O Globo: ‘Nunca houve uma ‘stripper’ como Gypsy’

abril 30th, 2010 5 Comentários

Nunca houve uma ‘stripper’ como Gypsy

Charles Möeller e Claudio Botelho estreiam no Villa-Lobos musical sobre artista que chacoalhou os cabarés americanos e virou sinônimo de glamour

Ronald Villardo
Fotos de Mônica Imbuzeiro

Antes de Dita Von Teese, a glamazon americana que namora roqueiros e estampa editoriais fashion, houve Gypsy Rose Lee. Pense em Marilyn Monroe saindo do bolo para Kennedy, em Rita Hayworth encoberta pelo glamour de Gilda ou em Madonna em “Dick Tracy”. É possível que você identifique nas três — construídas a partir do estereótipo de pin-up à la Jessica Rabbit — os elementos popularizados por esta stripper que chacoalhou os cabarés americanos nos anos 40. E que, a partir de hoje, vai chacoalhar o palco do Teatro VillaLobos com a estreia de “Gypsy”.

A primeira montagem brasileira deste clássico dos musicais tem a assinatura da duplagrife Charles Möeller e Claudio Botelho. Cabe aos dois — apontados por muitos como midas dos musicais made in Brazil — a missão de contar a história, às vezes não tão glamourosa assim, da moça que tirou a arte burlesca (uma décadence sans élégance) dos palcos barrapesada e a levou aos salões da alta sociedade americana. Foi ela quem inventou o stripper como conhecemos hoje. Sabe a cena clássica de tirar as luvas fazendo caras e bocas? Pois então…

— Gypsy talvez tenha sido a primeira pin-up de um mundo que nem lembra direito o que elas foram e nem imagina que alguém já tenha se deslumbrado com um joelho ou pedaço de coxa — opina Botelho.

Baseado na autobiografia de Gypsy Rose Lee, lançada nos Estados Unidos em 1957, o espetáculo foi montado pela primeira vez na Broadway em 1959, por um time de bambas. As músicas são de Jule Styne, o texto é de Arthur Laurents, as letras, de Stephen Sondheim, e a coreografia, de Jerome Robbins — os três últimos assinam juntos “West Side story”.

Os três transformaram a história de uma menina sem graça que virou referência de glamour num espetáculo considerado por especialistas um dos maiores clássicos do gênero. O temido crítico teatral Frank Rich, do “The New York Times”, por exemplo, escreveu que “Gypsy” seria “a resposta do teatro americano a ‘Rei Lear’”, de Shakespeare. A comparação é simples: se Lear vive uma relação conturbada com suas três filhas no clássico do Bardo, a inescrupulosa matriarca Mama Rose (interpretada nesta montagem pela atriz Totia Meirelles) não se deixa deter até transformar uma de suas filhas — inicialmente June (Renata Ricci) e, depois, Louise/Gypsy (Adriana Garambone) — numa grande estrela do teatro de variedades. Não saiu exatamente como planejado, mas…

Acostumados a superproduções, Möeller e Botelho cortaram um dobrado com a grandiosidade de “Gypsy” e suas dezenas de figurinos, cenários e atores (os números, que impressionam, estão no box acima). Uma saga e tanto, que exigiu oito semanas de ensaios, quando “ser caxias foi fundamental”, nas palavras de Möeller: — Para fazer musicais com grande estrutura é preciso ser extremamente disciplinado, senão a gente é tragado pelos prazos.

Botelho, diretor musical e responsável pela versão brasileira das canções, conta que a transposição da atmosfera correta das músicas originalmente escritas em inglês prossegue ao longo dos ensaios.

— Algumas palavras são modificadas até o último momento antes da estreia — explica o diretor, que traz no currículo versões de musicais igualmente clássicos como “A noviça rebelde” e “O fantasma da ópera”.

A dança também é um marco no espetáculo, com três coreografias que são consideradas clássicas do teatro musical: o número que mostra as crianças crescendo (nas fotos acima), a cena de três strippers dando aula para Gypsy e, enfim, seus primeiros strips. Mas nem só de música e dança vive este musical. Charles Möeller destaca a consistência de “Gypsy” como dramaturgia, antes de tudo.

