E dois ou três problemas que acontecem quando a técnica supera a emoção
Artur Xexéo – O Globo – 05/05/10
Montar “Gypsy” não é tarefa fácil para qualquer teatro do mundo. Para começar, é preciso escalar uma atriz veterana, exuberante, de voz potente e com uma carga dramática à flor da pele. Não é por acaso que o papel foi escrito para Ethel Merman, talvez a voz mais potente que já tenha sido abrigada pelo teatro americano. (Não se deixe enganar. Apesar do título, Gypsy Rose Lee não é a protagonista do espetáculo.
Toda a trama gira em torno de sua mãe, Mamma Rose). É preciso também uma atriz jovem que cante bem e dê conta do único personagem que se transforma durante a peça. De menina ingênua e retraída, Gypsy transforma-se na exuberante rainha do strip-tease. Há ainda um galã veterano de voz bonita e necessária empatia com o público. Para complicar, é preciso um elenco grande de crianças talentosas e um cachorro carismático — como todo mundo sabe, crianças e cachorros costumam roubar a cena no teatro. Além de um score que contém algumas das canções mais bonitas já cantadas num palco — uma orquestra afiada é fundamental —, é preciso fazer versões para as letras de Stephen Sondheim, o compositor da rima inesperada, das imagens poéticas, da sofisticação em forma de poesia. Último desafio: convencer o público de que aquela situação, que conta parte da História do teatro americano, mais especificamente da passagem do teatro de variedades para o burlesco, gêneros tipicamente americanos, pode ser interessante mesmo para plateias que não tenham intimidade alguma com o que está sendo narrado. São incontáveis os obstáculos de uma montagem de “Gypsy”. E a versão que Charles Möeller e Claudio Botelho apresentam no Teatro Villa-Lobos ultrapassa todos eles.
Talvez as muitas questões a serem resolvidas façam com que, pelo menos nesse começo de temporada, o “Gypsy” brasileiro aposte na técnica e deixe um pouco de lado a emoção. Fica a impressão de que, se todos relaxarem, o prazer de cantar aquelas canções sensacionais torne o espetáculo mais vibrante.
Mas não dá para criticar o empenho de todos os envolvidos. Totia Meireles tem uma característica que joga contra seu trabalho: uma aparência jovem demais para ser Mamma Rose (o papel, depois de Merman, foi de Bette Midler, Bernadette Peters e Patti Lupone, entre outras). Mas ela, sem dúvida, tem o temperamento certo para viver a protagonista, e sua entrega ao personagem é contagiante. No número final, quando está sozinha em cena e precisa transmitir o quanto foi patética a vida de sua personagem, ela arrasa. Mesmo tendo a partitura mais difícil do espetáculo, ela convence como cantora. Poucas atrizes seriam capazes de fazer Mamma Rose no Brasil.
Adriana Garambone vive uma situação oposta. Parece um pouquinho além da idade para uma Gypsy que começa o show adolescente. Mas ela convence o espectador de sua fragilidade, no primeiro ato, e de sua exuberância, no segundo, sem problemas. É também uma surpresa como cantora. Sua interpretação de “Little lamb” é comovente. Além disso, está linda, como Gypsy deve ser.
Eduardo Galvão é outro acerto do elenco. Voz bonita, presença marcante, mas sem tentar roubar a cena, dá um banho de simpatia num personagem que tem mesmo que conquistar o público desde a primeira aparição.
Não há um ator deslocado em “Gypsy”. Todo o elenco infantil é simpaticíssimo e cumpre bem suas coreografias. Como as três strippers que ensinam os truques da profissão a Gypsy, Ada Chaseliov, Liane Maya e Sheila Mattos estão divertidíssimas. Möeller e Botelho só não tiveram coragem de botar um cachorro de verdade no palco, o que faz com que ninguém corra o risco de aquele bicho de pelúcia roubar a cena.
