, é só deixar … The Sunshine In !!!
    Bela entrevista, Paulinho, tão Bela como a Pessoa qua Vc é !

  8. PAULINHO e’sensacional ,em todos os momentos vemos seu admiravel talento NAO EXISTE OUTRO

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