— Ainda que “Gypsy” não tivesse canções e coreografias incríveis, seria um drama e tanto — avalia.

Desde a estreia da primeira versão, há 51 anos, o musical já ganhou sete montagens só em Nova York. Algumas com atuações memoráveis por divas do teatro americano, como Patti LuPone no papel de Mama Rose.

— “Gypsy” é um clássico que cobra respeito nas suas mais delicadas firulas. Mexer nelas seria caminho certo para o erro — avalia Botelho.

Afinal, não se mexe em time que está ganhando.

Um Espetáculo de Superlativos

SELEÇÃO EM CENA: Ao todo, 43 atores participam do espetáculo. O elenco infantil é composto por 29 crianças, que se revezam ao longo da semana para interpretar os papeis de June, Louise e seus dançarinos, e a turma do coro. Eles foram selecionados entre mais de três mil candidatos.

GUARDA-ROUPA LUXUOSO: São usadas mais de 140 peças ao longo do espetáculo, todas boladas pelo figurinista Marcelo Pies e confeccionadas por uma equipe de 11 pessoas. Só de sapatos são 67 pares. Perucas, 25. Destaque também para a fantasia de borboleta de uma das strippers e o look branco total no qual Gypsy faz sua aparição triunfal, a que encerra sua transformação de patinho feio em diva.

NADA SERÁ COMO ANTES: A ambientação criada por Rogério Falcão é composta por 18 cenários diferentes que não se repetem ao longo do espetáculo. Para chegar lá, uma equipe de 30 pessoas utilizou 13 toneladas de madeira e duas de ferro. Sob o palco, 40 varas cênicas ajudam a suportar o peso.

ORQUESTRA AFINADA: Com 17 músicos, essa é a maior orquestra já montada para um musical no país. Tudo é feito ao vivo mesmo, sem bases pré-gravadas nem playback. Portanto, ao ouvir “Por favor, maestro!”, pense em Marcelo Claret, o regente em ação no fosso.

Enquanto Isso, na Vida Real…

FAMÍLIA, FAMÍLIA…: Gypsy Rose Lee só publicou sua autobiografia em 1957, três anos após a morte de Mama Rose. A stripper temia ser processada judicialmente pela própria mãe.

MAMA ROSE: Depois de ter sido abandonada pelas duas filhas, Mama Rose abriu o primeiro bordel para lésbicas em Chicago, nos anos 50.

VOO SOLO: Após fugir com Tulsa, um dos bailarinos da companhia, June adotou o nome June Havoc e virou atriz de Hollywood. Apareceu em dezenas de filmes. O último foi o documentário “Broadway and the legends who were there”, de Rick McKay, em 2003. Também foi campeã de maratona de dança. Ela morreu em março deste ano, aos 98 anos.

AMOR DE IRMÃ: Baby June, ou melhor, June Havoc foi contra a publicação do livro da irmã, Gypsy, e deu a sua versão dos fatos em “Early Havoc”, publicado em 1959, mesmo ano da estreia do musical “Gypsy” na Broadway.

UMA ‘STRIPPER’ FAMÍLIA: Gypsy Rose Lee participou de vários filmes em Hollywood e teve seu próprio programa de TV, “The Gypsy Rose Lee Show”, nos anos 50. Morreu em 1970, aos 58 anos, vítima de câncer.

Tulsa, o namoradinho

André Torquato tem 16 anos, mais ou menos a mesma idade de Tulsa, o personagem apaixonado por June que faz um dos solos de canto e dança mais aplaudidos do espetáculo desde os ensaios abertos, que começaram na semana passada.

— É a simplicidade de Tulsa que conquista todo mundo. As pessoas estão gostando mesmo, né? — comenta Torquato, aparentemente surpreso com a resposta do público.

Tulsa é um dos quatro meninos da trupe de Mama Rose e tem seu momento para brilhar ao final do primeiro ato. Fique de olho.

June, a preferida

“O meu nome é June, e o seu?”. Com esta frase, a pequena June — irmã de Louise/Gypsy e a filha favorita de Mama Rose — começava o número “Baby June e os fazendeirinhos”, criado pela mãe quando a menina tinha apenas 2 anos, para torná-la uma estrela. A lourinha permaneceu no show por anos a fio, até a adolescência, quando se casou escondida e fugiu de casa, obrigando a mãe a dedicar suas atenções à irmã, até então mera coadjuvante. Na pele de June, Renata Ricci se diz “abduzida” pela rotina de trabalho.