O musical ainda tem, sob a regência de Marcelo Castro, uma orquestra ótima — a melhor da safra mais recente de musicais cariocas — e versões de Botelho sensacionais — a melhor da safra recente de versões de Botelho. Para um musical, esses dois quesitos são fundamentais.
Para uma superprodução, “Gypsy” peca pelos cenários. Eles não enchem os olhos, como se espera de um espetáculo tão caro. Pior que isso, sua estrutura dá a impressão de que, apesar do troca-troca incessante, a ação nunca muda de lugar. Às vezes, o palco está vazio demais, como na cena do restaurante chinês; às vezes, está atulhado demais, como na cena que antecede o primeiro strip-tease de Gypsy.
A luz também não é o ponto alto da montagem. Ela esfria a cena, ajudando a deixar a impressão de que há pouca emoção no palco.
Os figurinos também não se destacam, mas são bem-acabados e de acordo com o período coberto pela ação. Talvez sejam muito realistas, como na aparição das três strippers decadentes, uma cena que, por sinal, é pura fantasia.
“Gypsy” é mais uma prova da maturidade do musical como gênero nos palcos do Rio. É um clássico muito mais difícil de ser realizado do que, por exemplo, “A noviça rebelde”, outro acerto recente da dupla Möeller e Botelho.
E só o fato de a música de Jules Styne e Stephen Sondheim estar em cartaz mereceria uma ida ao Villa-Lobos. Mas Totia, Adriana, Galvão, a orquestra e todo o elenco fazem com que “Gypsy” seja um ponto alto da atual temporada.
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Acho que Xexéu toca em pontos importantes da produção do espetáculo, sem deixar de mencionar o fato de que é realmente um grande desafio fazer com que plateias de outros países, como a nossa, se deixem encantar com um musical genuinamente americano. Nesse quesito, creio que Moeller & Botelho e toda a produção ultrapassam o “obstáculo” com louvor! O elenco é impecável e não pelo fato de serem brasileiros e/ou cariocas, mas definitivamente pelas mãos talentosas da direção e o talento de cada um individualmente e em conjunto. Eles arrasam! Não concordo muito com as questões do cenário, luz ou figurinos. Apesar de não ser especialista, mas um mero espectador, senti-me cativado pelo apuro, a correção, o esmero enfim dessa incrível produção musical. Talvez com relação a uma certa tensão por parte do elenco haja de fato uma necessidade de se relaxar e, para usar uma expressão inglesa que significa “se divertir pra caramba”, “let your hair down”. No todo, Xexéu é correto na sua avaliação. A produção brasileira de “Gypsy”, para mim pelo menos, é teatro musical no seu “estado da arte”. Parabéns a todos os envolvidos e vida longa a “Gypsy”!
Errata: XexéO, não Xexéu. Falha minha…
Adorei a crítica do Xexéo! Ele sempre arrasa, né? Adoro ele.
Devemos considerar que tanto figurinos, como cenários e luz retratam “A Grande Depressão” considerada o pior e o mais longo período de recessão econômica do século XX. Em todas as imagens desta época a sobriedade e a falta de “glamour” imperam. Todos os ambientes pareciam sombrios, austeros e iguais. Como arquiteta o cenário me pareceu bem adequado e muito criativo na cena em que se tem a impressão de que o palco deu um giro de 180º na primeira aparição de Louise como stripper e sugestivamente a grande virada de sua vida e do próprio espetáculo.
Na minha opinião, Xexéo escreveu com muita propriedade!! Mas concordo com Ana Teresa que comenta do cenário, principalmente quando temos q impressão do palco girar 180º.
Também achei, desde o princípio, que não há um senão em relação ao elenco! Todos estão excelentes!!!
