Macksen Luiz (Jornal do Brasil): ‘Gypsy’: Puro Entretenimento Bem Urdido

maio 10th, 2010 2 Comentários

Por Macksen Luiz – Jornal do Brasil – 09/05/10

Gypsy tem ficha técnica invejável pelos padrões dos musicais da Broadway. Com Jule Styne como compositor, Stephen Sondheim como letrista, Jerome Robbins como coreógrafo e Arthur Laurents assinando o libreto, essa comédia musical trata da fantasia que o mundo do espetáculo exerce sobre o desejo de fazer parte de sua engrenagem.

A incansável Mama Rose procura transferir às filhas a ilusão de sucesso no show business, através de trupe infantil que vai se estiolando à medida do avanço da idade do elenco e das mudanças do mercado teatral. Baseado na biografia de Gypsy Rose Lee uma das filhas, se transforma em stripper, a outra, June Havoc, em atriz de cinema o musical que estreou em 1959, idealiza o impulso de atingir o topo em contraste com a realidade do percurso pelas incertezas do teatro. Essa mulher, obsessiva em transformar a sua frustração em carreira, as filhas em “escadas” de um sonho, e o êxito em moeda de troca com a vida, é o centro da trama, apesar do título que nomeia aquela que, por via transversa, chega lá.

A afiada equipe que escreveu o musical não deixa margem a muito invenção, já que tudo está ordenado, sem rotas alternativas ou possibilidades de desvios criativos. A música e as letras têm a sonoridade exigida pela época que embala um mundo em inexorável decadência.

A coreografia, inspirada nos balés ingênuos e patrióticos do vaudeville dos anos 1920 americano, ou na grotesca sensualidade dos strip-teases do burlesco do mesmo período, é dissimuladamente canhestra. O libreto reveste o musical de estrutura dramática que equilibra as canções com o entrecho, de tal modo que, tanto umas quanto o outro, se ajustam e se uniformizam como narrativa.

Gypsy cumpre ainda a função base do gênero, a de puro entretenimento.

É nessa faixa artística que os musicais como este, bem urdido nos seus fundamentos, realiza suas indisfarçáveis pretensões.

A dupla Charles Möeller, diretor, e Cláudio Botelho, tradutor das letras, é sagaz na percepção destes condicionantes, e transporta, com crescente segurança dos meios e depurado acabamento profissional, a vitalidade deste “clássico” para a sua “grife teatral”. Ainda que na concepção, pouco mudou do original, esta “recriação” certifica a habilidade do diretor em seguir o que está tão bem convencionado.

A marca da dupla está no modo como assegura fazer possível em nossa geografia artístico-mercadológica aquilo que deu certo na célula de origem.

O cuidado com a feitura se demonstra pela qualidade da seleção do elenco, e se revela em cada elemento. A sonoridade da orquestra regida pelo maestro Marcelo Castro é de notável musicalidade.

Os figurinos de Marcelo Pies, inspirados nos croquis originais, nem por isso são menos criativos na revisão e acréscimos.

O cenário de Rogério Falcão, a iluminação de Paulo César Medeiros e o design de som de Marcelo Claret, conferem refinamento artesanal à peça.

A já conhecida habilidade de Möeller e Botelho na escolha de seus elencos, uma vez mais se repete neste coletivo em que, desde as crianças até aos protagonistas, todos estão adequadamente selecionados.

O grupo de pequenos atores é capaz de cantar, dançar e sapatear com desenvoltura adulta.

Os rapazes – Elton Towerseym Lucas Drumond, Igor Pontes, Tomas Quaresma e Kaio Borges – e as garotas – Giselle Lima, Carol Costa, Carol Ebecken, Giula Nadruz, Joana Mota e Viviane Rojas – compõem conjunto integrado. André Torquato ganha relevo no seu solo como Tulsa. Léo Wainer, Jitman Vibranovski e Otávio Zobaran têm intervenções discretas como pedem seus tipos. Patrícia Scott Bueno e Dudu Sandroni criam pela caracterização física divertidas figuras. Renata Ricci projeta uma June infantilizada.

Sheila Matos, Ada Chaseliov e, com algum destaque, Liane Maya, formam o patético trio de strippers.

Eduardo Galvão projeta a fidelidade e paciência do empresário.

Adriana Garambone conduz a jovem Louise até a exuberante Gypsy com sensibilidade. Além da beleza, a atriz embala com voz suave a canção Carneirinho.

Totia Meireles é uma Mama Rose que lança, tal como a personagem, a vontade de ocupar cada tábua do palco, em atuação de ressonância vibrante.

>> Em cartaz Gypsy Teatro Villa-Lobos, Av. Princesa Isabel, 440, Copacabana (2334-7153). Cap.: 463 pessoas. 5ª e 6ª, às 21h; sáb., às 19h; dom., às 18h.

R$ 60 (5ª), R$ 70 (6ª) e R$ 80 (sáb. e dom.). Estudantes e idosos pagam meia. 10 anos.

Duração: 2h30 (com inter valo). Até 27 de junho.

Tags:

2 Comentários

  1. João da Silva disse:

    Que bom que ele gostou, mas que crítica meia-boca, não?

  2. Mariana Carrozzino disse:

    Eu ia falar isso. Gente.. falou, falou e não disse nada. Bem superficial, não?

Deixe um comentário



Cadastre-se

Receba as novidades cadastrando seu e-mail.