— É preciso ter uma disciplina incrível para segurar corpo e voz a temporada toda. Ator de musical é atleta — diz.

Gypsy, a ‘stripper’ truqueira

O.k., ela foi famosa, habitou o imaginário de homens desde os palcos dos cabarés, teve uma carreira (meio mais ou menos, vá lá) em Hollywood e, no fim dos anos 50, foi até hostess do próprio talk show num programa de TV destinado à família americana, o “The Gypsy Rose Lee show”. Nesta época, já sem tirar a roupa, claro. Gypsy tornou-se uma espécie de Dercy Gonçalves gringa, que, nos seus anos dourados, transformou o comportamento polêmico e a incorreção política em diversão doméstica.

A atriz Adriana Garambone — que interpreta Louise, a moça desengonçada com ares de patinho feio que, meio por acaso, começa a fazer strip, muda de nome e vira o furacão Gypsy — tem uma visão bem particular da artista.

— Gypsy foi a primeira grande marqueteira do show business — opina, sem dó nem piedade. — Ela só lançou essa biografia para se promover e bancar a coitadinha que deu a volta por cima. Deu certo, né? Acabou virando musical na Broadway e tudo. Ela era uma truqueira.

Herbie, o galã

Herbie é o galã da peça. Interpretado por Eduardo Galvão, o personagem acumula as funções de noivo da matriarca Rose e empresário de sua trupe. Apesar de ter participado de “Gloriosa”, com Marília Pera, a ator não cantava em um musical desde os anos 80.

—O esquema deles (Möeller e Botelho) é muito interessante: só há uma leitura da peça com todo mundo sentado. A segunda já é para valer, no palco. — diz Galvão.

Mas a segurança mata o frio na barriga no dia da estreia? — Absolutamente! Se não tiver frio na barriga, tem alguma coisa errada — diz, rindo.

Mama Rose, o monstro

Ela é dominadora, apaixonada, autoritária, histriônica, egoísta, cruel, amorosa, sovina, ambiciosa… Os adjetivos que cercam uma das personagens mais complexas do teatro musical de todos os tempos seduzem não apenas plateias como também pegaram de jeito a atriz Totia Meirelles, que, ao interpretar a mãe que quer se realizar através das filhas, vive seu primeiro grande papel num musical. Segundo Totia, um “musical com dramaturgia”.

— Mama Rose é monstruosa com quase todo mundo, mas no fim você acaba dando risadas — diz Totia, que é sócia de Möeller, Botelho e Adriana Garambone nos direitos do espetáculo para o Brasil.

São quase três horas em cena, o que exige de Totia preparo físico, vocal, emocional…

Além de participar de quase todas as cenas da peça, toda vez que está no palco fala aos borbotões, e enfrenta bravamente seis canções no gogó.

— Estou evitando até sair com amigos para não falar muito. Como eu não tenho substituta, se eu pifar, a peça pifa junto.

Teatro Villa-Lobos: Av.
Princesa Isabel 440, Copacabana — 2334-7153.
Qui a sáb, às 21h. Dom, às 18h. R$ 60 (qui), R$ 70 (sex), R$ 80 (sáb e dom). 150 minutos (com intervalo). Não recomendado para menores de 10 anos. Estreia hoje.

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5 Comentários

  1. Bel disse:

    Bastante spoiler!!! Hahahaha
    Muito boa matéria, adorei!

    E semana que vem tem mais Gypsy!!!

  2. REGINA CAVALCANTI disse:

    A cada nova matéria de GYPSY fico mais feliz, este musical é demaisssssssssssss!!!!

  3. Marcia Parenti disse:

    EEEE!!
    Muito boa a reportagem!!! E tem informações bem interessantes sobre as pessoas que viraram personagens!!!

    Merda para todos na estreia hoje!!! O espetáculo está soberbo!!!

  4. Lucas disse:

    A materia ficou otima! E a foto da capa tambem!

  5. Vinicius Teixeira disse:

    ta muuuuuito legal a matéria !!!

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