Mais uma vez PARABÉNS a todos envolvidos em Gypsy!!
na minha opiniao artur xexeo foi muito frio e seco.se hoje em dia gosto de stephen sondhein,e graças a ele.basta lembra o que ele escreveu sobre sweeney todd em 2008 a paixao com que ele falava de sondhein,ele fez quase um historico sobre sweeney.agora ele vem e só escreve isso de gypsy,esperei tanto pela quarta,para ler e ele so fez isso.a do bww review foi melhor,bem superior li umas dez vez de tão feliz.
e a que ele escreveu sobre o rei e eu.aquilo era paixao
Falou tudo! Gypsy é mágica pura…
Me desculpem , mas achei o comentário à respeito dos figurinos, um pouco fora da realidade, pois são maravilhosos e impecáveis !!! Quanto as crianças, ele não soube dar o devido valor, pois com certeza são umas das melhores coisas do espetáculo, lembrando inclusive da cena em que eles viram adolescentes que sempre é muito comentada e aplaudida pela platéia.Gostaria de dar parabéns pela montagem,produção,técnica e artistas envolvidos !!!
Outra coisa que Xexeo esqueceu de falar , foi sobre a mixagem da orquestra e atores, que para mim é um dos maiores pontos, pois sei como é difícil fazê-lo.Além das vozes dos atores, tem tb a captação dos sapatos e todos os instrumentos da orquestra.Parabéns ao pessoal da Gabi Som e técnicos envolvidos !!!
Depois que vir, me pronuncio. Breve!
Parabens pela crítica!!!! Tb nao concordo com a parte do cenario. Acho genial, principalmente o do camarim. Faz com que, não importando pra onde vc olhe no palco, tem sempre alguem fazendo alguma coisa. Mas suuuuuper concordo com tds os elogios feitos ao elenco e orquestra!!!
Nâo posso falar sobre meu próprio trabalho,mas quanto ao cenário e ao figurino…
Se esse cenário nâo enche os olhos,nâo sei o que pode encher.
É um dos maiores e melhores cenários já realizados no Brasil.
Rogério Falcâo foi mais uma vez de um competência ímpar.
É criativo,revela uma época e cria espaços totalmente diferentes a cada apariçâo.
Uma honra iluminar os cenários do Rogério.
Quanto aos figurinos,é emocionante lembrar das costureiras trabalhando no ateliê criado durante o perídodo de ensaios.
Marcelo Pies fez um trabalho luxuoso e rico em detalhes.
É um de seus melhores trabalhos e tem despertado os maiores elogios.
Todos tem direito a ter uma opiniâo,mas essa tá difícil de engolir.
Esse Sr. Xexéu fala tantas bobagens… felizmente, dessa vez, acertou muito mais que erou.
critica maravilhosa !!!!
Também descordo com ele qnto aos figurinos. Eles tão lindos! Muito adequados.
XEXÉO ESTA ASSISTINDO AO BALLET CARMEN NO MUNICIPAL ONTEM E POR ONDE ELE PASSAVA O COMENTÁRIO ERA SÓ SOBRE A MATÉRIA DELE SOBRE GYPSY, O PESSOAL ESTAVA SUPER ANIMADO E SE PROGRAMANDO PARA CONFERIR!!!!
EU ACHEI GYPSY TUDO DE BOM, NÃO CONCORDANDO COM A CRÍTICA AO CENÁRIO E FIGURINOS!!!!
OPS!!!! ESTAVA ASSISTINDO….
Paulinho a sua LUZ é deslumbrante e adequada para a época da grande depressão americana.
A Resenha do Xexéo é bem escrita e fala sobre o desafio e incontáveis obstáculos de uma montagem de “Gypsy”, no Brasil.
E de como a versão que Charles Möeller e Claudio Botelho ultrapassa todos eles.
Agora,no Palco do Villa-Lobos, iluminado por vc, o que não falta é EMOÇÃO !
Apontar defeitos é muito fácil, quando não se quer reconhecer que GYPSY encanta nos mínimos detalhes !
- Vamos esperar pela crítica da Tania Brandão, no Globo.
CRITICAR É FÁCIL!!!!